Euler de França Belém
Euler de França Belém

O escritor Lobo Antunes despreza Pr├¬mio Nobel de Literatura e ataca Jos├® Saramago

O mais celebrado prosador de Portugal da atualidade elogia Tolst├│i, Dostoi├®vski, Dickens, Antero de Quental, padre Vieira e Manuel Alegre

Ant├│nio Lobo Antunes ├® apontado como o maior escritor vivo de Por┬¡tu┬¡gal. ├ë uma esp├®cie de Sa┬¡muel Beckett do pa├¡s. Escritor de uma prosa por vezes dif├¡cil, que exige uma leitura t├úo atenta qu├úo paciente, sua l├¡ngua, quando fala de outros autores, ├® quase sempre corrosiva. Ele lan├ºa na segunda-feira, 15, em Portugal, o romance ÔÇ£A ├Ül┬¡tima Porta Antes da NoiteÔÇØ (Dom Quixote, 456 p├íginas). Entregou outro romance, ÔÇ£A Outra Margem do MarÔÇØ, ├á editora. Numa entrevista pol├¬mica ao jornalista Jo├úo C├®u e Silva, do jornal ÔÇ£Di├írio de Not├¡┬¡ciasÔÇØ (domingo, 7), soltou os ca┬¡chor┬¡ros liter├írios, mas, desta vez, tamb├®m elogiou colegas de of├¡cio. O t├¡tulo ├®: ÔÇ£Ant├│nio Lobo An┬¡tu┬¡nes: ÔÇÿQuero que o Nobel se f*daÔÇØ. Ele praticamente exigiu que a palavra ÔÇ£f*daÔÇØ fosse transcrita. O jornal portugu├¬s a colocou no t├¡tulo ÔÇö trocando a vogal ÔÇ£oÔÇØ por um asterisco, o que, no lugar de disfar├ºar, cha┬¡ma a aten├º├úo para a palavra ÔÇ£foda-seÔÇØ. A repercuss├úo foi imediata na Europa, notadamente nos pa├¡ses de Gon├ºalo Tavares e Javier Mar├¡as.

O entrevistador, segundo o entrevistado, quase n├úo falou, exceto ao perguntar sobre o Pr├¬mio Nobel de Literatura. ├ë uma das primeiras entrevistas-mon├│logos da hist├│ria. Lobo Antunes, que fala por uma alcateia, ataca acima da linha de cintura: ÔÇ£Estou farto de ouvir falar do Nobel, ├® apenas um pr├¬mio liter├írio em que as ├║ltimas pessoas que o t├¬m ganho n├úo me agradam. Os vencedores dos ├║ltimos anos n├úo interessam. Estou t├úo ocupado a escreverÔÇØ. O autor de ÔÇ£Mem├│ria de ElefanteÔÇØ diz que ser inclu├¡do na Biblioteca Pl├¬iade agradou-o mais do que se tivesse ganhado o Nobel de Litera┬¡tura. Depois de citar o escritor americano William Faulkner ÔÇö ÔÇ£descobri que escrever faz-nos erguer sobre as patas de tr├ís e projetarmos uma enorme sombraÔÇØ ÔÇö, o autor de ÔÇ£Os Cus de JudasÔÇØ (o t├¡tulo n├úo ├® bem o que parece, leitor) retoma o ataque: ÔÇ£N├úo me venham falar em N├│beis, que o Nobel se foda ÔÇö ponha as┬¡sim mesmo ÔÇö, ou na grandeza de uma obra de tantos grandes escritores no mundo depois de [Liev] Tolst├│iÔÇØ.

Charles Dickens e Antero de Quental

O Fla-Flu liter├írio de Portugal envolve Jos├® Saramago versus Lobo Antunes. Este, a quem n├úo agrada o ÔÇ£confrontoÔÇØ, bate abaixo da linha de cin┬¡tura: ÔÇ£Saramago ├® uma merda… Se me quiserem comparar com algu├®m ponham l├í o Antero [de Quental], o [Alexandre] Her┬¡culano, ponham assim um escritor. Porque n├úo falam dos dois romances que o Almada [Negreiros] deixou?ÔÇØ Sarama┬¡go n├úo me agrada como escritor, mas claro que n├úo ├® uma merda. A cr├¡tica de Lobo Antunes ├® uma, digamos, boutade, ou melhor, a posi├º├úo de um escritor que escreve muito diferente de outro e n├úo o aceita. Idiossincrasia? Sim, mas todos temos o direito de t├¬-las. H├í os que assumem e os que n├úo assumem que as t├¬m. Lobo Antunes ao menos diz o que pensa.

