Euler de França Belém
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Morre Garcia-Roza, o psicanalista que sabia escrever romances policiais

O escritor queria mais entreter com uma literatura de qualidade do que ser o Guimarães Rosa do romance policial

Luiz Alfredo Garcia-Roza: autor de livros de psicanálise e de romances policiais | Foto: Reprodução

Há uma lenda de que o francês Jacques Lacan não era só um homem ou meramente um psicanalista. Era um povo (ou uma civilização) a ser amplamente estudado e decifrado. Depois de estudar ao menos dez anos sua obra hermética talvez seja possível sugerir: “Acho que estou entendendo Lacan”. Sua “prosa” era, por assim dizer, mais complexa do que a do escritor James Joyce. O irlandês escreveu “Finnegans Wake” com o objetivo, claro, de fazer alta literatura, mas também planejava dar trabalho aos intelectuais acadêmicos por cerca de 300 ou mais anos. Lacan, por certo, dará um trabalhão dos diabos por mais de mil anos aos leitores, que precisam, digamos, ser filhos de Jean-François Champollion, não para compreendê-lo, sim para tentar compreendê-lo.

Pois, embora esteja sendo apresentado mais como escritor de romances policiais, Luiz Alfredo Garcia-Roza — que morreu nesta quinta-feira, aos 84 —, escreveu sobre psicanálise. De maneira clara, objetiva. Quem lê entende mesmo, não fica “achando” que entendeu. Por quê? Porque Garcia-Roza escrevia, e sempre com rigor, com a prosa de um verdadeiro escritor — como Sigmund Freud, que, embora tenha recebido o prestigioso Prêmio Goethe, lamentava não ter levado o Prêmio Nobel de Literatura. Merecia? Muito mais do que Winston Churchill — que, quem sabe em reconhecimento ao que fez pelo mundo, na luta contra o nazista Adolf Hitler, ganhou o Nobel de Literatura.

Garcia-Roza estava internado há um ano, no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro. Tinha uma doença neurológica e, por isso, não escrevia mais. Ele era casado com a escritora Lívia Garcia-Roza. “Eu e Luiz Alfredo vivemos a mais bela história de nossas vidas”, afirma a autora. Ele dizia para sua mulher: “Eu escrevo ficção, mas eu sou um professor, vivo meu pensamento”. “Suas aulas eram uma festa intelectual”, afirma Lívia Garcia-Roza. Ela vai lançar, brevemente, um romance autobiográfico, “Não Sabia Que Nos Amávamos Tanto”. O livro vai relatar os 41 anos em que o casal conviveu.

Luiz Alfredo Garcia-Rosa e sua mulher, a escritora Lívia Garcia-Roza | Foto: Reprodução

Os livros de Garcia-Roza sobre psicanálise são lidos, é claro, muito mais por psicanalistas e estudantes de Psicologia. O que minha mulher, Candice Marques de Lima, psicanalista e professora da UFG, sempre me disse é que poucos explicam a psicanálise tão bem quanto Garcia-Roza. Mas o que tornou o autor famoso foram seus romances policiais — publicados pela Editora Companhia das Letras. Tornaram-se best sellers. Me parece que, diferentemente de Rubem Fonseca, Garcia-Roza não tinha pretensão de ser um grande escritor — uma espécie de Graciliano Ramos ou Guimarães Rosa do romance policial. Ele por certo queria entreter, mas entreter bem, com uma literatura refinada — sem almejar um lugar no panteão dos gigantes, como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Bernardo Élis, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Teles…

O detetive Espinosa é, para os brasileiros, o que Hercule Poirot e Sherlock Holmes são para leitores de todo o mundo. O que marca sua produção literária é a organização milimétrica da atuação de suas personagens e o texto de uma clareza infinda.

Dá para acreditar que Garcia-Roza estreou como ficcionista aos 60 anos? É um fato. Mas seus textos sobre psicanálise sugerem que havia, na exposição clara e no texto refinado, um prosador à espera de uma obra literária — que, felizmente, chegou.

O romance “O Silêncio da Chuva” recebeu o Jabuti — o que indica que sua qualidade literária foi reconhecida. O detetive Espinosa surge neste livro, já perfeitamente configurado. Ele, claro, investiga crimes.

As histórias de Garcia-Roza fizeram tanto sucesso que acabaram, algumas delas, adaptadas na série “Romance Policial — Espinosa”. O ator Domingos Montagner (1962-2016) fez Espinosa — e muito bem. Lázaro Ramos interpreta o detetive no filme baseado em “O Silêncio da Chuva”. A película ainda não foi exibida.

Entre os 12 romances de Garcia-Roza alguns de mais sucesso são “Achados e Perdidos”, “Uma Janela em Copacabana”, “Espinosa Sem Saída”, “Céu de Origamis”, “Um Lugar Perigoso”. Na ditadura, as pessoas ficavam à espera do lançamento do novo disco de Chico Buarque. Pois conheci leitores que esperavam ansiosamente o novo lançamento literário de Garcia-Roza. Em julho de 2019, saiu o último romance do escritor, “A Última Mulher”.

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