O ministro Paulo Guedes sabe que o câmbio é um animal selvagem

Os bens exportáveis do Brasil se tornarão mais competitivos e desejáveis, aumentando as dores de cabeça de Donald Trump

Everaldo Leite

Especial para o Jornal Opção

Adeus Disney! O ministro da Economia, Paulo Guedes, advertiu: a desvalorização cambial vai continuar presente por um bom tempo. Na cabeça de muitos cidadãos apareceu um nó matemático. O que significará para mim a taxa de juros básica cair significativamente e a taxa de câmbio subir a um patamar histórico? O que está acontecendo com o país? Há aí uma oportunidade para a economia ou um risco real da inflação ser puxada para cima nos próximos dias? Qual será o impacto social dessa mudança de sinais?

Paulo Guedes quer atrair capital para investimento| Foto: Tânia Rêgo Agência Brasil

Vamos lá. Vemos hoje no mundo uma grande ansiedade a respeito da guerra comercial entre China e Estados Unidos. Os chineses sofrem com uma desaceleração na atividade industrial e aumento nos salários e preços internos. Os EUA, por sua vez, nunca foram tão bem, mas justamente isso tem acendido a luz amarela nos painéis dos analistas. Estão bem demais há tempo demais. Não só isso (deu a louca no mundo!), a União Europeia tem convivido com persistentes problemas fiscais e vai precisar se adequar aqui e acolá ao infeliz Brexit do Reino Unido. Na verdade, o comércio flui, mas pisa em ovos. Os investidores operam, mas com arrepios e calafrios.

Com tamanho ambiente de incertezas, o dólar segue fortalecido lá fora. As confusões políticas em vários países — Hong Kong, Chile, Bolívia, Irã etc. — também alimentam essas incertezas. Existe, portanto, e isto é algo muito sério para nós, uma possibilidade real do mundo entrar numa recessão a partir de 2020 e, na esteira das desgraças, haver um agravamento nas revoltas que temos assistido. Ou, como definiria o historiador britânico Eric Hobsbawm, os próximos anos poderão ser tempos interessantes.

Jair Bolsonaro e Donald Trump, presidentes do Brasil e dos Estados Unidos | Foto: Reprodução

No Brasil a dura realidade impõe o seu preço. Some-se às incertezas externas, não controláveis, as incertezas e incongruências internas, “duramente” conquistadas, e teremos o “plus” de custo do nosso futuro. O leilão malfadado dos campos petrolíferos deixou claro que o país é uma bomba de risco. O péssimo resultado da conta corrente do balanço de pagamentos é também uma boa dica para entender a desvalorização cambial. Ademais, estamos sob a administração de um governo de muita pataquada e alvoroço, mas de pouco empenho para realizar políticas virtuosas.

Enfim, o que interessa agora é saber sobre os impactos do novo câmbio em nossa vida. Estamos com mais um problema nas mãos? De fato, não dá para a classe média pensar tranquilamente em viagens para a Disney. Quem já foi, paciência, deverá fazer uns ajustes no orçamento para cobrir as próximas faturas. Dentro do país talvez se seguirá uma pequena pressão nos preços dos combustíveis (“Meu Deus! Os caminhoneiros!”) e alguns segmentos que importam insumos deverão pensar em como não repassar o custo para o consumidor final. O câmbio real (o nominal descontada a inflação) não está tão depreciado assim e a ociosidade da economia abranda um pouco esse processo de repasse de custos.

Então, por que alguns setores políticos fizeram do câmbio uma celeuma? Pura politicagem. O ministro Paulo Guedes, sem dúvida, tem razão em pedir para que os brasileiros se acostumem com um câmbio depreciado. Ora, a baixíssima taxa de juros e o câmbio depreciado geram um bom ambiente para investimentos produtivos dentro do país. O Brasil deixa de ser atrativo para o capital especulativo de curto prazo e passa a ser uma promessa de retorno sobre a produção. Não é uma ferramenta suficiente para o desenvolvimento – muito mais deve ser feito –, mas, é altamente necessária. Nossos bens exportáveis se tornarão mais competitivos e desejáveis, aumentando nossas reservas e as dores de cabeça do Trump.

Aqui uma advertência, aliás. Se o câmbio depreciado for uma estratégia de longo prazo, o Brasil poderá colher frutos importantes. Se for somente uma situação ocasional, sinto muito, o mercado não corresponderá com investimentos. A ideia de retorno leva em consideração a sua sustentação ao longo do tempo. O câmbio é um animal selvagem, precisa de administração (o Banco Central, de forma discreta, vem fazendo isso), por isso deve ficar bem clara a intenção do governo junto aos potenciais investidores. A China, por exemplo, não permite que haja apreciação do câmbio e, assim, mantém grandes investimentos de longo prazo.

De toda forma, estamos agora exatamente num momento delicado, decepcionante, com baixo investimento privado, investimento governamental exíguo, consumo restringido, crédito vacilante, tudo isso respondendo pouquíssimo à baixa inflação e à baixa taxa de juros. O Brasil é nossa prioridade e a Disney – lugar que nunca pensei em ir – deverá esperar.

Everaldo Leite, economista, é colaborador do Jornal Opção.

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