ÔÇ£A ├Ültima Porta Antes da NoiteÔÇØ ├® o romance de Ant├│nio Lobo Antunes que vai para as livrarias na segunda-feira, 15

Lobo Antunes revela que s├│ vai publicar mais tr├¬s romances e, depois, vai se dedicar ├á poesia, embora n├úo se julgue um bardo de qualidade. Sobre ÔÇ£A ├Ültima Porta Antes da NoiteÔÇØ, o escritor assinala: ÔÇ£Estava cheio de hesita├º├Áes a cada revis├úo e s├│ larguei o livro quando ele j├í n├úo queria que lhe tocasseÔÇØ.

Ao mencionar escritores portugueses que aprecia, Lobo Antunes ├® econ├┤mico: ÔÇ£Nos prosadores que eu gosto come├ºava por Fern├úo Lopes, o grande escritor, D. Duarte e Fern├úo Mendes Pinto. Depois passava para os s├®culos 17 e 18, com D. Francisco Manoel de Melo e Matias Aires. A prosa do Antero [de Quental] ├® maravilhosa, vem como a do grande Herculano, que quase n├úo tem ÔÇÿquesÔÇÖ, o que ├® muito dif├¡cil de evitar. Temos sobretudo grandes poetas, e ├® nisso que mais penso em termos de literatura portuguesaÔÇØ. Mas n├úo cita os poetas, como Fernando Pessoa, Jos├® R├®gio, M├írio de S├í Carneiro e Heberto Helder. Nenhuma vez. Adiante, afirma apreciar os escritores Agustina Bessa-Lu├¡s, portuguesa, Juan Mars├®, espanhol, e Claudio Magris, italiano. Sublinha que gosta ÔÇ£muitoÔÇØ do autor de ÔÇ£Dan├║bioÔÇØ.

ÔÇ£Livros de que gosto muito e considero bons: ÔÇÿD├®cadasÔÇÖ, do Jo├úo de Barros, [padre Ant├│nio] Vieira, uma prosa magn├¡fica, embora um pouco repetitiva, ou [Almeida] Garret, outro magn├¡fico… N├úo estamos mal servidosÔÇØ, afian├ºa Lobo Antunes.

Portugal n├úo fala de Charles Dickens, segundo Lobo Antunes. Mas ├® um grande escritor. ÔÇ£Dickens descreve uma cena num livro que me comoveu: um homem tem a m├úe internada e muito doente num hospital. Vai visit├í-la e pergunta-lhe: ÔÇÿTens dores, m├úe?ÔÇÖ Ela responde: ÔÇÿTenho a impress├úo de que h├í uma dor aqui no quarto mas n├úo sei se sou eu que a tenhoÔÇÖ. Isto ├® extraordin├írio, isto ├® um escritor e h├í muito poucos assimÔÇØ.

