O coronavírus ativa comportamentos inusitados e leva liberais a posarem de keynesianos

A política do Estado mínimo tem apenas um alvo: deixar com que encham os bolsos tanto quanto possam, colhendo todas as riquezas produzidas pela sociedade

Halley Margon, de Barcelona

O “The New York Times” disponibiliza uma espécie de clipping diário (“Was this email forwarded to you? Sign up here”) para acompanhar a evolução diária, quase hora a hora, da contaminação pelo coronavírus nos Estados Unidos e no mundo. Numa das notas que publicou na quinta ou sexta-feira da semana passada informou que fazer o teste da contaminação implicava uma difícil batalha em algumas partes do país. No entanto, para alguns estadunidenses — “os ricos, famosos e bem conectados” —, estava sendo mais fácil que para os demais.

Espanha: alta contaminação pelo coronavírus | Foto: Reprodução

“Reclamações de elitismo e tratamento preferencial aumentaram quando políticos, celebridades e atletas profissionais receberam testes sem apresentarem sintomas ou terem tido contato conhecido com pessoas infectadas”, diz a nota. Quando o presidente Donald Trump, de 73 anos, foi questionado se era mesmo verdade que a elite estava conseguindo furar a fila, respondeu com sua tradicional cortesia e clareza de expressão: “Você teria que fazer essa pergunta a eles. Talvez essa tenha sido a história da vida” (“You’d have to ask them that question. Perhaps that’s been the story of life.”) (sic)

Desconheço a repercussão desses eventos na imprensa dos Estados Unidos e entre a população do país, se é que houve. Tenho a impressão de que fatos dessa natureza, se ocorressem, aqui na Espanha ou em qualquer outro país da Comunidade Europeia, produziriam uma hecatombe. Apesar da uniformização produzida no mundo inteiro pela intensa circulação de mercadorias, a escravização das diferentes culturas ao vício do consumismo e suas consequências deletérias, parece que ainda existem diferenças importantes não apenas no campo da política, mas também no comportamento de europeus e estadunidenses. Crises da dimensão e gravidade como as que o planeta está passando talvez sirvam, entre outras coisas, para evidenciarem umas tantas possibilidades de divergências de caminhos. De qualquer modo, parece estar claro que estamos apenas no começo dessa crise.

Karl Marx e John Maynard Keynes serão lembrados? Pelo menos o segundo voltou à baila | Fotos: Reproduções

Liberais que se tornam keynesianos

Antes acreditávamos que o medo de morrer convertia ateus em crentes, mas agora está claro é que esse medo está convertendo todo neoliberal em keynesiano — tradução de um meme que está na internet.

Como não há quem de fato creia numa tão repentina conversão, seria curioso indagar aos sempre efusivos neoliberais, todo o tempo dispostos a receitar fórmulas de Estado mínimo e que tais, quais as recomendações para agora e, sobretudo, para daqui a pouco, quando for necessário tirar a economia do atoleiro em que estará metida, na mais funda recessão que o mundo jamais terá visto até os dias atuais. O “papel do Estado é cuidar de saúde, educação e segurança”, me lembrou um esforçado aluno de uma dessas renomadas e caras faculdades de Economia de São Paulo, criadas para formar os filhos dos muito ricos como gestores do país que herdarão.

O pitoresco nos sábios do neoliberalismo é que arrotam certezas científicas (e isenção) para venderem políticas econômicas com interesses bem definidos — a acumulação cada vez mais concentrada do capital naqueles polos onde ele já está enormemente concentrado, o enriquecimento ininterrupto da minoria. Mas o biombo não esconde o rabo do mal feito. A política do Estado mínimo tem um e apenas um alvo: deixar com que encham os bolsos tanto quanto possam, colhendo todas as riquezas produzidas pela sociedade como se essa fosse obra sua e apenas sua, deixando livre para agir o deus Mercado (assim diz a ciência econômica do neoliberal).

Agora estão todos amoitados. São donos de uma ciência manca. Seu receituário se limita a políticas para o incremento do lucro dos donos do capital (os ricos), amparo aos que já estão mais que bem amparados e corte de gastos públicos quando direcionados aos mais necessitados etc. Não se ouvirá um pio neoliberal sugerindo o que fazer para o planeta enfrentar a paralisação da economia na dimensão que se está vislumbrando. Sua ciência não é para isso. Aqui e ali, um burocrata e/ou banqueiro de uma instituição como o Banco Central Europeu, aparece para dizer que os recursos das políticas monetárias disponíveis (após montanhas de euros liberados para gerar liquidez etc) se esgotaram. No dia seguinte lhe ordenam que volte aos meios de comunicação para afirmar exatamente o contrário do que disse no dia anterior.

