Euler de França Belém
Euler de França Belém

Nirlando Beirão, que dotou seu jornalismo de uma prosa refinada, morre aos 71 anos

O jornalista e escritor teve um infarto. Ele tinha esclerose lateral amiotrófica (ELA). Mesmo doente, escreveu um belo livro

Nirlando Beirão: o jornalista que fazia a Língua Portuguesa sambar com elegância | Foto: Reprodução

Ao perceber que Nirlando Beirão estava na sua fazenda, onde recebia convidados, o senador Severo Gomes (1924-1992) disse: “Você está aqui como ser humano ou como jornalista?” É provável que não há uma resposta, digamos, adequada. Mesmo assim, mais tarde, o repórter apresentou a sua: “De vez em quando, a gente é jornalista; de vez em quando, a gente é ser humano. Quando unimos as duas coisas, somos éticos”. A jornalista e escritora Janet Malcolm, sem responder exatamente à indagação, escreveu: “Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável”. Talvez seja mais precisa ou menos imprecisa.

De prenome (mais do que o sobrenome) estranho, ou apenas diferente, Nirlando Beirão morreu na quinta-feira, 30, de infarto, aos 71 anos. Sua mulher, a dramaturga Marta Góes, escreveu, sintética, no Instagram: “Queridos, Nirlando se foi há pouco”. Obituaristas costumam escrever: “Lutou contra o câncer” ou “Lutou contra o Alzheimer”? Luta-se mesmo contra o câncer e o Alzheimer. Quem sabe: o organismo é um exército que reage de maneira às vezes previsível e às vezes de maneira imprevisível. Desde 2016, o indivíduo Nirlando Beirão lidava com a incontornável e danosa esclerose lateral amiotrófica (ELA), que, na batalha para “domar” o espírito da pessoa, vai carcomendo seu corpo. Chorar? Sim. Por que não? Pois o repórter-escritor aproveitou para transformar a dor e a iminência da morte em “arte”: escreveu o livro “Meus Começos e Meu Fim”. O trecho complementar do título prova sua consciência: não havia saída. Era o fim — cedo ou tarde. Ao lado das agruras, e que agruras, aproveita para contar a história de amor entre seus avós paternos.

Nos obituários, em geral lamentos de amigos, não há quem não tenha dito: a prosa de Nirlando Beirão era/é refinada. Prosa? Sim, o texto jornalístico de qualidade, se não é, beira à prosa. “‘Degenerativa’ é uma palavra que tira você para dançar — uma dança de medo. ‘Degenerativa’, a palavra me pinçou a alma quando o médico a pronunciou”, escreveu o escritor no livro “Meus Começos e Meu Fim”.

“Sou hoje a minha mão direita. De todas as roldanas, polias, gruas e alavancas subcutâneas que comandam, com competência invisível nossos movimentos, este é o único item da anatomia que não me traiu miseravelmente”, anotou nesta prosa de escritor. Esqueceu do cérebro — a muleta celestial. “Minha companheira de todos os dias passou a ser a palavra ‘limite’. Tentar tornar os obstáculos mais elásticos é o que me resta, na ansiedade de um legado ainda sonhado”, escreveu no livro. “Tem dias que acordo Franz Kafka, tem dias que acordo Frank Capra.” “A noite me enche de palavras — aquelas que o dia, pouco a pouco, me faz perder. As palavras, nos sonhos, me surgem inteiras, em sua acepção gráfica, e em barafunda que sugere quebra-cabeças.” As frases, prosa pura, denotam imaginação literária.

Nirlando Beirão e a dramaturga Marta Góes | Foto: Reprodução

Mineiro de Belô, Nirlando Beirão era formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Era fascinado por Antropologia, mas, aos 19 anos, ganhou nova e eterna paixão: o Jornalismo. Pós-adolescente, tornou-se repórter do jornal “Última Hora”, em 1969.

