O centenário da queda do meteorito de Santa Luzia. Ele pode voltar para Goiás?

A pedra foi doada para o Museu Nacional. Câmara de Luziânia pode liderar movimento para trazê-la de volta para Goiás?

Jarbas Silva Marques

Especial para o Jornal Opção

No dia 19 de junho de 1919 na região próxima do Córrego Cabeça de Negro no então município de Santa Luzia, na área demarcada pela Comissão Exploradora do Planalto Central Brasileiro — Quadrilátero Cruls — após um intenso clarão vindo do céu, se deu um grande tremor em toda a região, levando a população a acreditar que tinha “chegado o fim do mundo”; “o final dos tempos”; e os medos apocalípticos “trazidos pelo fogo que veio do céu”.

Meteorito de Santa Luzia resistiu ao foto do Museu Nacional | Foto: Reprodução

Gelmires Reis colheu depoimentos de muitos moradores à época, até que, em 1927, Raymundo Bahiano, que trabalhava na Fazenda Paiva, encontrou uma grande pedra escura numa grande cratera. Raymundo Bahiano notou a diferença das rochas da região e constatou a sua dureza com seu facão. Após o achado, ele ofereceu a pedra a José Elias Salomão, para logo a seguir vendê-la a José Maria do Espírito Santo pela quantia de mil réis (moeda da época).

Gelmires Reis, Intendente Municipal de Santa Luzia, e o médico e historiador Antonio Americano do Brasil foram até o local da queda e constataram tratar-se de um meteorito vindo do espaço.

O presidente (governador) de Goiás, Brasil Ramos Caiado, é comunicado do fato por Gelmires Reis. Em seguida, o gestor estadual comunicou o acontecimento ao governo federal. Este solicita à Escola Minas de Ouro Preto que envie um técnico para uma investigação científica.

Vem à Santa Luzia o engenheiro agrônomo Joaquim Câmara Filho — que fez a primeira análise da composição mineral do meteorito, constando seu peso em 1980 quilos, sendo 92,1 de Ferro; 6,83 de Níquel; 0,47 de Cobalto; 0,44 de Fósforo; 110 PPM de Germânio; 40 PPM de Gálio e 001 PPM de Irídio.

Brasil Ramos Caiado doa o meteorito de Santa Luzia ao governo federal e o Museu Nacional envia o naturalista Ney Vidal para transladá-lo até o Rio de Janeiro.

A Intendência de Santa Luzia contrata Sebastião Carneiro de Mendonça, concessionário da Estrada Santa Luzia-Vianópolis, por 1.500 réis para levá-lo a Vianópolis para o embarque ferroviário até o Rio de Janeiro.

Na ponte do Rio Corumbá, em 15 de outubro de 1928, o naturalista Ney Vidal, representante do Museu Nacional, o batiza como Meteorito de Santa Luzia, tendo como padrinho Americano do Brasil e madrinha Escolástica Ribeiro.

Os maiores meteoritos brasileiros até 1960 eram o Bendengó — o sexto de maior tamanho no mundo, encontrado em 1784, na Bahia — e o Santa Luzia, o sétimo em tamanho. Os dois estão no Museu Nacional, incendiado em setembro de 2018, e são os únicos em exposição em museus no mundo.

Segundo a doutora e astrônoma Maria Elizabeth Zucolotto, do Museu Nacional, caiu na mesma região um outro grande meteorito, mas não se pode dimensioná-lo e estudar sua composição por ter sido vendido para um cidadão norte-americano — que o levou para o exterior.

Meteoritos goianos

A astrônoma Maria Elizabeth Zucolotto, coordenadora de Meteorítica do Museu Nacional, elaborou uma tabela com 62 meteoritos brasileiros, os locais de suas quedas e suas classificações minerais.

Dentre eles os meteoritos caídos no território de Goiás e listou, além do de Santa Luzia, um em Campinorte, um em Itapuranga, outro em Uruaçu e o quinto em Veríssimo. E o que é mais curioso é que — excluindo o Santa Luzia — eles foram encontrados com a busca de ouro com equipamentos eletrônicos modernos.

Juramento

Em 1981, eu estava na residência de Gelmires Reis, em companhia do escritor Ursulino Leão, e o mestre pediu que eu continuasse sua luta para trazer de volta a Luziânia o Meteorito de Santa Luzia, responsabilidade que hoje transfiro para a Câmara de Vereadores de Luziânia.

Astecas podem ter feitas armas a partir de meteoritos

Na antropologia cultural e científica da Humanidade fala-se desde os meteoros que eliminaram do planeta os dinossauros e assemelhados até os poderes mágicos dos fragmentos extraterrestres.

Tito Lívio em 204 a.C fala da pedra negra que os romanos nominaram Magna Mater, assim como outra pedra negra que se encontra na Kaaba, em Meca e que os muçulmanos cultuam.

Antes da Humanidade dominar a fundição do ferro, ainda na Idade de Bronze, o ferro meteorítico foi utilizado na feitura de armas para reis e conquistadores. Quando os ingleses se apropriaram da urna funerária de Tutancâmon, no Egito, encontram sua adaga feita de ferro meteorítico, assim como a “Espada de Marte” de Átila, rei dos hunos, a espada de Joana D’Arc, a famosíssima “Excalibur” do Rei Arthur e dela se fez a lenda de que ele a retirou de uma pedra.

O genocida espanhol Hernan Cortéz perguntou aos chefes astecas onde obtinham suas facas e eles apontaram para o céu.

O planeta Terra tem dois terços de água e não sabemos quantos bólidos extra espaciais repousam em seus mares e oceanos.

Jarbas Silva Marques, jornalista, é presidente da Academia de Letras e Artes do Planalto. É colaborador do Jornal Opção.

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NILSON JAIME

Parabéns pela excelente e relevante matéria Jarbas Marques.
Bravo!

Mikaella Cristina

Parabéns, Jarbas pela sua ilustre matéria, eu nasci em Luziânia ( onde o meteorito caiu, no antigo município de Santa Luzia, que hoje é chamado de Luziânia ) e sempre quis que ele voltasse para sua terra, onde foi encontrado. Parabéns, você é um ótimo jornalista!!!!