O corsário francês Duguay-Trouin “sequestrou” o Rio de Janeiro em setembro de 1711

28 setembro 2015 às 16h51
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Corte Portuguesa foi obrigada a pagar resgate em ouro, açúcar e gado. Portugueses tentaram mas não conseguiram esconder o eldorado brasileiro
Jarbas Silva Marques
[Duguay-Trouin (à esquerda) com o rei francês Luís XIV]
Desde que Hernan Cortez invadiu o México e Francisco Pizarro, o Peru, e perpetraram o maior genocídio nas Américas, destruindo as civilizações dos Astecas, Maias, Toltecas e Incas, o ouro passou a ser a cobiça dos povos europeus. A Coroa Portuguesa, ociosa e carola, manteve-se quase 50 anos satisfeita com o extrativismo e com o seu colonialismo leniente a exigir dos bandeirantes a descoberta do “eldorado brasileiro”.
O endividado Reino Português pouco fazia diante das investidas francesas no Rio de Janeiro e no Maranhão; só quando Nicolau Durand de Villegaignon, em 1555, instala dois canhões no promontório onde está edificada a Fortaleza de Santa Cruz é que se organiza, em Portugal, a resistência à “Utopia Tropical” dos Huguenotes, com a nomeação, em 1560, de Mem de Sá como governador-geral do Rio de Janeiro.
A ação de Mem de Sá e seu sobrinho Estácio de Sá gerou o primeiro movimento contra o colonialismo português, a Confederação dos Tamoios.
Atribui-se ao mineiro prático Luiz Martins — enviado por Catarina de Habsburgo — e a Brás Cubas a descoberta de ouro em 1561.
Até na lápide de seu túmulo Brás Cubas “reivindicava” para si esta descoberta.
Portugal instigava seus representantes na colônia brasileira em busca da “Lagoa Dourada”, pressionando os “paulistas”, e estes os indígenas, para encontrarem ouro, já que os espanhóis levavam as toneladas para a Espanha, inoculando na Europa a febre do ouro.
Os paulistas matreiramente faziam corpo mole na busca das minas de ouro, pois sabiam que, junto com o ouro, viria a voracidade do colonialismo português.
Diante da coerção do colonialismo português, os indígenas brasileiros inventaram a “Sabarabuçu”, local onde estariam as maiores jazidas.
A primeira expedição foi a de Luiz Martins e Brás Cubas que, seguindo uma antiga trilha indígena, os levasse de Piratininga até as nascentes do Rio São Francisco, onde acreditavam estaria a tão procurada “Sabarabuçu”.
Ascende ao trono português Dom Sebastião, o Esperado, o último descendente da dinastia de Avis, preocupado apenas, no dizer do historiador Oliveira Martins, em “arrasar os muros de Constantinopla ou apoderar-se do Califado do Egito ou libertar a Palestina ou conquistar Marrocos”.
O Brasil Colônia desaparece das preocupações de Dom Sebastião, até que em agosto de 1578, na Batalha de Alcácer Quibir, no Marrocos, ele desaparece sem que se saiba se foi aprisionado ou morto, passando à história como adjetivação aos messianismos sociais no Brasil, de Canudos, dos Pelados em Santa Catarina a Santa Dica em Pirenópolis.
Com sua morte, e sem deixar herdeiros, seu primo, Filipe II, da Espanha, envia uma tropa de 20 mil soldados a Alcântara e anexa Portugal ao Reino Espanhol.
Essa anexação faz desaparecer, na prática, o Tratado de Tordesilhas, celebrado entre Portugal e a Espanha em 1494, no qual dividiam o “mundo” a ser descoberto e que motivou os protestos do rei francês Francisco I, que disse desconhecer o testamento de Adão e Eva deixando o mundo como herança a portugueses e espanhóis.
Os bandeirantes paulistas ultrapassaram a Linha de Tordesilhas, em cuja área física estão Brasília e o atual Distrito Federal, e que, graças a ação diplomática do avô da diplomacia brasileira, Alexandre de Gusmão, iria anexar em 1750, por meio do Tratado de Madri, os 5.500.000 quilômetros quadrados que dão a continentalidade ao Brasil, que hoje se limita em 10 países americanos que se constituíam na América Espanhola.
Afinal o ouro
A restauração do Reino Português ocorre em 1640, depois de 60 anos do jugo de Castela, quando os portugueses invadem o Palácio da Ribeira, em Lisboa, prendem a duquesa de Mântua e jogam pela janela o seu secretário de Estado, Miguel de Vasconcelos.
Fernão Dias Paes Leme [ilustração acima], depois de Domingos Jorge Velho, o sanguinário bandeirante paulista que destruiu o Quilombo de Palmares, em Alagoas, era o bandeirante de maior fama em “prear índios'” e os escravizar. Era um rico fazendeiro na região onde hoje é a cidade de São Paulo, chegando a administrar, segundo Pedro Taques em “Nobiliarquia Paulistana”, 5.000 índios. Ele passou a ser cortejado por Afonso VI e Dom Pedro II, de Portugal, para organizar uma gigantesca expedição em busca da procurada “Sabarabuçu”.
