Irã e Estados Unidos dos trópicos, o portal Metrópoles e o jornal “O Estado de S. Paulo” permanecem em guerra. Sem sinal de armistício.

Primeiro, o “Estadão” publicou uma reportagem na qual informa que o Metrópoles, do ex-senador Luiz Estevão, recebeu 27 milhões de reais do Banco Master, do agora maldito Daniel Vorcaro.

Segundo, ao reagir, o Metrópoles informou que o “Estadão” obteve empréstimo de 142,5 milhões no mercado financeiro com intermediação de Maurício Quadrado, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master e na PrimeYou.

A guerra poderia ter terminado aí. Mas o Metrópoles decidiu continuá-la, estocando o centenário jornal paulista, que, finalmente, encontrou um adversário que não parece temê-lo.

Na quinta-feira, 23, o Metrópoles voltou ao ataque, disparando mísseis, com a reportagem “Jornal dos banqueiros, Estadão recebeu R$ 1,12 milhão do Master”.

Luiz Estevão: o dono do Metrópoles não se intimidou e ataca o Estadão | Foto: Reprodução

As matérias do Metrópoles geralmente são assinadas pelos repórteres. A de quinta-feira está firmada como “Da Redação”. O que sugere que foi produzida sob encomenda de Luiz Estevão.

No momento, o Metrópoles parece mais beligerante. Embora a reportagem tenha o cunho de “ataque” (ou defesa preventiva, sabe-se lá), o repórter que a fez não deixou de ouvir a direção do “Estadão” e outros envolvidos, direta ou indiretamente, na quizília.

A reportagem é “maliciosa”? É. Mas não muito diferente de alguns artigos que o “Estadão” publica sobre, por exemplo, Gilmar Mendes e Alexandre de Morais, ministros do Supremo Tribunal Federal. Há muitas acusações — talvez produto de ilações e insinuações —, mas sem provas cabais. Processos à vista, vários, quando o caso, digamos, “esfriar”.

Agora o feitiço virou contra o feiticeiro. Quem está no ataque é o Metrópoles, que obriga o “Estadão” e alguns de seus aliados, como o banco Itaú, a se posicionarem.

Cozinha de jornais nem sempre é limpa?

A primeira frase da reportagem é bombástica: “O ‘Estadão’ recebeu R$ 1,12 milhão diretamente do Banco Master”. O Metrópoles ouviu a direção do rival, que “confirmou que cobrou os valores de Daniel Vorcaro em troca de divulgar publicidade institucional do banco, incluindo campanhas de captação de clientes e de abertura de conta”.

Maurício Quadrado Foto Reprodução
Maurício Quadrado: empresário que intermediou empréstimos para o “Estadão” | Foto: Reprodução

(O recado do Metrópoles é explícito: alguns jornais, como o “Estadão”, receberam dinheiro do Banco Master & Daniel Vorcaro, mas preferem “pisar” no rabo dos outros. Não há pureza no mercado jornalístico, sugere o site de Luiz Estevão. Com razão, por sinal. Há outra mensagem: nossa munição é como a do Irã — não esgotou. Ao apontar os aliados financeiros, o portal de Luiz Estevão também assusta a cúpula do “Estadão”? É provável.)

Dando voz ao “Estadão”, o Metrópoles relata que o jornal informou que “o montante também incluiu o patrocínio da cobertura do GP Brasil de Fórmula 1, além de aquisição de mídia digital e da publicação de informe publicitário”.

Metrópoles faz questão de ressaltar que “os contratos foram firmados entre 2021 e 2025. Vorcaro foi preso pela primeira vez em 2025, acusado de fraudar o sistema financeiro”. Noutras palavras, os chefes do “Estadão” certamente sabiam que o banqueiro não era (mais) “boa bisca”.

Homens com facas pintura de Jeff Christensen
Pintura de Jeff Christensen | Foto: Reprodução

Adiante, o Metrópoles retoma a “denúncia” anterior: a história de que Maurício Quadrado ajudou o “Estadão” a obter 142,5 milhões no mercado financeiro. Três bancos, Itaú, Santander e Bradesco, emprestaram 45 milhões de reais ao jornal.

Empresas privadas também aportaram dinheiro ao “Estadão”. A gestora de investimentos Galápagos também repassou dinheiro para o jornal.

O conselho de administração do “Estadão” conta com seis pessoas (todos homens): Francisco de Mesquita Neto, Roberto Crissiuma Mesquita e Manoel Lemos, pelo jornal, e Marcelo Pereira Malta de Araújo, ex-executivo do grupo Ultra, Marco Bologna, sócio da Galápagos, e Tito Enrique da Silva Neto, ex-presidente do Banco ABC, pelos investidores.

A tese do Metrópoles é: os Mesquita não mandam mais. Quem “manda” no “Estadão” são banqueiros e investidores.

Ouvido pelo Metrópoles, o Itaú (das famílias Moreira Salles e Setúbal) admite que emprestou dinheiro ao Estado — 15 milhões de reais. Mas sustenta que não tem “qualquer poder administrativo, de gestão, participação em conselho ou influência sobre a linha editorial do veículo”.

Arte de Claude Cahun

A pergunta final, que o Metrópoles não fez, é: apesar de ter recebido dinheiro de Daniel Vorcaro, o poderoso chefão do Banco Master, e de um parceiro, Maurício Quadrado, o “Estadão” deixou, ao menos por um período, de publicar reportagens “negativas” a respeito de suas negociatas? Pelo que tenho lido, e já faz algum tempo, o jornal dos Mesquita e, segundo o Metrópoles, dos banqueiros, não alisa nem Daniel Vorcaro nem o Banco Master. Nem seus aliados no campo da magistratura e da política.

Do ponto de vista estritamente do leitor, a “briga” entre o “Estadão” e o Metrópoles tem seu lado positivo. Fica-se sabendo o que acontece na cozinha — antigamente se diria nos porões — dos jornais brasileiros.

Jornais cobram uma pureza da sociedade que eles mesmo não têm. Porque é imperfeição que “move” o mundo. A perfeição é a ficção preferida dos inocentes.

Tudo indica que o Banco Master, com Daniel Vorcaro no comando, contaminou magistrados, políticos, empresários, advogados e influencers. E, claro, jornais e sites. Leitores precisam saber disso: corruptos e corruptores não estão presentes apenas na política, no mundo empresarial e na magistratura. Estão em todos os lugares — ou quase. Inclusive no meio jornalístico — o espaço da pureza que não é pureza.