Euler de França Belém
Euler de França Belém

Morre Luiz Maklouf, símbolo do verdadeiro repórter no Brasil

O jornalista, de 67 anos, tinha câncer de pulmão. Repórter investigativo, ganhou prêmios e escreveu livros sobre a guerrilha armada e uma biografia de David Nasser

Luiz Maklouf Carvalho: repórter e escritor | Foto: Reprodução

Só há uma profissão no mundo jornalístico: a de repórter. Editor não é profissão — é cargo. Entretanto, por causa dos melhores salários, há jornalistas que se tornam editores e deixam de ser repórteres — atribuindo a outrem o que poderiam pesquisar e escrever eles mesmos. Quando Luiz Maklouf Carvalho nasceu, há 67 anos, um anjo, torto ou direito, certamente disse: “Vai ser repórter”. Disse ou não? O certo é que o paraense se tornou repórter, e nunca quis ser outra coisa. Ele morreu no sábado, 16, de câncer no pulmão. Em 2018, escreveu um relato para o “Estadão”, onde trabalhava como repórter especial, no qual conta que o câncer que o acometeu atinge “quem já foi fumante”: “Não faz nenhuma diferença se você parou de fumar pra lá de 15 anos, como no caso”. Em determinada época, fumou três carteiras de cigarro por dia. Ele recebeu vários prêmios jornalísticos.

O repórter Maklouf conseguiu o feito de ser abominado tanto pela esquerda quanto ela direita. Exatamente por ser repórter, sempre preciso. Trabalhou no “Movimento”, “Jornal do Tarde”, na “Folha de S. Paulo”, “Estadão”, no “Jornal do Brasil”, na revista “Época”, na revista “Piauí”.

“Cobras Criadas — David Nasser e o Cruzeiro” (Senac, 599 páginas), biografia do “jornalista mais conhecido do Brasil nos anos 50”, é sua pesquisa mais exaustiva. O objetivo de Maklouf não é demolir Nasser, um jornalista que inventava notícias, que fazia parte delas. Mas entender tanto o homem quanto a época na qual se produzia esse tipo de jornalismo. O resultado é que Nasser não fica menor, mas é mais bem compreendido pelos leitores — assim como seu tempo. Era grande? Era. Mas também se apequenava.

Um livro explosivo de Maklouf é “O Coronel Rompe o Silêncio” (Objetiva, 233 páginas), com o subtítulo de “Lício Augusto Ribeiro, que matou e levou três tiros na caçada aos guerrilheiros do Araguaia, conta sua história”. O coronel Lício Augusto Ribeiro Maciel falou de maneira aberta ao repórter sobre a Guerrilha do Araguaia. Neste livro, o jornalista cita o Jornal Opção, que, segundo ele, foi um dos primeiros jornais brasileiros a entrevistar militares que participaram ativamente da guerrilha — dando seus nomes e publicando fotografias.

O resgate pioneiro da participação das mulheres na luta armada contra a ditadura civil-militar foi feito por Maklouf no livro “Mulheres que Foram à Luta Armada”. “Já Vi Esse Filme — Reportagens (e Polêmicas) Sobre Lula e/ou PT” é uma espécie de biografia de Lula e do Partido dos Trabalhadores. Foi o primeiro repórter a publicar um escândalo do PT. Ele também que, ao contrário do que dizia, a ex-presidente Dilma Rousseff não tinha mestrado pela Unicamp.

O livro “O Cadete e o Capitão — A Vida de Jair Bolsonaro no Quartel” resulta de uma pesquisa criteriosa de um repórter investigativo com vocação para historiador. Obviamente, Bolsonaro não gostou do livro, que não o mostra como um grande militar, mas um criador de casos. Mais: o repórter explica por que o capitão não recebeu uma punição mais severa de seus comandantes. Quando o Jornal Opção comentou o livro, Mafklouf enviou um e-mail: “Obrigado pelos exageros”.

Quando o Jornal Opção funcionava nas proximidades da Praça Tamandaré, Maklouf um dia apareceu na redação. Queria trabalhar em Goiás. Não deu certo — por causa dos salários pagos no Estado — e ele voltou para São Paulo. Maklouf disse a um repórter do jornal que pretendia escrever um livro sobre Machado de Assis — talvez uma dissertação de mestrado ou uma tese de doutorado. Não sei se escreveu, mas era apaixonado pela obra do autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”.

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