Em 1671, recebeu uma carta do governador-geral do Brasil, o Visconde de Barbacena, em que ele oferecia o apoio colonial e, ao mesmo tempo, pedia-lhe segredo quanto às descobertas, para evitar a cobiça internacional, já manifestada por franceses e holandeses.
Fernão Dias Leme dissipou sua fortuna acreditando no apoio colonial e foi traído por Pedro II, que nomeou Rodrigo Castelo Branco como “administrador-geral das Minas da Sabarabuçu”.
O gigante físico Fernão Dias passa à história como o “Caçador de Esmeraldas”, morrendo sem descobrir a tão decantada “Sabarabuçu”.
No dia 18 de março de 1694, Dom Pedro II, de Portugal, expediu uma curta ordem ao governador-geral do Brasil, que, segundo o jornalista e historiador Lucas Figueiredo, “mudaria a história do Mundo”. Nela o rei português prometia a posse da mina ao seu descobridor.
Diante desse fato os paulistas começaram a “achar” o ouro que relutaram por 150 anos em saber da sua existência.
A “Sabarabuçu” pôde então ser encontrada no território por onde pisara Fernão Dias Paes Leme e seu cunhado Borba Gato.
Apesar da controvérsia entre historiadores, eis que inúmeras jazidas de ouro foram achadas ao mesmo tempo no atual Estado das Minas Gerais. A primeira descoberta documentada alude ao bandeirante Antônio Rodrigues Arzão, em 1693, nas proximidades do atual município de Viçosa; seguiram-se as minas de Sabará, Caetés e Ouro Preto.
Morto Fernão Dias, seu cunhado Manoel Borba Gato [estátua acima] era quem mais conhecia o sertão; por esta razão, depois de ficar escondido 16 anos, acusado de assassinar o catalão Rodrigo Castelo Branco, nomeado administrador-geral das Minas de “Sabarabuçu”, foi procurado pelo governador do Rio de Janeiro, Artur Sá de Meneses, que negociou o perdão pelo assassinato de Rodrigo Castelo Branco se, em troca, Borba Gato indicasse as minas de ouro, para tirar da insolvência financeira o governo colonial português.
Enfim, 104 anos após o Tratado de Tordesilhas, “Sabarabuçu”, o Eldorado Português, tinha a sua descoberta proclamada.
Inicia-se a “Febre do Ouro” e, apesar da política de segredo do governo português, a corrente migratória praticamente despovoou o norte de Portugal, do Douro, Trás-os-Montes e o Minho, obrigando a Corte Portuguesa a baixar leis proibindo a migração para o Brasil.
Os paulistas, que relutaram por mais de 150 anos de se transformarem de agricultores e criadores em mineradores, correram para as minas da “Sabarabuçu”, com a experiência adquirida nas Entradas e Bandeiras em prover roças e lavouras como estratégia de sobrevivência.
A migração foi intensíssima: em menos de seis meses mais de 10 mil garimpeiros acorreram às jazidas descobertas. Ouro havia para todos, mas alimentos não havia para saciar esses milhares de soldados da fortuna. Os paulistas passaram a cobrar preços escorchantes pelos alimentos. Nascia então as sementes da Guerra dos Emboabas.
Essa migração intensíssima podemos compará-la ao que o Brasil vivenciou em 1980 com Serra Pelada, e Brasília, em 1981, com as novas jazidas de cristal de rocha em Cristalina.
Os paulistas, descobridores das minas de ouro, sofreram a invasão dos emboabas — que significava as aves de arribação; dessa luta decorreram várias batalhas, nas quais os paulistas foram derrotados. Manoel de Borba Gato era o líder dos paulistas e Manoel Nunes Viana, dos Emboabas.
A derrota dos paulistas na “Sabarabuçu” impulsionou a criação do gado vacum e muar para a região Centro-Oeste, a ponto de a Coroa Portuguesa baixar normas criatórias que os afastassem das regiões agrícolas de Goiás e Mato Grosso onde haviam garimpos de ouro e diamante.
Depois da derrota na Guerra dos Emboabas, Borba Gato, expulso de Minas Gerais, vem em busca do ouro nos sertões de Goiás e se estabelece na então Santo Antônio das Mangas, hoje São Romão, às margens do Rio São Francisco, ocupando a posição estratégica de ponto de ligação de Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás e o litoral.
Em São Romão, a filha caçula de Borba Gato, Thereza da Fonseca Borba Gato, se casa com o português José Monteiro Guimarães; mudam-se para o sul da atual cidade goiana de Formosa, originando a família Monteiro Guimarães, da qual descende Honestino Monteiro Guimarães, proto-mártir de Brasília e vítima da ditadura civil-militar de 1964, figurando como desaparecido político desde 1973.
A escalada da produção aurífera rende, dois anos após a Guerra dos Emboabas, 200 quilos de ouro à Coroa Portuguesa, atingindo, em 1741, cerca de 12 toneladas. O que a Coroa Portuguesa nunca revelou e nem quantificou foram os diamantes descobertos à flor da terra, em Diamantina, e que eram enviados em caixas para Portugal.
