Euler de França Belém
Euler de França Belém

Morre Clóvis Rossi, o repórter dos repórteres. Aos 76 anos

O jornalista trabalhou quase 40 anos na Folha de S. Paulo, sempre como repórter e, recentemente, como colunista

Clóvis Rossi pertencia ao Conselho Editorial da “Folha de S. Paulo”, mas não era editor. Ele foi, a vida toda, repórter — a única e verdadeira profissão no jornalismo (editor é cargo, não é profissão). Nos últimos anos, escrevia uma coluna, na página 2, com cacoete mais de repórter do que de articulista. Ele havia sofrido infarto, na semana passada, e morreu na sexta-feira, 14, em sua casa, em São Paulo, aos 76 anos.

Brincalhão, escreveu na sua última coluna, “Boletim Médico”: “Até mentiram [seus colegas de jornal] dizendo que estavam sentindo a minha falta”. Os leitores vão sentir sua falta — e como. Falta daquele jornalismo decente e límpido.

Clóvis Rossi era formado em Jornalismo pela Cásper Líbero e iniciou sua trajetória jornalística em 1963 (56 anos de profissão). Foi repórter do “Correio da Manhã”, “Estadão”, “Jornal do Brasil”, “IstoÉ”, “Jornal da República” (de Mino Carta) e estava havia 39 anos na “Folha”, da qual era o “decano”.

Repórter com forte atuação tanto no Brasil quanto no exterior, Clóvis recebeu os prêmios Maria Moors Cabot, da Universidade Colúmbia, e o da Fundação Nuevo Periodismo Íbero-Americano (cujo criador foi o escritor Gabriel García Márquez).

Dada sua ampla experiência (foi correspondente em Buenos Aires, Madri e fez várias coberturas noutras regiões), escreveu o livro “O Que É Jornalismo” (pela Editora Brasiliense) e “Clóvis Rossi, Enviado Especial, 25 Anos ao Redor do Mundo”. Seu jornalismo de primeira linha, no qual a opinião não subordinava os fatos, mas iluminava-os, é um verdadeiro manual de redação. Mais do que seus livros.

Modesto e exigente, Clóvis disse, na Flip, em 2014: “Raramente gosto do que faço. Sempre acho que a próxima reportagem vai ser melhor. Exceto nessa cobertura” (sobre a queda do franquismo, na Espanha).

O diretor de redação da “Folha”, Sérgio Dávila, escreveu: “A ‘Folha’ e o jornalismo brasileiro perdem um de seus principais e mais premiados repórteres, certamente o mais experiente. Clóvis era admirado por gerações de profissionais por sua independência de pensamento, disposição e rapidez de trabalho e qualidade de cobertura. Vai fazer muita falta”.

Polivalente entre os polivalentes, escrevia bem sobre qualquer assunto, desde que lhe desse um tempo mínimo para estudá-lo. Ele contou aos colegas que um de seus sonhos era “ser setorista da Liga dos Campeões da Europa”. Brincadeira? Quem conheceu o jornalista acha que não. Por sinal, ele torcia para o Palmeiras e para o Barcelona, segundo reportagem da “Folha” (que publicou um perfil fraco de seu notável repórter. Espera-se que seja refeito durante o dia).

Como definir Clóvis Rossi? Talvez basta dizer: era o repórter dos repórteres — como, entre outros, José Hamilton Ribeiro.

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