No Brasil o fundo do poço é um fundo falso

Predomina a confiança na capacidade de intervenção no mercado, de criar incentivos quiméricos, de infundir uma utopia de integração virtuosa entre governo e empresários

Everaldo Leite

Especial para o Jornal Opção

Ilusões são vendidas no mercado, comumente, na mesma proporção de sua demanda, mas em nosso país a concorrência populista se encarregou de produzir um estoque colossal de ilusões, muito além do que se poderia imaginar. Uma oferta exagerada sempre reduz o valor daquilo que se vende, por isso, não é por acaso que verificamos tanta ilusão barata sendo transacionada por aí. Em especial, no campo econômico, nunca se viu tanta fantasia e blefe como nos dias atuais. Nessas eleições de 2018 há candidato que tem como proposição para um suposto governo retirar o nome negativado de milhões de pessoas do serviço de proteção ao crédito. Outro afirma que, possuindo o mandato de Presidente, irá revogar a reforma trabalhista. Um terceiro assevera que levará o Brasil para a primeira colocação na lista dos países mais ricos do mundo, “à frente dos EUA e da China”. Ora, tais propostas sedutoras são nada mais que sintomas de que a insensatez por aqui ainda é o normal enquanto o correto a se fazer permanece como um tipo de tabu a ser quebrado.

Pintura de Salvador Dalí

Evidentemente, o que o economista Ludwig von Mises designava como sendo uma “revolta contra a razão” tem papel essencial na elaboração de tais juízos. Há mais de um século que os economistas (sim, aqueles que contribuíram com o pensamento econômico) vêm demonstrando de modo incansável que os modelos anticapitalistas ou pseudocapitalistas fogem sistematicamente a qualquer razoabilidade e são economicamente irrealizáveis na experiência prática. A derrocada da União Soviética, o empobrecimento crônico de Cuba, da Coreia do Norte e o colapso da Venezuela são somente os exemplos práticos mais claros dessa demonstração teórica dos economistas. No Brasil, entretanto — e infelizmente —, se alastrou, através de sindicatos, instituições, partidos e academia, ao longo de décadas, o ataque à lógica e à razão econômica, substituindo-se dramaticamente o prudente raciocínio pelo que Mises chamava de “intuição mística”. Entendimentos como o de que para uma pessoa enriquecer outras teriam necessariamente que empobrecer, de que a escassez é uma criação burguesa, de que é obrigação dos governos igualar a situação econômica de toda a sociedade, mesmo que isso resulte no empobrecimento de todos, estas são algumas das “compreensões” disseminadas no Brasil desde o início do século passado.

Pintura de Mike Davis

Ao se revoltar contra a razão nós brasileiros não somente ambicionamos destruir a reputação dos ensinamentos econômicos, mas nos esforçamos em gerar a ilusão, inclusive com ares de cientificidade (Unicamp, UFRJ, Ipea etc.), de que deveríamos ter aqui nossa própria teoria para o desenvolvimento. Foram, então, mil aspirações de se superar nossas mil quedas, com mil soluções inventadas e reinventadas, nos erguendo e voltando a cair mil vezes. A última grande queda se deu recentemente e foi desencadeada pela prática populista de mais um governo crente de sua expertise. Prática esta que derivou numa crise econômica (crescimento negativo, alta taxa de desemprego e retomada do processo inflacionário) que rapidamente se mostrou fora de controle e com dimensões ainda imponderáveis. Nunca se dirá, é claro, que lhe faltou – ao governo – oportunidades de abortar tais ímpetos e seguir por um caminho mais sustentável, já que foram treze anos de gestão. Predominou simplesmente entre seus políticos e técnicos a confiança em suas capacidades de intervenção no mercado, de criar incentivos quiméricos, de infundir uma utopia de integração virtuosa entre governo e empresários, e a fé de que tudo isso resultaria em efeitos desejados no longo prazo. O que é hoje grande parte das propostas de campanha que prometem leite e mel fáceis? Renovação da velha fé!

De fato, existe em nosso país um forte temor com relação a políticas que não sejam controladoras da vida econômica. Parece termos sido catequisados para acreditar num deus imanente que, imbuído de toda boa vontade, empregará a sua “mão visível” no intuito de fazer cumprir a promessa. Nossos crentes e sacerdotes do desenvolvimento têm a verdade revelada, é só os seguir em sua “doutrina mística”. – Vote em mim, eu garanto que sou melhor para intervir do que minha antecessora, assevera um candidato. – Vote em mim, irei aumentar o salário-mínimo para três mil reais, afirma outro. – Na minha gestão o Banco Central vai comer nesta mão aqui, ó!, bravateia um terceiro. Nada disso encontra sentido quando visto de fora, não há argumentos, entre economistas que obedecem à lógica econômica séria, que amparem nossas discussões infecundas e confianças duvidosas. – Que diabos seriam “medidas macroprudenciais”?, perguntaria um estudante inglês, seguido de um silêncio da turma e posterior gargalhada coletiva. O Brasil parece nunca chegar ao fundo do poço, sempre batemos num fundo falso, novas promessas ressurgem e os eleitores se veem outra vez seduzidos pelo engodo perfumado da planta carnívora. O problema é que, enquanto o mundo lá fora se reconhece no meio da festa, ficamos aqui na porta, estacionando os carros.

Everaldo Leite é economista.

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