Euler de França Belém
Euler de França Belém

Norberto Fuentes diz que Revolução Cubana produziu valentões e que Fidel enviou Che Guevara pra morte

Escritor cubano relança edição revista do livro “A Autobiografia de Fidel Castro”, que irritou o ditador, e diz que escapou da prisão na ditadura porque recebeu apoio de García Márquez, William Styron e Bill Clinton

“La Autobiografía de Fidel Castro” é um romance baseado em fatos reais e o ditador é quem conta sua própria história, mas sem sonegar a verdade sobre suas ações totalitárias. Norberto Fuentes usa artifício inteligente

“La Autobiografía de Fidel Castro” é um romance baseado em fatos reais e o ditador é quem conta sua própria história, mas sem sonegar a verdade sobre suas ações totalitárias. Norberto Fuentes usa artifício inteligente

Norberto Fuentes, de 72 anos, um dos mais notáveis escritores cubanos, se tornou uma espécie de adversário figadal do ditador Fidel “Adidas” Castro. Seu livro “La Autobiografía de Fidel Castro” (Stella Maris, 665 páginas), relançado na Espanha numa edição revista, deixou o rei da ilha praticamente doente… de raiva. Porém, como mora em Miami e o serviço secreto de Cuba não é mais do que uma sombra daquilo que foi montado por Markus Wolf, da Stasi, aparentemente o autor não corre risco. “Aparentemente”, no caso, deve ser levado mais em conta do que “não”. Os braços das ditaduras de esquerda sempre foram muito longos. O leitor que tiver alguma dúvida deve ler “O Laboratório dos Venenos — A Indústria do Assassinato Político na Rússia de Lênin a Putin” (Nova Fronteira, 304 páginas), de Arkadi Vaksberg. O escritor sugere que Fidel Castro e seus agentes-hackers o “investigam” na internet. “Você não sabe o que te espera” — é o recado que tem sido enviado.

Na edição de 15 de novembro, Fuentes concedeu entrevista ao repórter Xavi Ayén, do jornal “La Vanguardia”, de Barcelona, publicada sob o título de “La Revolución Cubana no há producido na más que guapería” (valentia, valentões, “heróis” e, num sentido mais político, figuras personalistas, caudilhos). Ayén afirma, na apresentação, que o escritor “é um dos homens que mais sabem sobre a Cuba dos Castros”. O diálogo entre o jornalista e o prosador tem a ver com a reedição do romance “La Autobiografía de Fidel Castro” (inédito em português). As “correções são basicamente cortes”. A obra, publicada em 2004, exibe Fidel Castro como personagem… de ficção (talvez um romance de não-ficção, como pretendia Truman Capote). É o próprio Fidel, com “sua” fala e por intermédio da pena de Fuentes, quem se explica — como se fosse o grande e pavoroso Don Quixote do arcaísmo da América Latina.

Fidel Castro e Norberto Fuentes se encontraram pela última vez em 2 de março de 1990 — há quase 26 anos. O encontro foi “tenebroso”, na síntese do escritor. “Haviam julgado e fuzilado [o general Arnaldo] Ochoa e outros três militares, oficialmente por tráfico de cocaína.” O autor de “La Autobiografía” estava “indignado”. “Para cortejar-me, Fidel fez uma festinha íntima na Casa de las Américas, onde nos vimos. Era o dia em que os sandinistas perderam as eleições.” O homem que derrubou Fulgencio Batista, em 1959, percebeu que Fuentes estava “mal humorado” — o que produziu um “silêncio enorme” e, claro, assustador.

Embora tenham se tornado inimigos, de maneira incontornável, Fidel Castro e Norberto Fuentes foram amigos. A amizade entre os dois começou quando o guerrilheiro estava em Sierra Maestra. “Me parecia que alguma coisa iria acontecer, que ele escondia alguma coisa na cabeça. Ele discordou quando, em 1968, ganhei o prêmio Casa de las Américas com o primeiro livro dissidente que se publicou em Cuba. Porém, não criei nenhuma confusão. Houve um grande debate entre os integrantes do júri. Jorge Edwards e outros beberam com Claude Couffon no bar do Havana Libre e assim conseguiram firmar o acordo pelo qual me deram o prêmio.”

Por discordar de Fidel Castro, de sua política totalitária, Norberto Fuentes era um sério candidato às terríveis prisões de Cuba (aliás, os 109.884 km² da ilha são em si uma penitenciária gigante para 11,3 milhões de indivíduos). O repórter pergunta: “García Márquez e William Kennedy o tiraram do país?” Não se sabe por qual motivo William Kennedy foi citado.

Tanto que, ao responder, o escritor corrige: “Saí, do imenso cárcere que é a ilha, em um avião Lear Jet da Presidência do México, em 26 de agosto de 1994, junto com Gabo”. Fidel Castro teria atendido exclusivamente ao grande amigo e autor da novela “Ninguém Escreve ao Coronel”? Ainda que de má vontade, o ditador acatou as pressões dos escritores William Styron, americano, García Márquez, colombiano, e dos então presidentes Bill Clinton, dos Estados Unidos, e Salinas de Gortari, do México.

