Euler de França Belém
Euler de França Belém

Morre tradutora que fez Harry Potter quase se tornar grande literatura em Português

A tradução de Lia Wyler melhorou a prosa de J. K. Rowling. Se sua obra for traduzida do Português para o inglês, a autora se tornará a Charles Dickens de vestido

Conta-se, na Inglaterra de Shakespeare e Joyce (irlandês, pois não), que J. K. Rowling escreve muito melhor em Português do que em inglês. Como assim? Simples: em Português, como se sabe, sua série “Harry Potter” — que adultos compram para si informando que estão adquirindo para crianças — ganhou tradução da brasileira Lia Wyler. O resultado é que a escritora britânica se aproxima de Machado de Assis, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. Em inglês, Rowling é uma cópia de José Mauro de Vasconcelos, aquele que escreveu “Meu Pé de Laranja Lima” (que, confesso quase corando, li e multili, com uma lágrima num olho e outra lágrima no outro). O ideal, para que a criadora de Harry Potter cresça como escritora, é traduzi-la do Português para o inglês. Se for feito isto, é provável que se torne a Charles Dickens de vestido.

J.K. Rowling em Português escreve quase tão bem quanto Clarice Lispector | Foto: Reprodução

Pois, com a morte da grande tradutora Lia Wyler, J. K. Rowling fica órfã e, pensando também, até seus leitores patropis. A partir de agora, a escritora europeia não vai mais escrever tão bem quanto Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles — exceto, claro, se passar a ser traduzida por Denise Bottmann, Paulo Henriques Britto e Rubens Figueiredo.

Lia Wyler morreu na terça-feira, 11, aos 84 anos. A tradutora parecia sempre jovem, mas havia sofrido dois AVCs há algum tempo.

Lia Wyler se tornou mais conhecida por traduzir a saga de Harry Potter, o menino-adolescente bruxo — um romance de formação, vá lá, do mundo do “irrealismo” fantástico. Mas também traduziu escritores pesos-pesados da literatura transnacional, como Joyce Carol Oates — talvez a maior prosadora americana viva —, Henry Miller, Tom Wolfe (“A Fogueira das Vaidades”), Margaret Atwood. Stephen King “escreveu” melhor em Português quando traduzido pela brasileira. Lembro-me do Iúri Rincon Godinho vociferando: “Deixe de preconceito e leia Stephen King. É o Lúcio Cardoso do horror”. Mas os leitores do americano percebem que sua prosa é desigual. Dependendo do tradutor, melhora ou piora.

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Aura

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