N├úo h├í d├║vida de que E├ºa de Queir├│s, autor de ÔÇ£Os MaiasÔÇØ e ÔÇ£O Crime do Padre AmaroÔÇØ, ├® um dos principais escritores de Portugal. Lobo Antunes n├úo corrobora tal avalia├º├úo. ÔÇ£Eu n├úo partilho desse amor por E├ºa de Queir├│s, de quem gostei muito at├® aos 17 anos, depois comecei a escrever mais a s├®rio e a minha admira├º├úo foi diminuindo. N├úo quero entrar em linguagem t├®cnica, mas ├® a maneira como repete os personagens. S├úo sempre as mesmas: o conde de Abranhos noutro livro chama-se conde de S├úo Rom├úo, noutro conselheiro Ac├ício, noutro Gouva┬¡rinho, e as mulheres s├úo todas iguais. Comparado com Dickens ou Tolst├│i existe uma grande dist├ónciaÔÇØ, anota. Em seguida, contraditando o que disse a respeito do autor de ÔÇ£O Primo Bas├¡lioÔÇØ, ressalva: ÔÇ£Esta hist├│ria de classificar os escritores em primeiro, segundo ou terceiro lugar n├úo se aplica ├á arteÔÇØ. Como cr├¡tico, Machado de Assis, morto em 1908, fez melhor, ao notar a influ├¬ncia do franc├¬s ├ëmile Zola na prosa do escritor portugu├¬s. Quanto ├ás personagens que aparecem em v├írios livros, com nomes modificados, o estilo n├úo ├® unicamente de E├ºa de Queir├│s. A implic├óncia teria a ver com a possibilidade, qui├º├í inconsciente, de Lobo Antunes perceber E├ºa de Queir├│s como uma esp├®cie de antecessor direto de Jos├® Sara┬¡mago? Os dois s├úo palavrosos e a literatura do autor de ÔÇ£Memorial do ConventoÔÇØ, um belo romance, ├ás vezes parece a prosa do s├®culo 19 ÔÇö uma mistura de Balzac, Stendhal, ├ëmile Zola e um cadinho da cria├º├úo dos modernistas. Mas ├® curioso um escritor-cr├¡tico que, apreciando Dickens, despreza Saramago. Os dois s├úo escritores, digamos, ÔÇ£sociaisÔÇØ.
Theophile Gautier foi levado por amigos para ver ÔÇ£As MeninasÔÇØ, do pintor espanhol Diego Vel├ízquez. Depois de um sil├¬ncio prolongado, quiseram saber o que o escritor havia achado. ÔÇ£Onde est├í o quadro?ÔÇØ, indagou. Lobo Antunes considera que ÔÇ£├® a melhor cr├¡tica de pinturaÔÇØ que conhece. ÔÇ£O ideal seria que me dissessem: onde est├í o seu livro? Tem de me devolver o dinheiro porque comprei o livro e afinal n├úo estou a ler um. (…) A arte ├® trabalho. O que distingue um grande escritor dos outros ├® que trabalha mais. Dantes, pessoas que estavam a come├ºar vinham ter comigo e pediam opini├úo. Eu dava e dizia que ainda havia bastante trabalho a fazer, mas voltavam dois dias depois e diziam ÔÇÿj├í emendei tudoÔÇÖ. As pessoas n├úo t├¬m sentido cr├¡tico. O que ├® um livro bom? Porque acho que ÔÇÿGuerra e PazÔÇÖ ├® um livro bom e um livro de Odette de Saint-Maurice ├® mau? Os livros bons s├úo maiores do que a vida. Se lermos ÔÇÿOs Dem├┤niosÔÇÖ, de Dostoi├®vski, perguntamo-nos como ├® que aquele homem conseguia encher os livros de grandes trevas vivas? Se o escritor n├úo as tem n├úo ├® bom…ÔÇØ.
Joseph Conrad empolgou Lobo Antunes por certo tempo, mas hoje n├úo o admira tanto. Mas, em ÔÇ£O Co┬¡ra├º├úo das TrevasÔÇØ, tem uma fra┬¡se que o portugu├¬s avalia como ver┬¡dadeira: ÔÇ£Tudo o que a vida nos po┬¡de dar ├® um certo conhecimento dela que chega sempre tarde demaisÔÇØ.

ÔÇ£Nunca fico seguroÔÇØ

E├ºa de Queir├│s, autor de ÔÇ£Os MaiasÔÇØ, ├® um autor menosprezado por Lobo Antunes

Ao comentar sobre o c├óncer e a luta das pessoas para ficarem vivas, Lobo Antunes sugere que ÔÇ£n├│s fo┬¡mos feitos para a morte e n├úo para a vida, mas, enquanto estou vivo, devo tirar alguma alegria dissoÔÇØ.

