O diretor de teatro Marcos Fayad encenou de Artaud a Beckett

Alguém que o tenha conhecido, mesmo que minimamente, é capaz de imaginá-lo no mesmo palco frequentado por um Alexandre Frota?

Halley Margon Jr.

Especial para o Jornal Opção

Tinha uma coisa muito curiosa entre mim e o Marcos. Quase todas as vezes que ele me ligava eu dizia: Marcos, você não vai acreditar, mas juro que ontem ou anteontem eu pensei em você. Era a mais pura verdade. Sempre que ele me ligava um ou dois dias antes, às vezes no mesmo dia, eu tinha pensado nele. Ele tinha umas coisas meio místicas, dele, coisas de bruxo que era, e acreditava nessas premonições ou o que fosse — que para mim eram simples coincidências, até que, de tanto se repetirem, comecei a achar curiosas.

Marcos Fayad, diretor e ator de teatro e cinema | Foto: Jornal Opção

Ríamos bastante, é claro.

Conto isso também para dizer que essas premonições tinham se interrompido já havia algum tempo. E desde antes da minha vinda para Barcelona — uma das cidades que ele amava e uma das tantas onde havia gente que o amava. Nos últimos três anos nos afastamos. Eu me deixei afastar, exasperado com todos quantos não se opunham claramente à infâmia política que estava se armando no Brasil e que resultou no governo dessa obscenidade chamada Bolsonaro.

Tínhamos nossas diferenças políticas, sempre tivemos. Mas havia um respeito mútuo e um amor estranho, profundo, meio que de apátridas (aqueles que vivem e amam a singularidade e sentem repulsa pelos rebanhos) — onde também havia diferenças. Marcos, como bom ator que era, amava o palco e, portanto, as plateias. Seu público. Amava que o amassem. É claro. Não tinha nenhum pudor quanto a isso. Por que deveria? E quase no mesmo diapasão adorava suas origens. Adorava, simplesmente isso. Tinha um vínculo visceral, carnal, apaixonado, sincero e radical — como tudo nele — pelo lugar onde nasceu. Que outra explicação pode existir para o fato de que o cara que encena Beckett, Artaud e que tais nos anos 60/70 no Rio de Janeiro volte para Goiás para encenar obras de cunho regionalista (não há aqui nenhum juízo de valor)?

Nas últimas três décadas, a partir de quando voltei a morar no Rio, ele ficava lá em casa quase todas as vezes que ia à cidade — para onde foi sozinho mal saído da adolescência, para ser aquilo que estava marcado, artista. E artista, ele me dizia rindo, não era coisa que merecesse muito crédito lá onde ele havia nascido. Então, tinha que ir pro Rio, conquistar os palcos da capital cultural do país (não era, nunca foi limitado ou provinciano) e ser apátrida e amar de longe o berço para voltar um dia e ser querido. E assim estava escrito, acho. E se assim não estivesse ele trataria de fazer. E assim foi. E assim foi.

O que o impediria?

Às vezes eu dizia pra ele, Marcos sua energia me cansa. E isso também era verdade. O que nunca me cansava eram suas histórias — e suas risadas, altas, sempre em altíssimo volume, mesmo pelo telefone. A disposição para fazer seu teatro mesmo no ambiente o mais desfavorável e inóspito. Nunca houve uma visita ao Rio na qual ele não expusesse um dos seus planos para obter financiamento e mostrar seu teatro no Brasil, fora do Brasil — Portugal, Espanha, Venezuela etc, países onde de alguma forma ainda tinha seus admiradores, gente que reconhecia a originalidade do seu teatro e esperava vê-lo de novo.

Sim, sempre tivemos diferenças na política. Eu achava inconcebível que um sujeito tão iluminado no campo da arte, alguém tão completamente apaixonado por Artaud (quando há poucos anos atrás saiu uma biografia dele no Brasil e eu a enviei de presente sem avisar que havia enviado, a primeira coisa que fez foi me ligar e aos berros, como era típico dele, fazer uma imensa e apaixonada e linda declaração de amor), um maldito radical e outsider, pudesse por um segundo sequer conciliar com qualquer aspecto da existência conservadora. Então, desgraçadamente, nos últimos anos, quando o Brasil foi se tornando literalmente irrespirável para mim, ainda antes de se aventar a possibilidade da vitória do atual presidente, eu fui me afastando de todos quantos não se declararam abertamente contra o vendaval que ao fim e ao cabo conduziu ao neofascismo bolsonarista. Até do Marcos!

Diretor Marcos Fayad: “Trabalhamos para apresentar espetáculos que encham os olhos e falem ao coração” | Foto: Adalberto de Queiroz

De vez em quando dava uma espiada no FB pra matar a saudade e ver o que ele estava falando. É claro que ele nunca manifestou qualquer sombra de apoio a essa gente. Sua natureza não o permitiria. A mim me parecia que havia se recolhido em certo silêncio melancólico, que só não se tornou completo porque sua energia e seu amor pelo seu público o impossibilitavam. Ou alguém que o tenha conhecido, mesmo que minimamente, é capaz de imaginá-lo no mesmo palco frequentado por um Alexandre Frota? — que não se enganem quanto a isso uns tantos gatos pingados que o bajulavam sem jamais terem sequer vislumbrado a estatura ética da sua arte.

Mas o fato é que as premonições se interromperam e havia muito tempo que não nos falávamos. Volta e meia ele vinha à memória mais profunda e afetiva. Não faz dois meses me vi dizendo a mim mesmo que precisava ligar pra ele e perguntar, como fazia quando morava no Rio: Marcos, por que você não vem passar uns dias aqui em Barcelona com a gente? Eu e a Isabel íamos adorar…

Halley Margon Jr. é escritor.

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