É preciso tranquilizar a gente e evitar o pânico. A economia é feita por gente. O mundo afinal é feito de gente. Há muito mais que sua divindade o Mercado.

Renda mínima e suspensão dos aluguéis

Aqui na Espanha o governo se mostra cada vez mais preocupado com os setores desprotegidos da população. Na segunda-feira, 23, a responsável pela economia do país e o ministro da Saúde disseram que estão discutindo tanto com os sindicatos quanto com os empregadores novas medidas voltadas, por exemplo, para as  empregadas(os) “domésticas, os que não dispõem mais do seguro desemprego, os que pagam aluguel” etc.

Querem adotar imediatamente benefícios adicionais para os que ficaram sem renda, além de medidas que permitam adiar o pagamento de aluguéis daqueles que são inquilinos e ajuda aos trabalhadores autônomos. No domingo, 22, um alto funcionário do BCE (Banco Central da Espanha) defendeu publicamente a implementação de “uma renda mínima transitória… para os mais afetados pela crise”.

No caso dos aluguéis a ideia é criar uma medida que impeça os proprietários expulsarem os inquilinos inadimplentes — o governo por hora está fazendo “um apelo à compreensão e flexibilidade dos proprietários”. Fala-se em adiar o pagamento de aluguéis por pelo menos dois meses e alguma compensação aos proprietários.

Mesmo levando a pandemia a sério

Há oposição política ao governo de Pedro Sanchez (PSOE-Podemos), e uma oposição forte, experimentada e agressiva (PP e Vox, o partido da ultradireita, que no espaço de um ano cresceu de zero deputados para 52, se tornando a terceira força política no parlamento espanhol). Frente à crise todos, inclusive o partido de Santiago Abascal (Vox), cerraram fileiras para apoiar o estado de alarme decretado pelo governo. É provável que quando passe a tormenta descarreguem um caminhão de críticas às medidas tomadas por PSOE-Podemos, apontando erros e denunciando as consequências. Mas ninguém, absolutamente ninguém, seja entre os partidos políticos, seja na polução, está ignorando a gravidade da crise e se comportando com leviandade.

Semana passada o governo colocou à disposição dos diferentes setores da administração um orçamento equivalente a 20% do PIB nacional para ser gasto no combate ao coronavírus. É uma montanha de dinheiro. A Comunidade Europeia está fazendo o mesmo. Mesmo do outro lado do Atlântico, onde o presidente estadunidense costuma adotar posturas populistas paspalhonas, as medidas frente ao avanço da pandemia são as mais sérias possíveis e, de novo, não há limites para os gastos. Outro dos populistas que gosta de se fantasiar de palhaço, o primeiro ministro britânico Boris Johnson, após ensaiar gestos pitorescos, foi obrigado a voltar atrás e seguir o comportamento padrão: levar a sério a pandemia para minimizar os efeitos da crise. Ainda assim, ela será duríssima e prolongada. Do comportamento sério ou irresponsável de cada governo vai depender o maior ou o menor custo social provocado pela pandemia, o maior ou menor sofrimento da população, as maiores ou menores consequências para a economia do país.

Mesmo com toda a seriedade, o enorme esforço feito pelo governo, pelo Estado e pela sociedade espanhola para conter o avanço da pandemia, os números até agora seguem imparáveis.

Os jornais da manhã do dia 25 de março informavam que a Espanha acabava de superar a China em número de mortos, com 3.434 óbitos.

De 18 a 25 de março os infectados subiram de 13.726 para 47.610 e os mortos de 558 para os 3.434 citados acima — percentualmente significa dizer que o número de mortos subiu de 4,06% para 7,21%.

Será que, com tudo isso, existam pessoas sérias que ainda não tenham se dado conta de que não se trata de uma simples epidemia de gripe?

O preço da leviandade

Nova York está testando cinco vezes mais infectados que a Califórnia, informa o clipping diário do “NYT”. “O que explicaria a diferença?” — pergunta.

“O que os especialistas pensam é que o vírus circulava na cidade por muito mais tempo do que imaginávamos e se espalhou antes que fossem implementadas as medidas de distanciamento social. Estamos começando a ver as consequências disso agora, dias e semanas após a propagação do vírus, porque leva tempo para que os sintomas apareçam.

A experiência de Nova York oferece alguma lição?

Acho que a lição mais importante para o público em geral é levar isso a sério, porque o número de casos pode aumentar extremamente rápido…”.

Halley Margon, escritor, mora em Barcelona, na Espanha.

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