Quando o neurocirurgi├úo Jo├úo Lobo Antunes, irm├úo do escritor, estava muito doente, os dois conversaram sobre a vida, numa esp├®cie de despedida n├úo-dita (o m├®dico morreu em 2016). Eles se entendiam at├® pelo sil├¬ncio. Ao final, se abra├ºaram e Jo├úo Lobo Antunes chorou. Depois, disse: ÔÇ£N├úo digas a ningu├®m que me viste chorarÔÇØ. ÔÇ£Se conseguirmos escrever assim, com esta economia, transmitimos todos os sentimentos de quem quer viver e n├úo vai conseguir.ÔÇØ

Escritor de primeira linha, admirado em todo o mundo, notadamente na Europa ÔÇö sempre cotado para ganhar o Nobel de Literatura ÔÇö, Lobo Antunes diz que est├í ÔÇ£coberto de gl├│ria, mas isso n├úo interessa nada, queria era fazer livros bons. Acho que tenho vindo a conseguir estar mais perto daquilo que considero ser um bom livro. N├úo sei se chegarei a fazer um bom, e n├úo estou a ser falsamente humilde, pois sou bem vaidoso [ÔÇ£g├¬nio ÔÇö que ├® uma coisa que acho que tenhoÔÇØ). (…) Agora ├® que vejo bem que ningu├®m escreve como eu, mas ainda me falta alguma coisaÔÇØ. O criador de ÔÇ£Eu Hei-de Amar uma PedraÔÇØ renega a ideia de ang├║stia da influ├¬ncia, ao menos a respeito de si? N├úo h├í uma pitadinha de Faulkner e Beckett na sua prosa complexa? O escritor modernista de Por┬¡tu┬¡gal existiria sem Joyce, Proust, Vir┬¡ginia Woolf, Beckett, n├úo ci┬¡tados na entrevista, e Faulkner?

Jos├® Saramago, como escritor, ├® uma ÔÇ£merdaÔÇØ, critica o prosador Ant├│nio Lobo Antunes

Aos 76 anos, tendo escapado de um c├óncer e perdido dois irm├úos (ÔÇ£Um dos problemas de a gente n├úo morrer ├® que a morte de quem gostamos ├® horr├¡velÔÇØ), Lobo Antunes pergunta: ÔÇ£O que foi a minha vida? O que fiz dela? O que vou fazer nos anos que faltam? Que espero n├úo sejam muitos porque n├úo quero assistir ├á decad├¬ncia. A partir dos 40 [anos] come├ºa-se a notar e a vida passa a ter um peso que n├úo havia, parece que nos empurra para baixo e temos menos paci├¬ncia para certas coisas. Como naquele verso do [Ant├│nio] Nobre: ÔÇÿOlha, acol├í, tantos Est├║pidos! Meus Deus. Morrendo, diz-se, v├úo para o reino dos c├®usÔÇÖ. (…) Eu tinha imensa paci├¬ncia para est├║pidos e deixe de a terÔÇØ. O escritor frisa que os jornais est├úo cada vez mais mal escritos: ÔÇ£Vejo os jornais, meu Deus, e as pessoas que escrevem l├íÔÇØ.

Padre Antônio Vieira, Alexandre Herculano, Antero de Quental, Manuel Alegre: quatro autores portugueses que ainda são admirados e lidos com prazer pelo escritor António Lobo Antunes

Escritores escrevem, revisam e reescrevem ÔÇö ├® um trabalho quase sem fim. Entregar o livro ├á editora ├® um sacrif├¡cio para quase todos. Lobo Antunes figura entre aqueles que se sentem absolutamente seguros? Ele tem plena consci├¬ncia de seu talento, mas… ÔÇ£Enquanto estou a escrever nunca fico seguro, e h├í muitas vers├Áes do livro; as primeiras s├úo imperfeitas, se calhar as ├║ltimas tamb├®m… Sendo sincero, n├úo vejo ningu├®m que escreva como eu, mas, sendo ainda mais sincero, eu tamb├®m n├úo escrevo como eu. Tenho de o fazer melhor, livros mais fortes e que estejam mais perto dos homens. (…) Para escrever um livro fa├ºo um plano muito detalhado mas a m├úo acaba por fugir e torna-se uma entidade aut├┤noma. (…) Os outros escrevem, eu fa├ºo outra coisa. E se o conseguir fazer, ent├úo ├® bomÔÇØ.

