Euler de França Belém
Euler de França Belém

O cachorro Jack sumiu por 4 anos e o dono o encontrou a quase mil quilômetros de sua cidade

Jack desapareceu em Ontario, no Canadá, e Mike o achou em Winnipeg, a 846 quilômetros. É belo o encontro entre os dois

(Topázio era um cão policial, desses grandes, dóceis e inteligentes. Meu pai, Raul de França Belém, herdou-o de um parente, Domingos Santana. Melhor: Topázio trocou de dono e de casa. Acinzentado, tinha o porte de pastor alemão. Esperto, abria portas e janelas, se estivessem fechadas com tramelas. Saía para as ruas com facilidade e voltava quando queria. Rueiro era. Se escapava, acompanhava minha mãe, a professora Zinha, à Escola Gercina Borges Teixeira, na cidade de Porangatu, no Norte de Goiás. De sua programação diária constava breve passada por um açougue, nas proximidades da antiga sede da prefeitura, um edifício azulado. Lá, um dia, deram-lhe carne com veneno. Topázio voltou para sua casa, tentou subir a escadinha de três lances da porta da rua e, não conseguindo, deitou-se, sob a janela de madeira da sala. Morreu ali, só, e sem resmungos. A lenda familiar narra que, pouco depois, o açougueiro enlouqueceu. Dos meninos da casa, se não me falha a memória, três choraram copiosamente. O trio: Euler, Eliane e Eliana. Raul Filho era bebê e Érika não havia nascido. A tristeza permaneceu na casa, incrustada na alma de seus moradores, por longo tempo. Depois, chegou Burke, um belo perdigueiro malhado cujo nome deriva de Charles Burke Elbrick, o embaixador norte-americano sequestrado pela esquerda. Mas…)

Jack e Mike: uma história de amor e compromisso | Foto: Reprodução

… Bem, chegou a hora de falar de Jack, um husky siberiano, e de seu dono, o canadense Mike Plas. (Dono? Pois é: por vezes, o cachorro é nosso dono, mas, como parece subordinar-se à nossa vontade, ficamos com a impressão de que somos os proprietários.)

Mike saiu para o trabalho e Jack ficou em casa. Quando voltou, nada de Jack. Havia desaparecido, sem deixar rastros. Passaram-se quatro anos e Mike acreditava que jamais veria o amigo outra vez. Por certo, morrera. Quatro anos, para um homem, significam muito pouco — quase nada. Para um cachorro, é quase a metade de sua vida.

O que parecia impossível, guris e gurias, aconteceu. Mike estava trabalhando quando recebeu uma ligação telefônica. Jake, o magnífico Jack, estava em…

… Sim, o funcionário de um abrigo de animais ligou para Mike, conferiu seu nome e quis saber se tinha um cachorro de nome Jack. Aí…

… Quase infartando, decerto, Mike contou que havia perdido Jack, há quatro anos, na cidade de Ontario. Ah, sim…

… Há um microchip em Jack e as informações sugeriam que seu “dono” era Mike. O cachorro estava… você, leitor, cachorreiro ou cachorrólogo, nem vai acreditar.

Jack estava em Winnipeg. Há 846 quilômetros de Ontario, cidade de onde desaparecera. Deve ter sido levado por alguém, talvez um larápio ou uma pessoa que o encontrou abandonado, mas depois não quis criá-lo (criar um cachorro é um ato de amor, mas não só: o proprietário-amigo precisa entender que se trata de um compromisso com outro ser, e um ser que nos ama incondicionalmente).

Mike mal ouvia as informações. Pegou o carro e correu para sua casa. Quando sua mulher chegou, tão esbaforida quanto ele, pegaram a rodovia e partiram para Winnipeg, quase sua Ítaca. Foi dirigindo, sem receio de enfrentar quase mil quilômetros de estrada — de qualidade, vale admitir. Eram Ulisses e Penélope — à cata de seu Argos…

… O relato de Jack: “No dia seguinte chegamos a Winnipeg e fomos até o abrigo. Me identifiquei e mostrei uma foto antiga minha com o Jack. Eles foram buscá-lo e, quando o vi, tive a sensação de que minha vida havia voltado ao normal novamente. O dia a dia sem ele nunca foi o mesmo e tê-lo de volta é inexplicável”.

A reportagem que li no jornal “O Dia”, aparentemente retirada de outro site, inclui um vídeo que exibe o encontro entre os amigos Mike e Jack. Os dois estão alegríssimos. O cachorro abana o rabo, deita-se para ser acariciado — satisfeito. É como se estivesse sorrindo, com as emoções à flor da pele, ao abanar o rabo vezes sem conta. Para ele, o tempo não havia passado, seu amado Mike estava ali, e era o que importava. Mike chora e abraça Jack.

Mike postou uma mensagem: “Nunca perca as esperanças. Eu não perdi e depois de quatro anos separados, em províncias diferentes, estamos juntos de novo”.

Trata-se de uma grande história, sugerindo que a vida contém uma coleção de fábulas. Reais, mas fabulares-fabulosas.

Jack London, que escrevia maravilhosamente sobre cachorros, certamente aprovaria a história de Jack — inclusive o nome — e Mike.

Confira o vídeo do encontro entre Jack e Mike

 

 

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.