Euler de França Belém
Euler de França Belém

Morre Janet Malcolm, uma lenda do jornalismo da revista New Yorker

A jornalista escreveu uma espécie de “A Sangue Frio” e publicou grandes livros sobre Sylvia Plath, Tchékhov e ensaios sobre Salinger e Joseph Mitchell

Janet Malcolm: escritora e jornalista americana | Foto: Reprodução

A jornalista e escritora Janet Malcolm morreu na quinta-feira, 17, de um câncer no pulmão. Ela tinha 86 anos, mas era dotada de uma vitalidade intelectual — de uma curiosidade aguda — praticamente inigualável. Ela contribuiu, desde 1963, para tornar a “New Yorker” uma das mais importantes revistas dos Estados Unidos.

O jornalismo literário, ou para além do jornalismo e do literário, de Janet Malcolm é extraordinário. Ela duvidava e era por duvidar, por questionar, que apresentava sua própria interpretação dos fatos (às vezes, os fatos eram, por assim dizer, “refeitos” por sua intervenção jornalística e intelectual). No livro “O Jornalista e o Assassino — Uma questão de Ética” (Companhia das Letras, 162 páginas, tradução de Tomás Rosa Bueno), escreveu a frase que se tornou antológica: “Todo jornalista que não é muito estúpido ou muito cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável”.

Janet Malcolm escrevia bem sobre variados assuntos, tornando-os mais atrativos aos leitores.

Quando decidiu escrever sobre o maior contista russo, sobre o qual se parecia ter dito tudo, acabou por publicar uma história original, “Lendo Tchékhov — Uma Viagem à Vida do Autor” (Ediouro, 462 páginas). O escritor não fica maior, claro, mas se torna mais compreensível para todos nós.

A poeta americana Sylvia Plath ganhou uma biografia de Janet Malcolm que reavalia sua vida, suas “motivações” para se matar, e explicita a grandeza de sua poesia. “A Mulher Calada — Sylvia Plath, Ted Hughes e os Limites da Biografia” (Companhia das Letras, 220 páginas, tradução de Sergio Flaksman) não é a melhor nem a mais ampla biografia da poeta, mas talvez seja a mais questionadora (há quem a considere “problemática” e “excessiva”). O que parece consenso se torna “problema” neste belo e complexo livro.

“O Jornalista e o Assassino” contém a frase citada acima: “Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável. Ele é uma espécie de confidente, que se nutre da vaidade, da ignorância ou da solidão das pessoas. Tal como a viúva confiante, que acorda um belo dia e descobre que aquele rapaz encantador e todas as suas economias sumiram, o indivíduo que consente em ser tema de um escrito não-ficcional aprende — quando o artigo ou livro aparece — a sua própria dura lição. Os jornalistas justificam a própria traição de várias maneiras, de acordo com o temperamento de cada um. Os mais pomposos falam de liberdade de expressão e do ‘direito do público a saber’; os menos talentosos falam sobre a Arte; os mais decentes murmuram algo sobre ganhar a vida”. Trata-se de um livro crucial para jornalistas.

O livro “41 Inícios Falsos — Ensaios Sobre Artistas e Escritores” (Companhia das Letras, 383 páginas, tradução de Pedro Maia Soares) traz ensaios sobre Salinger, William Shawn, Joseph Mitchell (autor de “O Segredo de Joe Gould”), entre outros.

Sabe “A Sangue Frio”, o romance de não-ficção de Truman Capote? Pois bem: “Anatomia de Um Julgamento — Ifigênia em Forest Hills” (Companhia das Letras, 198 páginas, tradução de Pedro Maia Soares) é “A Sangue Frio” escrito por uma mulher, cujo talento é similar ao de Capote, e, aqui e ali, com um olhar até mais perscrutador.

O preciso entendimento do caso, que gerou uma reavaliação, mostra a aguda percepção de Janet Malcolm. Ela acompanhou de perto o julgamento de Mazoltuv Borukhova, uma médica acusada de mandar matar o marido. Ao contrário do jornalista tradicional, que acusa rapidamente, tendo por base apenas uma declaração (“a” verdade) da polícia ou de advogados, a jornalista não reinventa a história, mas a descortina, com o máximo de clareza, gerando uma outra compreensão do processo. Jornalistas, e não apenas os que cobrem polícia, ganhariam muito se lessem o livro da notável repórter da “New Yorker”.

Gertrude Stein, uma das vozes modernistas mais poderosas do século 20 — relativamente “escondida” pelas inovações de James Joyce e de seu epígono americano, William Faulkner —, a despeito do que escreveu sobre si mesma, ganhou um livro impactante e revelador da pena de Janet Malcolm, “Duas Vidas — Gertrude e Alice” (Paz e Terra, 240 páginas, tradução de Patrícia Queiroz Carvalho Zimbres).

A jornalista também escreveu livros sobre Freud e a Psicanálise, quiçá sem a mesma percuciência de outras de suas obras.

Janet Malcolm, com seu texto límpido e suas histórias incríveis — e a palavra “incríveis” tem a ver com o modo como ela as contava —, era uma grande escritora-jornalista, que usava sua imaginação poderosa para esclarecer aquilo que o jornalista comum não consegue (ou não tem como) explicitar. O que parecia banal, uma produção do consenso, surgia expressado de outra maneira nos textos. Ela sabia que o jornalismo faz um “recorte” da realidade e tende a apresentá-lo, sem reflexão, como a realidade toda. Por isso, com suas reportagens e livros, provocava desconcerto no consenso dos repórteres que se tornam quase reféns das fontes corriqueiras. Ela se recusava a ser mera datilógrafa de declarações. Queria entender, por si, as motivações dos fatos, seus bastidores mais profundos. Fará falta.

A jornalista nasceu em Praga, em 8 de julho de 1934, e mudou-se, com a família, para os Estados Unidos em 1939. Seu nome tcheco era Jana Wienerová.

Artigo do livro “41 Inícios Falsos”, de Janet Malcolm

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