Liev Tolstoi, Fi├│dor Dostoi├®vski, russos, e Charles Dickens, brit├ónico, s├úo escritores cuja literatura mesmeriza Ant├│nio Lobo Antunes. Seu grande ├¡dolo ├® o autor de ÔÇ£Guerra e PazÔÇØ e ÔÇ£Anna Kari├¬ninaÔÇØ

O poeta Manuel Alegre

No melhor estilo de Paulo Francis ÔÇö que sempre repetia a piada de que havia 315 cr├¡ticos de cinema em cada reda├º├úo ÔÇö, Lobo Antunes conta que 45 artistas portugueses foram convidados a participar da Feira do Livro de Guadalajara. ÔÇ£Mas h├í 40 artistas em Portugal? Extraordin├írio! E eu no meio daquilo sou convidado de honra, entre todos aqueles g├¬nios.ÔÇØ
Ap├│s depreciar g├¬nios portugueses, Lobo Antunes admite que ÔÇ£o ├║ltimo livro do Manuel Alegre ├® muito bom, fiquei t├úo contente porque cada vez que aparece uma pessoa a fazer bem tamb├®m sou eu que fa├ºoÔÇØ. Aos 82 anos, Manuel Alegre, poeta, ├® autor de ÔÇ£Todos os Poemas S├úo de AmorÔÇØ (Dom Quixote, 136 p├íginas). Lobo Antunes n├úo menciona escritores mais jovens, como Gon├ºalo Tavares e Valter Hugo M├úe. Africanos de L├¡ngua Portuguesa ÔÇö como Mia Couto e Jos├® Eduardo Agualusa ÔÇö n├úo s├úo lembrados. O autor de ÔÇ£O Manual dos InquisidoresÔÇØ prefere citar escritores mortos ou, se vivos, bem mais velhos (talvez autores de prosa e poesia ÔÇ£quaseÔÇØ conclu├¡das, e n├úo em evolu├º├úo).

No Brasil, no lugar de incentivar a leitura, bestas quadradas implicam at├® com romances infantis e infanto-juvenis, sugerindo que ao menos um deles, de Ana Maria Machado, uma das mais not├íveis autoras patropis, ÔÇ£promoveÔÇØ o suic├¡dio. Livros politicamente corretos s├úo, em geral, de uma chatice infinita (Tolst├│i e Dostoi├®vski, se fossem brasileiros, seriam denunciados e, possivelmente, at├® presos).

Um problema grave ├® apontado por Lobo Antunes: ÔÇ£As pessoas compram cada vez menos livrosÔÇØ. Acrescento: e, quando compram, ├ás vezes nem leem (at├® intelectuais est├úo trocando a leitura, que exige tempo e paci├¬ncia, pelo escapismo prato-feito das s├®ries). Sem contar Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimar├úes Rosa, Clarice Lispector, Raquel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Jo├úo Cabral de Melo Neto, temos, entre os vivos, prosadores e poetas de excelente qualidade, como Ronaldo Costa Fernandes, Miguel Sanches Neto, Crist├│v├úo Tezza, Bernardo Carvalho, Bernardo Ajzenberg, Edival Louren├ºo, Wesley Peres, Ant├┤nio Jos├® de Moura, Miguel Jorge, Darcy Den├│frio, Heleno Godoy, Ad├®lia Prado, Milton Hatoum e Ang├®lica Freitas. Os brasileiros est├úo lendo sua prosa e sua poesia, mas menos do que deveriam.

Lobo Antunes recomenda que se d├¬ ÔÇ£grandes livrosÔÇØ aos leitores. ÔÇ£Mas os mi├║dos s├úo logo ensinados na escola a n├úo gostarem da literatura. Andar a dividir Cam├Áes em ora├º├Áes afastou-me dele. Queria l├í saber! N├úo nos ensinam a gostar destas pessoas nem de qualquer forma de arte. Queria escrever como os saxofonistas de jazz, como o Charlie Parker, parece que ├® Deus que est├í a falar por ali. Uma vez, numa sess├úo de improvisa├º├úo, ele atira o saxofone para o ch├úo e come├ºa a pis├í-lo at├® o amolgar todo e a dizer ÔÇÿj├í toquei isto amanh├úÔÇÖ. Ele era um g├¬nio e ainda hoje quando o ou├ºo fico com os pelos todos no ar. ├ë preciso sofrer muito para o leitor ter prazer, o Charlie Parker sofria como um c├úo.ÔÇØ Jo├úo Lobo Antunes trabalhou num hospital dos Estados Unidos, como neurologista. Certa vez, estando Charlie Mingus internado, Lobo Antunes convenceu o irm├úo m├®dico a lev├í-lo ÔÇ£at├® eleÔÇØ.