A cobiça
A cada navio que chegava a Lisboa, os espiões franceses, ingleses e holandeses informavam seus países da riqueza que fluía do Brasil.
Embora a capital do Brasil Colônia ainda fosse Salvador, as riquezas que saíam das minas de ouro e diamantes de Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás chegavam ao Rio de Janeiro pela Estrada Real a partir de Diamantina.
As feridas entre os combatentes da Guerra dos Emboabas ainda estavam abertas quando, na França, a Companhia de Chatelain-de-Neuville organizou uma frota sob o comando do corsário francês Jean-Francois du Clerc, recém-promovido a capitão-de-fragata à frente de 1.500 homens, marinheiros e soldados, para invadir o Rio de Janeiro.
No dia 17 de agosto de 1710, a esquadra francesa chegou à entrada da Baía da Guanabara e, após receber um canhoneio da Fortaleza de Santa Cruz, recuou até as proximidades de Guaratiba. Depois de saquear algumas fazendas na região, iniciou com suas tropas o deslocamento por terra em direção ao Rio de Janeiro.
De Jacarepaguá Du Clerc contornou o Engenho Velho, entrando na cidade pelo atual bairro do Catumbi, dirigindo-se a Santa Tereza; no Morro do Castelo sofreu o primeiro combate, que iria culminar na sua derrota e aprisionamento no dia 21 de setembro.
Nos combates se sobressaiu o capitão Bento do Amaral Coutinho à frente dos estudantes do Rio de Janeiro. Nem Varnhagen, nem o Barão do Rio Branco e nem o general Augusto Tasso Fragoso aludiram, em suas copiosas pesquisas sobre as invasões francesas no Rio de Janeiro, que Bento do Amaral Coutinho, à frente dos estudantes, era o mesmo sargento-mor do episódio conhecido como o “Capão da Traição”, na Guerra dos Emboabas.
Jean Du Clerc morreu assassinado no dia 18 de março de 1711, na casa em que recebeu por ménage; mesmo antes de Du Clerc ser morto no Rio de Janeiro, o almirante René Duguay-Trouin já organizava uma outra esquadra para invadir o Rio de Janeiro.
O sequestro
Mesmo antes de Jean du Clerc organizar a esquadra financiada pela Companhia Chatelain-de-Neuville, o corsário francês René Duguay-Trouin [abaixo, em pintura do século 18] já pensava em organizar uma grande operação de corso na cidade do Rio de Janeiro. Ao contrário de Du Clerc, ele não pretendia desembarcar e seguir por terra e ser fustigado pelas guerrilhas de Bento Amaral.
Sua esquadra se compunha de 17 navios artilhados de 420 canhões, enquanto o Rio de Janeiro, da Fortaleza de Santa Cruz até a Ilha das Cobras, possuía 164 canhões, dos quais dezesseis eram de bronze.
O governador do Rio de Janeiro, Francisco de Castro Morais, já tinha sido avisado da chegada da grande esquadra de Duguay-Trouin e que, em aproximadamente 20 dias, ela estaria próxima da cidade.
Favorecido por uma intensa neblina, ao meio-dia de 12 de setembro de 1711, René Duguay-Trouin alinhou sua flotilha e, no navio comandado por Courserac (que já conhecia a entrada da Baía da Guanabara) e apesar do canhoneio da Fortaleza de Santa Cruz, às quatro da tarde sua esquadra já estava fundeada na Baía de Guanabara, a salvo dos canhões dispostos até a Fortaleza da Conceição.
Pela incompetência administrativa e militar do fovernador Francisco de Castro Morais, após vinte dias de combate, Duguay-Trouin manteve a cidade sequestrada até 4 de novembro de 1711, quando recebeu a última parte do resgate de 610 mil cruzados de ouro, 100 caixas de açúcar e 200 bois.
Embora o Rio de Janeiro só viesse a ser a segunda capital do Brasil Colônia em 1763, à época era a capital econômica, por onde jorraram os diamantes e o ouro que financiaram a revolução industrial na Inglaterra.
O segundo fato geopolítico a motivar a interiorização da capital do Brasil se deu por ocasião da Guerra do Paraguai. Os antiescravistas, os maçons, os positivistas e os republicanos constataram o vazio demográfico nos 5.500.000 quilômetros conquistados pelos bandeirantes de 1550 a 1750, quando do Tratado de Madri.
As assertivas geopolíticas desses grupos políticos se consolidam no dia 24 de fevereiro de 1891, quando, na proclamação da Primeira Constituição da República Federativa Brasileira, dispõem, no seu artigo 3º, a demarcação e a transferência da capital federal para o Planalto Central Brasileiro.
Sob a diretriz política e administrativa do condutor de sonhos, Juscelino Kubitschek de Oliveira, a capital federal é construída e inaugurada em 1094 dias (20-4-1957/21-4-1960), interiorizando o progresso e assegurando o domínio da continentalidade brasileira e impedindo a internacionalização do Centro-Oeste e da Amazônia.
Jarbas Silva Marques, professor, jornalista e historiador, é colaborador do Jornal Opção.