Euler de França Belém
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Milton Blay lança livro com suas grandes histórias de Paris

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O jornalista brasileiro Milton Blay mora em Paris desde 1978 — é quase um Ivan Lessa afrancesado, porém mais repórter do que articulista. Agora, faz o que há muito se esperava dele: publicou “Direto de Paris – Coq Au Vin Com Feijoada” (Contexto, 224 páginas).

Repórter experimentado, Milton Blay foi correspondente da revista “Visão”, da “Folha de S. Paulo, das rádios Capital, Excelsior (CBN) e Eldorado, e redator-chefe da Rádio França Internacional.

Introdução do livro de Milton Blay:

“Ao abençoar os sambistas do Brasil – branco, preto, mulato, lindo como a pele macia de Oxum –, Vinicius de Moraes filosofou: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. Empresto a frase do poeta, gravada para sempre no tampo de cristal da mesa de reuniões da Rádio França Internacional, para lembrar – e contar – os tantos e quantos encontros e desencontros vividos nesses 35 anos em Paris.

“Foram inúmeros encontros inusitados: com Orson Welles, em torno de uma salade de boeuf no centenário bistrô Benoit; com um Chagall falador e nostálgico; com Jacques Chirac, admirando o sexo de uma musa de Picasso; com o aiatolá Khomeini, prometendo a jihad, guerra santa islâmica; com FHC esperançoso ao entregar o cargo a Lula; com Sarney, em Marselha, desafinando na “Saudosa maloca”; com Le Pen, la bête immonde; com o general francês Aussaresses, que ensinou os nossos militares a torturar…

“E muitos desencontros também: do general-presidente Figueiredo, deixando o Hotel Marigny às escondidas para viver a noite de Pigalle, a Jânio Quadros “sonambulando” em plena Praça da Concorde; da boulangère de cara amarrada ao policial incongruente; da descoberta do passado fascista do “socialista” Mitterrand ao desentendimento do casal Amado — Jorge e Zélia — com o casal London, comunistas que os acolheram na Praga soviética; do médico que queria a todo custo que eu, em nome da brasilidade, tivesse doença venérea…

“Tantos casos…

“Vítimas de deformação profissional, as palavras, depois linhas, parágrafos e pontos-finais surgiram no estilo radiofônico, “curto e grosso”.

“A opção pela primeira pessoa foi mais complicada. Minha geração aprendeu, na prática, que o “eu” não existia na escrita jornalística. O repórter devia se limitar a narrar o fato, a partir daqueles seis paradigmas: o que, quem, quando, como, onde, por quê. Se essas questões não fossem respondidas na abertura da matéria, o lead, era melhor rasgar a lauda e começar tudo de novo.

Era preciso guardar certa distância em relação ao acontecimento para ser o mais “objetivo” possível. Se em seus primórdios o ‘Jornal da Tarde’ arrebentou as correntes que sufocavam a criatividade, a Folha de S. Paulo dos anos 1980 tratou de ressuscitá-las. Fui ator dos dois.

“Mas eis que o new journalism se impôs no cotidiano, com a internet foram criados os blogs, o Twitter e o Facebook, e o jornalista passou a ocupar a posição de personagem central, às vezes tão ou até mais importante que o objeto do artigo. O número de colunistas nas redações ultrapassou o de repórteres.

“E assim o texto, antes sem identidade, passou a ter nome e sobrenome.

“Pouco a pouco surgiram histórias, lembranças de momentos vividos em uma terra que foi me adotando ao longo desses mais de 30 anos, transformando-me em um ser híbrido: franco-brasileiro-migrante, coq au vin com feijoada. No papel, surgiram sensações e sentimentos que desobedeceram à “objetividade” jornalística.

“Quis contar historietas de um cidadão-correspondente brasileiro em Paris, que, como muitos, chegou à França no final dos anos 1970 para passar dois anos, no máximo, e que aqui se encontra até hoje, a poucos quilômetros da Torre Eiffel. Sem arrependimento, porém com o sentimento onipresente de que amanhã será o dia do retorno. Como quase todo imigrado, que pensou milhões de vezes em voltar e outros tantos milhões em ficar, preparei o retorno que nunca concretizei. Talvez seja assim até o fim, talvez este livro seja um início de resposta. Pouco importa qual seja o futuro, tornei-me parisiense, uma cidadania diferente de qualquer outra.

“Neste livro, deixei de lado reportagens de guerra, como a da Bósnia-Herzegovina e a do Oriente Médio, e coberturas de fatos marcantes, como a chegada do aiatolá Khomeini a Teerã, os atentados de Paris cometidos nos anos 1980 pelo argelino GIA (Grupo Islâmico Armado), a greve do Sindicato Solidariedade, liderado por Lech Walesa, em Gdansk, pedra inaugural do desaparecimento da Cortina de Ferro, o encontro desencontrado do polonês com Lula, ambos ainda sindicalistas, um querendo sair do comunismo, o outro querendo abraçá-lo, o primeiro voo do Concorde, o lançamento do satélite Brasilsat 1 pelo foguete Ariane, da base de Kourou, na Guiana, ou ainda a morte trágica de Lady Diana no túnel da Ponte Alma, quase em frente à nossa embaixada, entre tantos outros. Optei por acontecimentos que talvez possam parecer menores, mas que, por razões diversas, me tocaram, me fizeram rir, chorar, me deixaram feliz ou indignado, me tiraram o sono. Quis também traçar, em breves pinceladas, este país de contradições – a França –, sobre o qual muito se fala e pouco se sabe, e que, apesar de sentimentos ambivalentes, está impregnado na minha pele.

“Inspirado no mestre Hemingway, rascunhei a “minha” Paris, feminina por excelência, que continua a ser uma festa. Quis dividir com cada um dos leitores as largas avenidas e os recônditos desta cidade única no mundo, a mais visitada, que esconde dos turistas alguns de seus maiores tesouros.

“Procure uma similar, não vai encontrar.

“Não tive a pretensão de escrever um livro exaustivo sobre a minha carreira de correspondente internacional, talvez a mais longa do jornalismo radiofônico brasileiro, nem dar conselhos para jovens que se lançam na profissão com o sonho de abraçar o mundo. Mesmo se a eles dedico algumas linhas vindas de outro século, antes da internet, em que nem sonhávamos com o mundo virtual. Para as chamadas “putas velhas” do jornalismo, vão aqui lembranças de como era trabalhar no tempo em que a palavra “reportagem” tinha som de máquina de escrever, gravador de fita, mancha de carbono nos dedos, sabor do cafezinho de garrafa térmica.

“Ao escrever, quis apenas tirar ao acaso da caixa de memória histórias como aquelas que animavam as noitadas de jornalistas “das antigas”, quando ao sair da sala de redação, após o fechamento da edição, nós nos reuníamos no boteco do Alemão para jogar conversa fora e depois, no jantar da alta madrugada, nos paulistanos Sujinho, Gigetto, Giovanni Bruno ou Pirandello, para relembrar “causos”. Sem saudosismo e sem smartphone. Histórias, com h minúsculo, para serem saboreadas com uma taça de bordeaux, de preferência tinto, camembert e baguette, em frente ao fogo da lareira crepitando.

“Este livro é, antes de tudo, um bate-papo com os ouvintes, para quem sou uma voz sem rosto e a quem saúdo com um bonjour, Direto de Paris.”

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