Livros est├úo caros e os portugueses ÔÇ£ganham muito poucoÔÇØ, diz Lobo Antunes. No Brasil n├úo ├® diferente: livros sobre a Segunda Guerra Mundial, se tiver mais de 500 p├íginas, est├úo custando de 80 a 120 reais. Quanto ao escritor portugu├¬s, h├í outro empecilho: ÔÇ£Os meus livros nem sempre s├úo f├íceis; porra, n├úo me apetece estar a dar trabalho aos leitores. Queria que ler fosse uma fonte de prazer como ├® para mim quando leio um grande livro. (…) Gosto tanto deste objeto, o livro, apetece-me cheir├í-loÔÇØ.

Escritores releem o que escrevem? Nem sempre, para n├úo encontrar defeitos. Garc├¡a M├írquez descobriu ÔÇö na verdade, descobriram para o escritor ÔÇö que uma personagem de ÔÇ£Cem Anos de Solid├úoÔÇØ, depois de morrer, reapareceu p├íginas adiante. Erro mesmo. Pois Lobo Antunes n├úo deixa de reler o que escreve. ÔÇ£Estive a ler os livros que escrevi e n├úo me envergonham. Li ÔÇÿO Auto dos DanadosÔÇÖ e gostei muito, eles s├úo bons e n├úo estava nada com esta ideia, at├® ÔÇÿMem├│ria de ElefanteÔÇÖ, que o [editor franc├¬s, Philippe] Bourgois dizia que era o melhor primeiro romance que conhecia.ÔÇØ Bourgois escreveu para o portugu├¬s: ÔÇ£├ës meu irm├úo e n├úo h├í escritor no mundo que admire tantoÔÇØ. ÔÇ£Vale a pena falar de Nobel depois de receber isto do Bourgois?ÔÇØ, inquire Lobo Antunes ao entrevistador. Aprecio Lobo Antunes, mas n├úo diria o mesmo que o franc├¬s. ├ë um par de Ian McEwan e Joyce Carol Oates ÔÇö talvez a mais not├ível escritora americana viva ÔÇö, mas superior, n├úo.

Com inveja dos poetas, Lobo Antunes diz que est├í pensando em retomar a ÔÇ£carreiraÔÇØ de poeta, embora admita que n├úo tem jeito para a coisa. Durante a conversa com o rep├│rter do ÔÇ£DNÔÇØ, ele recita Ant├┤nio Reis.

No dia a dia, a vida de Lobo Antunes ├® espartana. ÔÇ£Tenho esta vida est├║pida, sem computador, celular, cart├úo de cr├®dito, nem carro tenho. Sou livre, ├® ├│timo.ÔÇØ Ele ironiza as universidades americanas, que competem para ter seus manuscritos. Gostaria de escapar da ÔÇ£cr├¡tica gen├®ticaÔÇØ?

N├úo ├® qualquer escritor, exceto Scott Fitzgerald, que ├® capaz de escrever a frase ÔÇ£na noite mais escura da alma s├úo sempre tr├¬s horas da manh├úÔÇØ. Um haiku de Bash├┤ ÔÇö ÔÇ£Os quimonos pendurados secam ao sol, ai as mangas pequenas da crian├ºa mortaÔÇØ ÔÇö levou Lobo Antunes ├ás l├ígrimas. ÔÇ£OÔÇÖNeil tem raz├úo quando escreve no fim de um poema ÔÇÿS├│ entre os homens e por eles. Vale a pena sonharÔÇÖÔÇØ.

No final da entrevista ÔÇö que, a rigor, n├úo ├® entrevista convencional, o entrevistado fala o que quer, sem interrup├º├úo ÔÇö, Lobo Antunes critica, em tom mais ir├┤nico do que irritado: ÔÇ£Tirando a pergunta do Nobel n├úo abriu a boca! N├úo fez pergunta, que chatice…ÔÇØ. Ainda assim, uma auto entrevista sensacional. O grande Jo├úo C├®u e Silva agiu de maneira s├íbia.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.