O repórter quer saber se o escritor Heberto Padilla teve mais problemas do que Norberto Fuentes. “Nove meses depois que recebi o prêmio, deram outro a Padilla, por ‘Fuera de Juego’. Ele falava com estrangeiros, queria o poder, se insinuava para o cargo de ministro da Cultura… Era uma presa fácil e Fidel lambeu os lábios e disse: ‘Este é o homem’. Padilla serviu sua cabeça na mesa.”

Leitor obsessivo, sobretudo das críticas, Fidel Castro teria lido o livro de Norberto Fuentes? “Ele conhece meu livro de memória. Me respondeu corrigindo o livro-entrevista de Ignacio Ramonet [“Fidel Castro — Biografia a Duas Vozes”, Boitempo Editorial, 624 páginas, tradução de Emir Sader], sem citar-me, e logo publicou mais dois livros, ‘La Victoria Estratégica’ e ‘La Contraofensiva Estratégica’, o melhorzinho que já escreveu. [Fidel Castro] Sempre me dizia que queria retirar-se para escrever. Mas, em sua cadeira de rodas, tem dado conta, com tristeza, de que escrever não substitui a ação. Todo escritor é um vagabundo e ele não. Ele é um gallito” (homem que julga ter mais qualidades dos que os outros).

Norberto Fuentes entre Raúl Castro e Fidel Castro: o escritor foi amigo dos ditadores, mas sua literatura independente e crítica não agradava os donos de Cuba. Mas ele teve sorte e escapou da ilha e mora nos Estados Unidos

Norberto Fuentes entre Raúl Castro e Fidel Castro: o escritor foi amigo dos ditadores, mas sua literatura independente e crítica não agradava os donos de Cuba. Mas ele teve sorte e escapou da ilha e mora nos Estados Unidos

O repórter de “La Vanguardia”, baseado em contrainformação espalhada pelos agentes cubanos, insinua que Norberto Fuentes “trabalhou nos serviços secretos” do país. Sua resposta: “Não sabe como eu rio dessa lenda”. E acrescenta: “Ah, ah, ah”.

O autor de “Hemingway em Cuba” afirma que, quando morava na ilha, trabalhava como jornalista e escritor, e não como agente secreto. “Sou o único tipo em Cuba que não trabalhou jamais para… bom, é que ali tudo são órgãos do Estado, e eu estava no diário ‘Granma’.” Em seguida, ironiza: na Cuba de Fidel e Raúl Castro “até os órgãos sexuais são do Estado” (vale ler “Antes Que Anoiteça”, o notável e espantoso livro de Reinaldo Arenas, para certificar-se de que a fala de Norberto Fuentes não é pilhéria).

O entrevistador observa que o governo cubano tem o hábito de investigar políticos, militares, intelectuais e diplomatas estrangeiros. Até encontros sexuais são filmados, segundo o livro do escritor. “Não há liberdade em Cuba”, sublinha Norberto Fuentes. Há gravações até de aventuras sexuais de García Márquez, o escritor de estimação de Fidel Castro. “Os cubanos gravam a intimidade dos diplomatas norte-americanos desde os tempos do presidente John Kennedy. Aliás, não só dos americanos, e sim de todos.” Sexo sempre foi um instrumento de chantagem.

Afinal, o livro de Norberto Fuentes é um romance ou memórias? É uma espécie de roman à clef, embora o escritor não use a expressão. O repórter pergunta se tudo “é real”. O autor de “La Autobiografía” admite: “Tudo. Tudo na Revolução Cubana é conspiração, um fenômeno em que nada que aparece na superfície é verdade. É enganação articulada. Na superfície, o Che [Guevara] é um santo”. Na realidade, padecia de uma certa paixão pelo assassinato de adversários internos e externos. “As brigas entre Fidel e o Che eram brutais.” Especula-se, e não é o caso de Norberto Fuentes na entrevista, que, se não tivesse saído de Cuba, em busca da revolução permanente — uma loucura política —, Che Guevara teria sido enviado para os lotados cárceres de Fidel Castro.

“Quem matou Che Guavara?”, pergunta o repórter de “La Van­guardia”. “Fidel virou-lhe as costas e o enviou para a morte” (Norberto Fuentes prefere o plural “enviaram”). “Tenho informação precisa sobre isso.” Infelizmente, o repórter não insistiu.

Ayén afirma que, no livro, “Raúl Castro” aparece como “pior do que Fidel”. Norberto Fuentes afirma que se trata da “estupidez personificada. O Che brigava muito com ele e Raul lhe passou a perna”. O repórter assinala: “Impressiona a frieza com que Fidel e/ou Raúl matam, às vezes em escala industrial”. O escritor garante que o assassinato político é uma “arte” mais de Raúl do que de Fidel Castro. Mas discorda de que há mortes em escala industrial. “Algumas dezenas, não mais… Na Europa, sim, vocês faziam em escala industrial”. Uma referência clara ao nazismo e ao Holocausto — o assassinato de judeus nos campos de extermínio, como Auschwitz e Treblinka.

