O artista chinês Ai Weiwei diz que os seres humanos violaram demasiados princípios morais

“O vírus se propagou devido à falta de transparência do governo chinês. Se este desastre pôde se expandir se deve ao fato de que a China ocultou a verdade”

Halley Margon

Especial para o Jornal Opção, de Barcelona

Vejo num site brasileiro a notícia de que a bandeira da China, em comemoração aos 70 anos da revolução comunista, foi estampada em gigantesco painel eletrônico que cobria a fachada do edifício da Fiesp na Avenida Paulista em São Paulo — não, não foi um ato terrorista praticado pelos militantes do PC do B contra o território dos capitalistas mas, ao contrário, uma homenagem da própria entidade ao aniversário da Revolução Chinesa (a diretoria da entidade declarou que é usual o aluguel da fachada para esse tipo de homenagem).

Ai Weiwei, artista da China que mora na Inglaterra: “Mais desastres virão” | Foto: Reprodução

Voltando ao sério e a gente de caráter — sim, ainda existem questões como essas. A ética é apenas uma sobrevivência, mas ainda não foi completamente varrida da face da Terra.

No domingo passado, o jornal “El País” Espanha publicou uma entrevista com o artista e dissidente chinês Ai Weiwei. É o tipo de entrevista que deveria ser reproduzida mundo afora e replicada como se fosse um vírus, ou melhor, o mais potente antiviral para tempos pandêmicos.

Segundo “El País”, Ai Weiwei “encabeça o ranking mundial de autores que mais visitantes atraem aos museus” — o que não constituiu, do ponto de vista estritamente artístico, absolutamente nenhum critério de qualidade. Jeff Koons é um dos mais populares e caros produtores de artigos para museus e galerias das grandes metrópoles e não há um só crítico de arte que se respeite que considere o que faz muito acima da categoria de produto cultural de segunda linha (simplório e de mau gosto). Mas não é esta a discussão. O importante é que a voz de Ai Weiwei se fará ouvir e é muito bom que isto aconteça. Porque o que ele diz pouca gente está dizendo e quase ninguém tem coragem de dizer.

O vírus brotou numa cidade dos confins da China e ninguém, nem governo, nem meio de comunicação importante, foi capaz de dar um pio contra o governo chinês ou questionar sua conduta e responsabilidades para o aparecimento da pandemia. Apenas como efeito ilustrativo, imagine-se que o Covid-19 tivesse surgido em Maracaibo na Venezuela e não em Wuhan. Alguém me contou que um dos filhos do presidente do Brasil — Eduardo Bolsonaro — teria ensaiado comentários nesse sentido. Mas ninguém sério, não por aqui pelo menos, leva a sério o que essa gente diz — nem se disser coisas aparentemente sérias, porque não cabe, é uma incongruência intrínseca.

Nas palavras de Ai Weiwei “o vírus… se propagou devido à falta de transparência do governo chinês… Se este desastre pôde se expandir se deve em grande parte ao fato de que a China ocultou a verdade.” Mas as responsabilidades vão além. Segundo o artista, a própria OMS “foi partícipe disso ao reduzir a gravidade e magnitude do problema, negando que estivéssemos frente a uma pandemia”.

Ai Weiwei: a OMS “foi partícipe disso ao reduzir a gravidade e magnitude do problema, negando que estivéssemos frente a uma pandemia” | Foto: Reprodução

A entrevista passa a sensação de que a sensibilidade de Weiwei está à flor da pele ou, em palavras mais diretas, que está de saco cheio de tanta mentira, meias verdades e hipocrisia. Portanto, dispara sua artilharia (uma artilharia de precisão) na direção de quase todos os alvos que precisam ser atingidos. O intercâmbio de favores e interesses segue ditando o comportamento de tutti quanti, mesmo agora, mesmo agora! A China, “ao invés de assumir responsabilidades, faz intercâmbios de favores políticos… O Irã ordenou a liberação dos seus presos enquanto dure a crise, mas continua sendo sancionado pelos Estados Unidos. Por que o Reino Unido não libera Julian Assange? É uma figura chave na liberdade de imprensa e de expressão… e agora se depara a uma possível extradição… e uma pena de até 175 anos.”

“Manter uma coerência ética não é fácil, as pessoas só percebem os desastres que afetam a suas regiões, mas os desastres estão interconectados”, sentencia Weiwei.

“Desastres não vão parar, eles virão um após o outro”

Para Ai Weiwei o que era comunismo na China se tornou capitalismo de Estado controlado pela burocracia do PCC e todos, a China tanto quanto a Europa e os Estados Unidos se movem estritamente por interesses econômicos. A Europa e os Estados Unidos “apoiaram o regime chinês, ignoraram o assassinato de um jornalista em uma embaixada da Arábia Saudita com sede na Turquia…”. Porque estão todos se movendo pelo que produz benefícios imediatos, se esquecendo dos princípios (éticos). A China “alimenta os interesses das grandes empresas ocidentais e estas fazem com que a China seja cada vez mais poderosa. Essas companhias não estão condicionadas por nenhum Estado, nação ou cultura…”.

Ai Weiwei: “Manter uma coerência ética não é fácil, as pessoas só percebem os desastres que afetam a suas regiões, mas os desastres estão interconectados” | Foto: Reprodução

A jornalista Isolda Morillo do “El País”, autora da entrevista, diz ao artista que “muitos países fecharam suas fronteiras” e até a globalização começa a ser questionada se não é a culpada pela rapidez com que o vírus se propagou. E à pergunta de como vê essa questão, Ai Weiwei não titubeia em responder acusando os Estados Unidos pela construção de “um muro que o separa do México”. Onde, então, “estão a liberalização e a globalização?”, questiona.

