Euler de França Belém
Euler de França Belém

O Antagonista fura imprensa na questão da prisão de Joesley e sobre encontro de Janot com advogado

O furo duplo mostra que pequenas unidades jornalísticas começam a derrotar os grandes jornais e revistas

Nos Estados Unidos, sobretudo, é praxe sites não-tradicionais furarem a imprensa tradicional. Porque investem em jornalismo, em reportagem. No Brasil, por enquanto, os blogs e sites quase sempre repercutem o que sai nos jornais, revistas e emissoras de televisão. Raramente há reportagens — o que há são opiniões e comentários a partir de material exclusivo daquilo que sai na “Veja”, na “Época”, na “IstoÉ”, na “CartaCapital”, no “Estadão”, em “O Globo” e na “Folha de S. Paulo”. Mas o site O Antagonista, editado por uma pequena equipe de jornalistas, mostra que o quadro começa a mudar. É um sinal tênue, mas é um sinal.

O Antagonista publicou em primeira mão que o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, havia decretado a prisão do empresário Joesley Batista, da JBS-Friboi, e do executivo Ricardo Saud, tido como lobista da família Batista. Publiquei a notícia no Jornal Opção e, no Facebook, fui questionado por várias pessoas: “Até agora, nenhum dos grandes jornais e revistas deu a informação”. Depois, perguntavam: “Será que O Antagonista errou?” Pesquisei nos principais portais e, de fato, não havia nada. Pouco depois do furo de reportagem, as revistas, como “Veja”, e jornais, como “Estadão” e “O Globo”, deram a notícia. O texto de O Antagonista continha apenas uma falha: a prisão do ex-procurador da República Marcelo Miller, embora pedida pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, não havia sido autorizada pelo ministro Edson Fachin. Mas o furo é incontestável e todo tiveram de citar, até por decência, o site.

Provando que está atento, O Antagonista publicou outro furo: o encontro de Rodrigo Janot com Pierpaolo Bottini, advogado de Joesley Batista, num bar de Brasília, no sábado, 9. Estranhamente, dentro de um bar, o procurador-geral da República aparece de óculos escuros e os dois estão sentados num canto, como se estivessem escondidos. Procuradores estão sempre apontando encontros estranhos entre políticos e empresários. Recentemente, quando a procuradora Raquel Dodge se encontrou com o presidente Michel Temer, fora da agenda, recebeu críticas. Ela é a procuradora-geral da República eleita. A imprensa mais uma vez comeu poeira e, minutos depois, começou a publicar a informação e também a fotografia divulgada por O Antagonista.

O que mais chamou a atenção é que o encontro entre Rodrigo Janot e Piepaolo Bottini — tido como o galã dos advogados — ocorreu logo depois de o ministro Edson Fachin ter decretado a prisão de Joesley Batista e de Ricardo Saud. Num discurso idêntico, o procurador da República e o advogado do empresário disseram que o encontro foi casual. Numa nota, o time de Rodrigo Janot “esclareceu”: “Acerca da nota publicada pelo site O Antagonista, a Procuradoria-Geral da República esclarece que o procurador-geral da República frequenta o local rotineiramente. Não foi tratado qualquer assunto de natureza profissional, apenas amenidades que a boa educação e cordialidade prezam entre duas pessoas que se conhecem por atuarem na área jurídica”. O advogado disse ao “Globo” que se trata de um encontro casual. “Não vou fazer mais declarações”, frisou. Ele mora em São Paulo e saiu de lá para se encontrar de maneira casual — uma cidade com tantos bares, como Brasília — logo com o procurador-geral da República? Outra pergunta que se faz: por que estavam sozinhos? Rodrigo Janot sempre bebe cerveja sozinho? Ele, que precisa de proteção em tempo integral, estava sozinho por quê? Há um detalhe curioso: há uma cerveja — dessas da moda, supostamente de empresas menores — e apenas um copo, como se apenas uma pessoa, Rodrigo Janot, estivesse bebendo.

“O Globo” considera que “já havia sido considerada incomum a demora para que a Polícia Federal cumprisse a ordem de prisão contra os executivos do grupo J&F. Na avaliação de uma fonte no STF, a história estava ‘nebulosa’ porque, afinal, não é comum uma ordem de prisão da corte levar tanto tempo para ser cumprida. A divulgação de notícias sobre o encontro entre Janot e o advogado de Joesley Batista causou estranheza entre ministros do STF. Na interpretação de fontes na corte, os dois estavam tratando das condições para os dois delatores se entregarem”.

O fato é que, com uma equipe reduzida e escassos recursos financeiros, O Antagonista furou toda a imprensa, inclusive aquela que conta com as melhores estruturas de trabalho do país. Parece que, nos finais de semana e sobretudo nos períodos de feriados alongados, parte dos jornalistas, inclusive os melhores, “dorme” no ponto. Mas o site dirigido por Mario Sabino, Claudio Dantas e Diogo Mainardi sugere que seus profissionais permanecem acordados e, claro, têm boas fontes. Vida longa ao site O Antagonista. Sua equipe lembra o grande americano I. Stone, que fazia um jornal sozinho e balançava a “corte” dos Estados Unidos.

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Arthur de Lucca

Caro Euler de França,
Apesar de tantas e tantas e tantas informações cedo, a tarde, a noite e de madrugada sobre os escândalos, a imprensa ainda conta notícias pela metade. A minha dúvida é porque o outro Batista, o Wesley não entrou no pedido de prisão, já que vimos que ele participou das delações também.
Um abraço do Arthur de Lucca.
Goiânia, Go. 12/09/17.