Euler de França Belém
Euler de França Belém

Morre o professor João Alves de Castro, Fiinho, estrela da Geografia da PUC-GO

Na década de 1980, o mestre contribuiu para formar uma geração de historiadores e geógrafos críticos e preparados para interpretar o mundo

João Alves de Castro, o Fiinho: professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás | Foto: Reprodução

No início da década de 1980, com a ditadura civil-militar ativa, os movimentos sociais e políticos praticamente renasciam. A sociedade ganhava vida, pulsava. Nas universidades, notadamente na Universidade Federal de Goiás (UFG) e na Universidade Católica de Goiás (UCG, hoje PUC), o movimento estudantil era forte (imperavam grupos liderados pelo PC do B, Viração, PCB, Unidade, e PT, além das correntes trotskistas (fortes na Arquitetura em parte da Geografia). Os professores eram, no geral, de esquerda. Nas ciências humanas da Católica, pontificavam mestres categorizados como o padre espanhol Luis Palacín (grande mestre, não era de esquerda, que dava aulas num portunhol às vezes difícil de entender), Maria Amélia (outra mestre de excelente qualidade), José Carlos Debrey, Wilson Ferreira da Cunha (que havia chegado da União Soviética havia pouco tempo. O mestre em Antropologia se formara lá), Nasr Chaul (ainda um garoto, mas sábio), Goiás do Araguaia Leite (da economia, outro grande mestre) e João Alves de Castro (brilhante professor de “Geografia Humana” — algo assim). Naquela época, os alunos estudavam, discutiam e participavam com intensidade. Todos queriam participar da reconstrução democrática do país. Eram tempos radicais — a turma do PC do B, por exemplo, não tolerava as turmas do PCB e do PT. Os comunistas do B eram tachados de stalinistas e “albaneses”. E eles rotulavam o PCB de reformista e o PT de socialdemocrata (naquele tempo, um “xingamento” dos mais fortes).

João Alves de Castro, conhecido por todos como Fiinho, era, naturalmente, de esquerda. Mas não de uma esquerda ortodoxa. Pelo contrário, era aberto ao debate com os alunos e apreciava quando divergiam a respeito de determinados temas. Era, acima de tudo, um grande professor. É de duvidar que alguns de seus alunos tenham esquecido de suas, digamos, palestras, orientações e dicas de leitura. Ele contribuía para que o alunado, que mais tarde seria professor, redescobrisse o mundo, para que o percebesse de maneira mais ampla. Fiinho propugnava pela formação de um estudante crítico, mas crítico não apenas no sentido de querer substituir o capitalismo pelo socialismo. Ele ficava contente, isto sim, quando percebia que o aluno era capaz de interpretar o mundo real e, sobretudo, de pensar pela própria cabeça. Era mais “aberto” do que os marxistas tradicionais.

Os alunos de Fiinho o adoravam. Porque, depois de suas aulas, o mundo “deixava” de ser o mundo em que eles viviam antes. O mundo era visto, a partir de então, de maneira mais ampla — integrada pela economia e, eventualmente, pela política. O mundo, às vezes escuro e sombrio, ficava mais claro — dada a interpretação luminosa do mestre. Leitor (e intérprete) de Karl Marx — mas sem dogmatismo — e de Milton Santos, o notável geógrafo (praticamente um pensador) brasileiro, compartilhava o que havia de melhor e mais moderno em termos do estudo de Geografia — que conectava com mestria com História e outros saberes (como economia política).

Alunos de Fiinho — Antônio Luiz de Souza (o mais brilhante de todos), Sérgio Murillo de Souza, Heloísa Capel, entre tantos outros (fui um deles) — sabem que a morte de Fiinho deixa uma lacuna na universidade. Mas não só. Fiinho era um grande indivíduo, solidário e tinha um humor refinado — por isso deixa uma lacuna na vida de muita gente. O mestre era um homem de bem e do bem. Um homem bom — que sempre quis um mundo melhor para todos (não só para os proletários). Sobretudo, era um democrata.

Fiinho estava doente, convalesceu e morreu na madrugada de domingo, 24. Ele foi enterrado no Jardim das Palmeiras.

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