Euler de França Belém
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Morre Modesto Carone, que presenteou os brasileiros com a excelência de Kafka

O tradutor fez Kafka “falar” em português como se fosse sua língua de expressão, o alemão. Era também escritor, professor e crítico literário

Modesto Carone: escritor, tradutor, crítico literário e professor universitário | Foto: Reprodução

O Brasil lia não Kafka-inteiro, e sim meio-Kafka. Mas aí, em 1984, surgiu Modesto Carone e deu-nos “Um Artista da Fome e A Construção”, uma antologia das histórias do escritor tcheco que, embora escrevesse em alemão, era frequentemente traduzido do inglês. Num de “seus” livros — mais do tradutor do que dele —, Torrieri Guimarães, ou a editora, tascou: “Traduzido do original inglês”. Com Carone — não um Caronte —, no início pela Editora Brasiliense e, depois, pela Editora Companhia das Letras, o leitor brasileiro descobriu outro Kafka, quer dizer, uma Kafka que “falava” como Kafka, que era Kafka (inseto, por exemplo, deixou de ser “sinônimo” de barata). Na segunda-feira, 16, o Brasil perdeu esta extraordinária ponte cultural que era Modesto Carone. O tradutor, escritor, crítico literário e professor morreu aos 82 anos. Ele teve uma parada cardiorrespiratória.

Modesto Carone era tão bom tradutor de Kafka (frise-se que Marcelo Backes também traduz o escritor com mestria) que, se alguém escrever que seu nome é Modesto Carone von Kafka, ninguém duvidará. Até porque, lá de seu túmulo, Kafka estará aplaudindo (ninguém sabe como, mas estará). O mestre nos levou a ler Kafka em português como se estivéssemos lendo sua prosa complexa — para além de burocrática e protocolar — em alemão.

Ao todo, a Companhia das Letras publicou nove volumes de Kafka com traduções de Modesto Carone, como “A Metamorfose” (talvez a novela mais famosa da história), “O Processo” e “O Castelo”, além dos contos e “Carta ao Pai”. Kafka quis queimar sua obra, mas, não tendo coragem de ele mesmo fazê-lo, encarregou o amigo Max Brod do “livrocídio”. Como não era piromaníaco, e sim amigo, muito mais do que mui amigo, Max Brod, verdadeiro herói, se encarregou de divulgar a literatura do tcheco-alemão. Merecia o Nobel de Literatura — ou até o da Paz — pelo feito de ter se tornado guardião de uma literatura de tão alta qualidade, uma qualidade única, que muitos tentam, mas não conseguem mimetizar.

Como crítico literário, Modesto Carone escreveu textos sobre Kafka, Henry James e Paul Celan, entre outros.

Modesto Carone foi professor da USP e da Unicamp — duas das melhores universidades do país. Deixa dois filhos, André Carone (tradutor do alemão, de Freud, como sua mãe, Marilene Carone, primeira mulher do tradutor de Kafka) e Silvia Carone.

A literatura de Modesto Carone

1 — “As Marcas do Real” (Paz e Terra) — contos

2 — “Aos Pés de Matilda” (Summus) — contos

3 — “Dias Melhores” (Brasiliense) — contos

4 — “Por Trás dos Vidros” (Companhia das Letras) — Contos

5 — “Resumo de Ana” (Companhia das Letras) — novela

6 — “A Poética do Silêncio” (Perspectiva) — crítica literária.

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