“La Vanguardia” indaga sobre um dos filhos mais conhecidos de Fidel Castro — Fidelito. “Foi educado por Raúl, como todos os filhos de Fidel que não são com Dália, exceto Alina [Fernández, filha de Natalia “Naty” Revuelta Clews]. Em 1993, ou por aí, Fidelito, que estava protegido numa casa de Faraday e não sabia nada da vida, foi nomeado presidente da Comissão de Energia Nuclear… Mas, em vez de fixar-se nos nêutrons, descobriu a beleza das mulheres. Ficou louco e começou a divertir-se. Fidel o substituiu e o manteve dez anos isolado em uma casa de Havana, com uma bonita televisão e todas as comodidades. Depois, a pedido de várias pessoas, o deixou ir saindo”, revela Norberto Fuentes. Stálin tratava os filhos de maneira parecida.

Che Guevara e Fidel Castro: o segundo enviou o companheiro da Revolução de 1959 para morrer na Bolívia. Cuba perdeu um político que contestava quase tudo internamente

Che Guevara e Fidel Castro: o segundo enviou o companheiro da Revolução de 1959 para morrer na Bolívia. Cuba perdeu um político que contestava quase tudo internamente

Fidel Castro é uma espécie de sultão e tem, segundo Norberto Fuentes, entre 13 e 15 filhos. “Não é possível fornecer o número exato. Ele faz tudo na escala das dezenas.”

“Qual foi a mulher da vida” de Fidel Castro? “Mirta Díaz-Balart, que o amava muito. Eles se separaram. Agora acaba de morrer outra amante, a mãe de Alina, uma beleza de mulher… Mirta era angelical, muito doce e infeliz.”

Haydée Santamaría, guerrilheira e, mais tarde, diretora da Casa de las Américas, se matou em 6 de julho de 1980, aos 57 anos. “La Vanguardia” perguntou se Norberto Fuentes manteve algum tipo de relacionamento com a líder castrista. “Ela se matou. Disse a Fidel que tinha problemas com Armando Hart, mas ele não a apoiou. Havia três instituições da cultura cubana com as quais ninguém podia se meter: o ICAIC, com Alfredo Guevara; a Casa de las Américas, com Haidée, e a terceira, o Ballet Nacional, com Alicia Alonso. Os demais espaços eram controlados pelos serviços de segurança”, diz Norberto Fuentes.

“Você é de esquerda ou não?”, inquire Ayén. “Eu sou um escritor, isso é o essencial. Ser de esquerda ou de direita pode inibir-me no momento de expressar-me, por isso o que digo serve ou dana a causa.” Para Norberto Fuentes, um escritor sempre de esquerda tem menos percepção da realidade, sugerindo também que se, sempre de direita, às vezes não consegue ter uma visão ampla da realidade. Um escritor sem adjetivos é o caminho mais adequado.
Agora que Cuba teoricamente está mais liberal, reestabelecendo relações com os Estados Unidos, Norberto Fuentes “está pronto para visitar Cuba”? Sua resposta é curta e fina: “Não me interessa”. “Por que?”, surpreende-se o repórter. “Não conheço as Ilhas Seychelles. Essa é a principal razão. Para que ir a Cuba, que conheço de memória, se posso ir antes às Seychelles, não acha?” Em seguida, ironiza: “Homem, se me fazem uma boa oferta e me pagam para promover o turismo…”.

“As coisas estão mudando?” Norberto Fuentes concorda e, em parte, discorda: “Totalmente. De todos os modos, pegam seu dinheiro e seus negócios, mas o poder é dos Castro eternamente…”. “Eternamente?”, indaga “La Vanguardia. “Já o verão. Quando termina um revolução? Nunca. A Revolução Francesa, a Chinesa, a Americana… São processos que nunca se detêm, como o universo. Nós, no mundo ocidental, vivemos [sob a égide da] na Revolução Fran­cesa. Os grandes avanços na legislação trabalhista são resultado da Revolução de Outubro de 1917 [na Rússia]. A única que não produziu mais do que guapería é a Revolução Cubana”, anota o escritor.

Raúl Castro, orientado por Fidel Castro, está “abrindo” Cuba aos poucos, no estilo dos governos militares dos presidentes brasileiros Ernesto Geisel e João Figueiredo. A diferença é que Geisel e o ideólogo Golbery do Couto e Silva queriam “matar” a ditadura que haviam parido. A dinastia Castro quer expandir o crescimento econômico da ilha e, ao mesmo tempo, manter o poder. Como Cuba não é nenhuma China, é possível que o pacto com o capitalismo será a médio ou longo prazo faustiano. O capitalismo tende a “tragar” o socialismo — que socializou a miséria — e os cubanos possivelmente vão arrancar os Castros do poder. Pacífica ou violentamente.

Como as traduções são de minha autoria e podem conter alguma impropriedade, ou até alguma interpretação forçada, convido o leitor a verificar o original da entrevista aqui.

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