Para o capital “não há barreiras, o capital circula livremente no mundo. O sonho da globalização é resolver tudo com dinheiro. Os refugiados chegaram a terras europeias e foram tratados pior do que prisioneiros…”

O alerta final do artista (que hoje vive exilado na Inglaterra) é que os “desastres não vão parar, eles virão um após o outro, porque os seres humanos violaram muitos princípios morais.”

O lado (provisoriamente) positivo da crise

Não sou pitonisa para dizer como vai estar o planeta em abril de 2021. Não sou realmente otimista e intuo que voltaremos a ser o que temos sido e a nos comportarmos como sempre. Porque não se trata apenas do comportamento de cada um de nós. Os donos do mundo provavelmente continuarão sendo os mesmos de agora, responsáveis diretos e indiretos pela dimensão que a crise terá alcançado antes de finalmente ceder.

Mas olhando para o planeta agora, no comecinho desse desde já para sempre inesquecível primeiro semestre de 2020 (de dedos cruzados, mal chegamos à metade), apesar das mortes, da tragédia social representada pela perda de milhões de empregos, da angústia que toma conta dos que dependem do trabalho para viver e garantir a sobrevivência dos seus, apesar de tudo isso e ainda que apenas por um momento que pode não durar mais que uns tantos meses, a humanidade está nesse instante melhor que estava antes. De repente, e nós, as pessoas comuns, nos vemos na mesma situação de alguém que à beira morte dispõe ainda de tempo para rever o valor e a consequência dos atos que praticou ao longo da vida. E o faz com a gravidade que o fantasma do fim nos impõe. Porque de repente nos damos conta, esse fantasma é real e está ali mesmo, batendo na porta. E, por isso, recolhidos, é possível que paremos para nos questionar sobre as escolhas e eleições que temos feito.

Mas será mesmo que ainda conseguimos fazer isso?

É possível (e muito provável) que essa avaliação, se a fizermos, dure pouco, apenas uns poucos meses, e que ao fim, passada a ameaça a desmemoria logo ocupe seu lugar. As tentações são imensas e breve, quando as lojas e os bancos reabrirem, elas estarão de novo no controle. Mas há um agora, é preciso valorizar o instante desse agora. Agora, enquanto nos sentimos ameaçados pode ser que estejamos nos dando conta de que somos uma só coisa, uma só espécie, e de que existimos juntos. E que estamos no mundo não apenas como indivíduos em guerra uns contra os outros, em saudável e sempiterna competição – como insiste e martela a ideologia dominante dia a dia, hora a hora, minuto a minuto. Essa ideologia mente.

O capitalismo e os donos do capital mentem porque precisam mentir. O sistema todo precisa dessa imensa mentira para seguir funcionando. A circulação desenfreada e irracional da mercadoria é metáfora simbólica desse vírus. A mercadoria, genericamente, é, de fato, um animalzinho inútil e coberto de gordura que ignora nossas defesas e nossas reais necessidades. A única lei à qual obedece é a da própria auto reprodução, ad infinitum. No seu DNA há apenas um vago vestígio das necessidades humanas reais.

A mercadoria replica o vírus, o vírus replica a mercadoria.

Não somos células devoradoras de mercadorias. Somos seres que partilham as coisas que construímos com nosso esforço e nossa inteligência, que dividem os espaços que foram construídos por todos, bens e serviços aos quais, consequentemente, todos deveriam ter acesso igualitário. Agora, com a velocidade de um raio fulminante essa coisa quase invisível e coberta de gordura botou abaixo os falsos muros e esses mesquinhos aparatos de defesa e auto isolamento com que nos habituamos para viver num universo de puros consumidores. Desfez a mentira do nosso isolamento.

Faz pouco mais de um mês que o vírus chegou aqui, primeiro no Norte da Itália, logo em Barcelona, no resto da Espanha e, afinal, se esparramou incontrolável pela Europa toda até alcançar cada canto do planeta. Medidas de controle as mais extremas jamais imaginadas foram e estão sendo tomadas e, ainda assim, o estrago é tremendo. O número de infectados já está alcançando a cifra de quase dois milhões de pessoas — sete dias atrás era a metade disso. Imagine-se se tais medidas não tivessem sido tomadas, se todos os recursos concentrados de todos os governos e todas as forças políticas, sociais e econômicas não estivessem se mobilizando na escala em que estão sendo. Gente muito bem informada (como o Imperial College de Londres) já está publicando estimativas de que haverá 900.000 mortos na Ásia e 300.000 na África (ver meu último artigo e o manifesto de figuras representativas de 70 países publicado no domingo passado).

O susto é proporcional ao tamanho e à velocidade da pandemia. É possível e, dadas as experiências históricas anteriores das quais aparentemente não tiramos muito proveito, é até provável que passado o susto, a respiração volte ao normal e traga de volta com ela os maus comportamentos. Mas precisamente agora temos nos comportado aqui e ali como deveríamos nos comportar desde sempre, como seres sociais que vivem coletivamente num espaço compartido por todos, que partilham as conquistas, as derrotas e os riscos inerentes à vida — ao invés de seguirmos os interesses dos donos do capital pelos quais nos deixamos facilmente seduzir.

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