Euler de França Belém
Euler de França Belém

O artista plástico e professor Carlos Sena era acima de tudo um não-conformista

Carlos Sena morreu e não morreu. Sua grande arte permanece viva; portanto, o artista plástico está vivíssimo, mesmo morto em termos físicos

Nunca um burocrata. Nunca um conformista. Um homem e artista em ebulição constante. Um mestre inventor, diria Ezra Pound. Magro, parecia um caniço, sempre assim, como se tivesse esculpido seu perfil, como se fosse um Rodin. Assim era o artista plástico — pintor de raro talento — e modernista radical Carlos Sena Passos, que faleceu no sábado, aos 62 anos.

Professor da Universidade Federal de Goiás, diretor do Centro Cultura UFG, Carlos Sena poderia ter se acomodado. Afinal, tornara-se um acadêmico, como, de certo modo, os poetas, romancistas, músicos e artistas plásticos que organizaram a Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo. Mas permaneceu criativo, inventivo, incomodando o coro dos contentes. Num de seus últimos posts, dizia: “Vamos mudar o mundo”. Ele era assim, irrequieto, transformador, inquiridor, detonador de acomodações. Seus quadros diziam respeito ao belo, mas também, talvez sobretudo, era uma forma menos de chocar do que de incomodar, de levar o espectador a pensar e rever as coisas do mundo, a desnaturalizar o mundo, por assim dizer. Carlos Sena fazia-nos ver e rever a diversidade do mundo e, também, a querer mudá-lo. A torná-lo mais belo, mas não o belo arrumadinho do realismo socialista. O belo, para ele, não era estanque, era, digamos assim, mutante, permanentemente em transformação. Uma revolução permanente, diria Liev Trotski.

Carlos Sena por certo formou gerações, tanto pelo conhecimento de artes plásticas em si quanto pela qualidade excepcional de sua pintura. Seu melhor texto para ensinar, quem sabe, era sua arte inovadora (alguns de seus quadros lembram-me o romance “Orlando”, de Virginia Woolf, em que um homem é mulher ou uma mulher é homem. São quadros pansexuais). Pego-me a pensar que, de certa forma, Carlos Sena, com suas imagens fortes, é (e não digo era) um poeta. Um poeta que deslumbra e fala pelas imagens. Sua arte dialoga com aquele que a olha. “Mexa-se!”, parece dizer. Mas também sugeria, é possível: “O mundo pode ser diferente, eu sou diferente; preste atenção”.

Pois é: Carlos Sena morreu e não morreu. Por quê? Porque sua arte, sua grande arte, permanece viva; portanto, o artista plástico está vivíssimo, mesmo morto em termos físicos. E também permanece vivo e ativo nos artistas e na arte que contribuiu para, ao longo dos anos, formar.

O que diz a pró-reitora adjunta de Cultura da UFG

Flávia Maria Cruvinel, pró-reitora adjunta de Extensão e Cultura e coordenadora-geral de Cultura da Universidade Federal de Goiás, escreveu no Facebook:

“Querido Sena, vou sentir falta do seu sorriso, do nosso convívio, das conversas nas caronas, de você me chamar de baby, dos nossos planos para o Centro Cultural UFG… Aprendi muito com você nestes 7 anos de trabalho e amizade. Descanse em paz e tenha certeza que seu legado sempre será uma referência para todos nós! Grande beijo!”

[O mosaico acima, uma obra de arte em si, é de Thiago Lemos. Está em seu Facebook. É uma bela homenagem a Carlos Sena]

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Adalberto De Queiroz

Descanse em paz, Carlos Sena.