Euler de França Belém
Euler de França Belém

O erro que quase leva um inocente a ser “condenado” por crime que não cometeu

Hian Alves de Oliveira cometeu dois crimes: matou uma criança de 7 anos e, para encobrir a morte, inventou um assassino

As reportagens de todos os jornais apresentaram, num primeiro momento, Reginaldo Lima como “assassino” do enteado Danilo de Sousa Silva, de 7 anos. As evidências apontavam para ele, sobretudo porque o pedreiro Hian Alves de Oliveira havia “acusado Reginaldo Lima de ser o responsável pela morte do menino.

Preso, apesar de intensamente pressionado, Reginaldo Lima negou ser o “assassino”. Como tinha histórico policial, por ter agredido sua companheira, passou de “suspeito” a praticamente “acusado”. Ante a opinião pública, já estava “condenado”. Era o “monstro”. Entretanto, ante a veemência com que negava ter cometido o crime, policiais experimentados certamente perceberam, a partir de certo momento, que alguma coisa estava errada.

Reginaldo Lima talvez fosse o “homem errado”, diria Alfred Hitchcock. Alguma coisa não batia. Os fatos poderiam ser outros. Assim, ante a negativa peremptória do padrasto, a polícia finalmente chegou a Hian Alves, o “acusador”, quase um juiz honorário.

Danilo de Sousa Silva, como foi assassinado aos 7 anos, é a única vítima incontornável | Foto: Reprodução

A polícia concluiu que Hian Alves havia matado Danilo de Sousa Silva, porque possivelmente não tenha tido coragem — ou dado conta  — de matar Reginaldo Lima.

A história de Hian Alves, de tão grega e de tão dostoievskiana, sugere um enredo ficcional. Mas o ciúme, financeiro ou por amor, está mesmo na raiz de muitos crimes. Hian relatou à polícia que o pastor evangélico que o abrigava também ajudava Reginaldo Lima — o que o irritou. Talvez por egoísmo, maldade ou da falta de lógica da vida (ecos do Meursault de Albert Camus?), decidiu “puni-lo” matando uma criança, responsabilizando-o pelo assassinato.

Fica-se com a impressão de que ainda há uma história para ser contada, que lhe dê um sentido mais lógico, se é que a vida tem tanta lógica assim (talvez seja regida mais pelo acaso).

De qualquer modo, se o caso realmente estiver fechado, como parece, tanto a polícia quanto a imprensa devem um pedido de desculpas a Reginaldo Lima.

O competente advogado José Patrício Júnior diz que Reginaldo Lima vai passar uns tempos fora de Goiânia, porque tem receio de alguma violência. Embora não seja o assassino de Danilo, a história comoveu tanto a sociedade, encheu-a de uma espécie de “ódio bendito”, que o jovem pode ser agredido.

Pouco notada, mas deve realçada: a capacidade de Hian Alves para inventar um “culpado” para “inocentar-se”. De maneira planejada, o jovem, com menos de 20 anos, cometeu, a rigor, dois crimes: o assassinato de uma criança e a responsabilização falsa de outra pessoa. Um crime para encobrir outro crime.

Agora, é esperar que não ocorra uma nova reviravolta. Fica a lição: nós, da imprensa, precisamos ter mais cautela. A polícia também precisa ser mais cautelosa. Talvez sob pressão da sociedade, inclusive da imprensa, a polícia se exaspere e tente encontrar, o mais rapidamente possível, o responsável por um crime. Daí a possibilidade de “errar”, como aconteceu, acaba por aumentar. Pelo menos, felizmente, Reginaldo Lima está livre e poderá reorganizar sua vida — em paz e sem ódio no coração. Ao deixar a prisão, o jovem ganhou uma bíblia…

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