Euler de França Belém
Euler de França Belém

Nirlando Beirão lança livro e conta que tem a doença ELA

O redator-chefe da “CartaCapital” usa cadeira de rodas, mas continua escrevendo na revista e está lançando um livro

Tenho uma certeza: vou morrer (“Eu sei que vou morrer / Não sei o dia / Levarei saudades da Maria /Sei que vou morrer /Não sei a hora”, ensina a música de Ataulfo Alves). De quê, não sei. Mas é possível que tenha a ver com trombofilia — um problema genético que me levou a ter uma tromboembolia (e quase à cova ou ao crematório) e, em seguida, três hemorragias (uma delas, a mais leve, provocada por uma simples vacina antitetânica), decorrentes, em parte, do uso de anticoagulantes (o que me leva quase a uma hemofilia induzida; com o tempo, meu organismo acabou absorvendo ferro em quantidades que surpreendem gastroenterologistas e hematologistas, e estou às portas de uma cirrose, e sem beber uma gota de álcool). A morte, todos sabem, é infalível. Mas ninguém — nem eu — quer morrer. Mesmo quando sofremos, à beira do precipício, queremos sobreviver, nos agarrando às últimas gramíneas. Por vários motivos. Um deles? A vida é boa e bela.

Nirlando Beirão lança um livro desses que, embora não muito robusto — ao contrário dos livros sobre a Segunda Guerra Mundial (teria de viver como Matusalém para ler 25% deles) —, devem ser considerados imperdíveis, e não só para nós, os que temos problemas crônicos e somos pacientes frequentes dos consultórios e laboratórios (sou conhecido pelo nome, até porque tenho de escolher quem me tira sangue, dada a dificuldade), e sim para todos que estão vivíssimos e saudáveis, mas um dia, doentes ou não, vão bater as cachuletas.

O jornalista Nirlando Beirão, redator-chefe da revista “CartaCapital”, escreveu “Meus Começos e Meu Fim” (Companhia das Letras, 192 páginas), no qual revela que tem ELA (a mesma doença que levou o jornalista Rodolfo Fernandes, diretor de redação de “O Globo”, e o historiador Tony Judt) e conta sua história (e não apenas a da doença). Ele continua escrevendo, como indica o livro e seus textos excelentes para a “CartaCapital” (como um recente sobre Gianni Carta, filho de Mino Carta, que morreu de câncer com meros 55 anos, no auge da profissão). Há uma luta diária do esforço — da força de vontade — contra a acomodação e, claro, o poder corrosivo e em desenvolvimento da doença.

Nirlando Beirão é redator-chefe da “CartaCapital” e escreveu nas principais publicações brasileiras | Foto: Reprodução

Sinopse da Editora Companhia das Letras: “Em julho de 2016, Nirlando Beirão foi diagnosticado com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA). O ímpeto de registrar em prosa a rápida evolução da doença avivou no jornalista o antigo projeto de escrever a história do amor secreto de seus avós paternos.

“Nascido em Portugal, António Beirão formou-se padre no seminário de Viseu, onde teve como colega um xará de sobrenome Salazar. Beirão se mudou para o Brasil no início do século passado, e tornou-se pároco numa pacata cidade no interior de Minas Gerais. Encantado pela jovem Esméria de Miranda, o vigário trocou o amor divino pela paixão terrena. O casal fugiu de Oliveira, deixando para trás sua história, um segredo que pairaria como uma sombra sobre as futuras gerações.

“Em ‘Meus Começos e Meu Fim, o passado familiar se mescla aos duros desafios das vivências do momento. Como se falar de um amor proibido e corajoso pudesse impedir qualquer acesso de autocomiseração.”

O médico Drauzio Varella escreveu: “Os textos de Nirlando Beirão sempre estiveram entre os melhores do jornalismo brasileiro. Neste livro, ele reúne histórias do passado para confrontá-las com as adversidades enfrentadas por alguém com uma doença que impõe debilidade muscular progressiva, com graves limitações físicas. O resultado é uma reflexão profunda sobre o significado e a fragilidade da existência humana”.

[O único problema de Nirlando Beirão é que parece acreditar que Deus só “construiu” o mundo em seis dias porque ao seu lado estava Mino Carta. Este, no sétimo dia, escreveu a história da feitura, se tornou um dos autores da Bíblia e, quem sabe, irmão de Jesus Cristo. Brincadeira à parte, tanto Nirlando Beirão quanto Mino Carta são jornalistas extraordinários. Pode se discordar de suas ideologias — são próximos da esquerda petista (mais Mino Carta, porque Nirlando Beirão, embora um insider, guarda certa distância, quiçá produto de sua veia irônica) —, mas dificilmente se pode dizer que não são bons jornalistas.]

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