Nas revistas como “Veja” e “IstoÉ”, refinou seu texto. Editou a “Playboy”, a “Senhor” e a “Brasileiros” — como titular e coadjuvante. Na “CartaCapital”, onde estava, era editor, antes da doença, uma espécie de primeiro-auxiliar de Mino Carta, ao lado de Sergio Lirio. Não tinha vergonha de dizer que havia criado e editado a revista “Caras”. Ao que defendem o “importante” (declarações de políticos, sobretudo quando está no poder — por exemplo) e criticam o “acessório”, disse: “Adoro o jornalismo tido como desimportante das franjas, que é de fato o que retrata nossa época”. Talvez não seja inteiramente verdadeiro, mas não se deve subestimar aquilo que as pessoas, às vezes a maioria, apreciam. Vive-se ao rés do chão, no cotidiano rotineiro, e não no esplendor mesmerizante das ideias.

Nirlando Beirão numa cadeira de rodas — por causa da ELA | Foto: Reprodução

O obituário (bem-feito) da “Folha de S. Paulo”, escrito por Naief Haddad, informa que Nirlando Beirão foi “colunista social” do “Estadão”. Foi mesmo? Sim. Mas o que escrevia era muito mais trabalho de repórter do que o colunismo social tradicional. O jornalismo de Mônica Bergamo, da “Folha”, Sonia Racy, no “Estadão”, e Ancelmo Gois, de “O Globo”, lembra, e não vagamente, seu colunismo.

Certa feita, ao ver um homem espigado, elegante e refinado andando pela Avenida Paulista, como se estivesse sozinho na rua, sem concorrentes, um jornalista comentou: “Parece um texto do Nirlando Beirão”. Mino Carta, ao falar do colega e amigo, lembrou-se do “texto impecável”. Luiz Gonzaga Belluzzo falou de sua “inteligência aguçada” e do “senso de humor raro”. Juca Kfouri escreveu: “Gostaria de escrever que alguém como ele não tem fim, mas a tristeza, ao perdê-lo, aos 71 anos, impede. E sou capaz de ouvi-lo dizer com delicadeza: ‘Pare por aqui, está ficando piegas’”.

Ninguém é perfeito — nem Deus, que criou o homem, o ser mais imperfeito na face da Terra. Nirlando Beirão, dono de um texto excepcional, tinha uma adoração por Mino Carta que “beirava” a idolatria. Mino Carta, de fato, é um jornalista notável, tanto pelo que escreve quanto pelas publicações que criou — “Quatro Rodas”, “Jornal da Tarde”, “Veja”, “IstoÉ”, “Jornal da República” e “CartaCapital” —, mas percebê-lo como chefe de Deus é mais juveniilismo do que heresia. Quando o dono da “CartaCapital” escreveu seu primeiro roman à clef, Nirlando Beirão só faltou sugerir que o ítalo-brasuca havia sido editor de Moisés e São Tomás de Aquino.

Livros de Nirlando Beirão

“Caminho das Borboletas.” É o depoimento da apresentadora de televisão Adriane Galisteu sobre seu relacionamento com o piloto de Fórmula 1 Ayrton Senna. Mais perfuntório, impossível (lembra o livro que o grande Fernando Sabino escreveu sobre Zélia Cardoso de Mello, a economista-ministra de Fernando Collor e namorada do ex-ministro da Justiça Bernardo Cabral). Mas, como de hábito, muito bem escrito.

“Claudio Bernardes — Arquitetura.” É a biografia do arquiteto carioca.

“Corinthians — Preto no Brasil.” Livro escrito em parceria com o publicitário Washington Olivetto. (Torcia para o Corinthians? Tudo indica. Ele disse que gostaria “de morrer serenamente, assistindo a um jogo do Corinthians”. Mas, em Minas, sua paixão era o Atlético Mineiro. Por ser mineiro? Talvez por ter visto o atacante Reinaldo jogar.)

“Sergio Motta — O Trator em Ação: Os Bastidores da Política e das Telecomunicações no Governo FHC.” Escrito em parceria com José Prata e Teiji Tomioka. Não há dúvida de que é bem escrito, mas beira à hagiografia

“Original — Histórias de um Bar Comum.”

“Meus Começos e Meu Fim.” É a história tanto de sua decadência física, registrada por uma mente luminosa — não decadente —, quanto da paixão de seus avós paternos.

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