Euler de França Belém
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Morre de câncer o escritor argentino Leopoldo Brizuela, aos 55 anos

Além de uma prosa reconhecida internacionalmente, ele traduziu Flannery O’Connor, Eudora Welty e Bernardo de Carvalho

O escritor argentino Leopoldo Brizuela morreu na terça-feira, 14, aos 55 anos. O autor do romance “Uma Mesma Noite” (Alfaguara, 248 páginas, tradução de Maria Alzira Brum Lemos) tinha câncer. Era prosador, poeta, crítico e tradutor. Estava escrevendo um romance a respeito da infância de seu pai.

Leopoldo Brizuela, escritor argentino | Foto: Gustavo Carello

Os jornais “La Nación” e “Clarín” destacaram a história de Brizuela. Daniel Gigena, de “La Nación”, assinala que era autor de “uma obra reconhecida na Argentina e no exterior”.

O primeiro romance de Brizuela, “Tejiendo Agua”, de 1985, conquistou o prêmio da Fundacíon Amalia Lacroze de Fortabat. “Inglaterra — Una Fabula” recebeu o prêmio Clarín de Novela, em 1999. “Uma Mesma Noite” levou o prêmio Alfaguara, em 2012. O escritor recebeu também o prêmio Konex de conto e romance. Seus livros foram traduzidos para vários idiomas.

O escritor argentino Héctor Bianciotti, baseado na França, elogia Brizuela: “Nasceu prosador. Ao lê-lo, por momentos recordava as melhores páginas de Juan Carlos Onetti. Mas é melhor. A frase, mais controlada”. Exagero? Por certo, porque as duas prosas são muito diversas. Não é preciso diminuir o uruguaio para elevar o argentino.

Daniel Gigena sublinha que a linguagem dos romances “Inglaterra — Una Fábula”, de 1999, “Lisboa — Un Melodrama”, de 2010, e “Ensenada — Una Memoria”, de 2018, parece “provir da fusão entre a trama e os espaços escolhidos”. “Para mim é uma felicidade enorme corrigir, muito mais que escrever”, disse Brizuela ao “La Nación”. Ele frisava que, ao corrigir, ia encontrando novas formas, e moldando a linguagem e a história. “Me entusiasmava encontrar toda uma poética? Não, um repertório de imagens, de coisas típicas”, postulava o escritor. “Para Brizuela, a ficção tinha um poder enorme sobre a vida”, anota o repórter do jornal.

“Los Que Llegamos Más Lejos”, de 2002, é considerado seu livro de contos mais destacado.

Formado em Direito, Letras e Canto (com a compositora e musicóloga Leda Valladares) — chegou a estudar em Cambridge —, Brizuela apreciava cantar e, sobretudo, escrever críticas sobre artistas da música popular da Argentina, como Mercedes Sosa, Leda Valladares e Aymé Painé.

Como crítico, Brizuela divulgava a literatura de escritores jovens e de escritores que haviam sido esquecidos. Estava trabalhando “na recuperação de arquivos de escritores argentinos” — como Hebe Uhart. Antes, como crítico, batalhou pelo reconhecimento das escritoras Sara Gallardo (1931-1988), autora de “Os Galgos”, e Elvira Orphee (1922-2018), autora de “Dos Veranos” e “Aire Tan Dulce”.

Graças ao seu empenho, “Narrativa Breve Completa”, de Sara Gallardo, voltou a circular. A autora foi “reinserida” no “panorama literário local”, postula “La Nación”.

Leopoldo Brizuela, prosador, poeta e crítico | Foto: EFE

Brizuela organizou antologias, como “Historia de um Deseo — El Erotismo Homossexual” (28 relatos argentinos contemporâneos), de 2000. “Não quero ser considerado um autor de literatura gay, escrevo literatura.” Ele dizia não gostar de rótulos, de classificações redutoras.

No livro “Cómo se Escribe un Cuento”, Brizuela “selecionou fragmentos de escritores como Edgar Allan Poe, Henry James, Franz Kafka, Carson McCullers e Eudora Welty [que amava], com sábios conselhos para narradores”.

Considerado tradutor de primeira linha, Brizuela verteu para o espanhol obras de Henry James, Flannery O’Connor, Eudora Welty, Bernardo Carvalho (escritor e jornalista brasileiro) e Laura Alcoba.

Repercussão

Selva Almada, escritora: “Era uma pessoa graciosa, com muitas anedotas de escritores, uma língua afiada. Passamos bons momentos juntos, divertidos”.

Flavia Pitella, jornalista: “Quero recomendar ‘Inglaterra — Una Fabula’, para mim seu melhor romance, e a nouvelle ‘El Placer de la Cautiva’”.

Claudia Piñeiro, escritora: “Ainda que alguns soubessem que estava doente, isto [a morte] nos pegou de surpresa e no deixa com uma tristeza infinita. Ademais de ser um escritor argentino, era uma pessoa da qual todo mundo gostava”.

Enzo Maqueira, escritor: “Não pude acreditar. Leopoldo Brizuela querido. Nos ensinaste a ler Sara Gallardo, Elvira Orphee, tanta literatura bela”.

Livros de Leopoldo Brizuela

“Tejiendo Agua” — 1985

“Inglaterra — Una Fabula” — 1999

“O Placer de la Cautiva” — 2001

“Los Que Llegamos Más Lejos” — de 2002 (Contos)

“Lisboa — Un Melodrama” — de 2010

“La Locura de Onelli” — 2012 (histórias curtas sobre um caso real)

“Uma Mesma Noite” — 2012 (trata da ditadura argentina). Traduzido no Brasil.

“Ensenada — Una Memoria” — 2018

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