Euler de França Belém
Euler de França Belém

Morre o jornalista Jávier Godinho, aos 81 anos. Ele tinha câncer

Jávier Godinho era daqueles jornalistas que escreviam bem sobre qualquer assunto, e sempre com rapidez e eficiência

O jornalista Javier Godinho morreu na quinta-feira, 13, às 4 horas. Com sua energia visceral, batalhou e derrotou o câncer por 10 anos. Nascido na Cidade de Goiás, tinha 81 anos (nasceu em 27 de novembro de 1936). Deixa a mulher Stella Rincon Godinho e os filhos, Iúri Rincon Godinho, Bertrand, Ivana e Áulus. Iúri e Áulus seguiram a profissão do pai. O velório começou às 11 horas — sala 7 do Cemitério Jardim das Palmeiras — e o sepultamento será às 16 horas.

Como Bob Woodward, Jávier Godinho, formado em Direito pela Universidade, nunca exerceu a profissão de advogado. Desde o início, optou pela carreira de jornalista, na qual foi brilhante. Escrevia muito bem, com rapidez, sobre qualquer assunto. Nas redações, quando o assunto era intrincado, diziam: “Chamem o Jávier”. Além disso, com sua simpatia e elegância naturais — era um nobre sem aristocracia (um autêntico gentleman, sempre com uma palavra de apoio e carinho para todos) —, sabia cultivar as fontes. Frise-se: as melhores fontes, aquelas que dão informações de primeira linha, privilegiadas.

Na década de 1950, Jávier Godinho trabalhou como revisor e, num amplo processo de aprendizagem, passou por todos os cargos nas redações dos jornais. No “Diário do Oeste”, na década de 1960, trabalhou como editor. Apontado como brilhante pelos colegas, logo se tornou editor do “Cinco de Março” (jornal que balançava o Estado; consta que havia filas em algumas bancas para comprá-lo na segunda-feira), de “O Popular” (chefe de reportagem) e do “Diário da Manhã” (sucessor, só que diário, do “Cinco de Março”).

Jávier Godinho é mais conhecido por seu trabalho nos jornais impressos, mas também atuou no rádio e na televisão. Escreveu a “Hora do Angelus”, programa da TV Anhanguera/TV Globo que ia ao ar às 18 horas, por quase 50 anos. O texto era lido pelo jornalista José Divino, dono de uma bela voz. O programa tinha uma audiência altíssima. Os telespectadores ficavam esperando para ouvi-lo. Segundo uma fonte da TV Anhanguera, o programa foi o único, em todo o Brasil, a “romper” a sempre rígida grade de programação da TV Globo. Há quem diga que até Roberto Marinho, o criador do império Globo, aprovava a “Hora do Angelus”.

A atuação de Jávier Godinho na imprensa levou-o à cadeia assim que ocorreu o golpe civil-militar de 1964. Ao ser libertado, começou a trabalhar como correspondente do jornal “O Globo”, na década de 1970. Escreveu reportagens para o jornal da família Marinho durante dez anos. Sempre acionado pela redação carioca, era uma espécie de “voz do Centro-Oeste”. A redação do Rio costumava elogiar sua competência, rapidez e versatilidade.

Em 1984, quando no fim da ditadura civil-militar, Jávier Godinho assume a diretoria de Comunicação da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg). Ele chegou ao cargo de superintendente do Sistema Fieg.

Militante do movimento espírita

Há uma outra atividade de Jávier Godinho, a de militante do movimento espírita. Mesmo com escassas energias, depois da descoberta do câncer, dava palestras — concorridas —, às noites, em casas espíritas. Era um dos símbolos-apóstolos do espiritismo. Na redação do “Diário da Manhã”, quando lá trabalhei — ele sempre levava a neta, Amanda (que batucava na minha velha Olivetti) —, um de seus lemas era: “Fazer o bem, não importa a quem”. Costumava dizer, entre sério e brincalhão, que jornalista deveria ter mais de um emprego. Porque poderia perder um e, especialmente, porque, em geral, ganha mal.

O Google humano da redação

Jávier Godinho era uma biblioteca ambulante — um Google humano — sobre a política e o jornalismo de Goiás. Sabia tudo. Literalmente. Na redação do “Diário da Manhã”, não tinha viv’alma que não o consultasse. O jornalista Ferreira Júnior gostava de testá-lo e, depois, de verificar o que dizia. O grau de acerto era de 100% na maioria das vezes.

Embora fosse um escritor nato, dono de um texto preciso — havia sido criado na “escola da objetividade” —, publicou apenas dois livros. Pela editora de um dos filhos, Iúri Rincon Godinho, lançou “Pense Nisso, Seja Feliz” (1998) e “Imprensa Amordaçada” (2004). Neste, praticamente uma fonte primária — útil para pesquisadores —, apresenta os documentos da censura que ele guardou. A redação de “O Popular” era obrigada — assim como seu chefe de reportagem — a seguir à risca os ditames da censura, na década de 1970. O jornalista doou a documentação para o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás.

Depoimento do deputado federal Sandes Júnior

“Aos 16 anos, eu era office-boy na redação de ‘O Popular’. Jávier Godinho era o chefe de reportagem e Domiciano de Faria era o diretor-geral. Jávier era humano, alegre, de bem com vida. Ele tratava todos muito bem, com um olhar sempre alegre e carinhoso. Ensinava jornalismo aos mais jovens, e sem aquele olhar professoral. Lamento profundamente sua morte. Trata-se de uma grande perda profissional e, sobretudo, pessoal, dado o ser humano excelente. Posso até parecer piegas, mas se alguém tem vaga garantida no céu, este é Jávier, uma pessoa inteiramente do bem”.

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