Euler de França Belém
Euler de França Belém

Mesmo em crise, O Popular venceu: publicações online se tornaram cópias do jornal

No lugar de buscar modelos em jornais que estão se renovando de fato, veículos online de Goiás adotam o velho Pop como regra

Jaime Câmara Júnior, Tasso Câmara (o decano da família), Cristiano Câmara e Tadeu Câmara: a família, mesmo saindo do negócio da comunicação, fez escola em Goiás, influenciando sites que são a cara de “O Popular”

A família Câmara fundou um jornal, há 80 anos, e o tornou um “símbolo” de Goiás. Quase símbolo de jornal, em termos do Estado. Pode-se criticar “O Popular”, dado seu comodismo ao tratar os fatos — quase sempre primando por ser o “sorriso” dos governos e a “cárie” da sociedade —, mas não há como discordar de sua seriedade. O problema é que os tempos mudaram e o produto do Grupo Jaime Câmara ficou velho e, sobretudo, sem sintonia com a sociedade, com as mudanças do mundo.

Enquanto “Folha de S. Paulo”, “O Globo” e “O Estado de S. Paulo” foram mudando, adaptando-se aos novos tempos, “O Popular” ficou para trás. Sendo um jornal regional — portanto, sem dimensão nacional —, cometeu um grave erro de estratégia, o que impediu uma, digamos, explosão de “acesso”. O jornal dirigido por Jaime Câmara Júnior, o Júnior Câmara, decidiu permitir o acesso apenas aos assinantes. Por que leitores de outros Estados, como Ceará, Bahia, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Maranhão, assinarão um jornal que não conhecem? Se querem análises abrangentes certamente irão buscá-las nos jornais “Valor Econômico”, “Folha”, “Estadão”, “O Globo” e nas revistas “Veja”, “Época”, “CartaCapital”, “IstoÉ”, “Piauí” e “Exame”. Notícias de Goiás interessam basicamente aos goianos? No geral, sim. “O Popular”, ao se fechar, perdeu a dimensão nacional.

“Folha”, “O Globo” e “Estadão”, antes da explosão da internet, já circulavam nas principais cidades do País, sobretudo nas capitais — o que deu-lhes o status de jornais nacionais. Quando passaram a cobrar pela assinatura digital (os valores são quase irreais, de tão baixos, dado o custo financeiro-operacional de um jornal), por serem conhecidos e por terem material de qualidade, conquistaram uma ampla fatia de novos leitores, muitos deles, possivelmente, nem eram assinantes do produto impresso. Os dirigentes de “O Popular”, ao circunscrevê-lo ao público goiano — àquele que o assina, porque o conhece e respeita —, deixaram de conquistar o País, ou melhor, viraram as costas para o Brasil. A adoção de uma estratégica provinciana sugere que o jornal é conduzido por pessoas que ficaram para trás, que não entenderam o mundo pós-internet.

Outra prova de que a cúpula de “O Popular” não entendeu as mudanças na comunicação contemporânea é que, quando os demais jornais começaram a combinar a cobertura factual — a que morre assim que o jornal é impresso (ou logo depois que a notícia é disposta na internet) — com a ampliação do espaço para a análise consistente, o meio de comunicação da família Câmara continuou priorizando quase que exclusivamente a mera divulgação de fatos, sem conectá-los e explicá-los. Observe-se que nas suas páginas de opinião raramente há a participação de articulistas do próprio do jornal — que terceirizou sua opinião, o que é uma prática velha que não se sustenta mais (o “Pop” parece se orgulhar de, ao longo de sua longeva história, ter se constituído como um “jornal sem opinião” — quiçá para não incomodar, sobretudo os governos).

Modelo negativo

Mas há um fato que está passando despercebido. “O Popular”, mesmo perdendo espaço para “O Globo”, “Folha” e “Estadão”, acabou “vencendo” pelo menos num aspecto. O jornal “fez” um filho nos jornais online de Goiás. A maioria copia literalmente o estilo do jornal de Júnior Câmara, Tadeu Câmara e Tasso Câmara. Eles estão priorizando a cobertura factual e raramente abrem espaço para a análise. Para piorar, algumas reportagens nada dizem. “Fulano foi “assassinado”, afirma uma reportagem. Mas sequer o nome do morto aparece. Uma empresa foi “autuada”, mas os repórteres, não se sabe por quê, omitem o seu nome. Há textos, como diz o povão, que não têm pé nem cabeça. São reportagens mais para serem esquecidas do que lidas. O curioso é que há proprietários e editores que não percebem o caos que estão patrocinando. Talvez porque não estejam lendo o que estão publicando.

Os leitores dos jornais online percebem, de cara, que, ao terminar a leitura da maioria das publicações, não ficam bem informados. Não se está falando nem de capacidade analítica — que não existe, exceto em um ou outro jornal, às vezes num blog —, mas de informação pura e simples. Os textos, em regra, não informam de maneira ampla e precisa. Estamos na era da reportagem superficial, uma espécie de jornalismo fast food.

Portanto, é possível dizer: mesmo em crise, “O Popular” venceu, pois faz escola. É provável que muitos proprietários de jornais, admirando a pujança econômica do Grupo Jaime Câmara, desejam, inconscientemente, se tornarem os novos Câmaras. É isso? É provável que, tendo “inveja” de Júnior Câmara — que acaba de vender a TV Anhanguera e “O Popular” para o Grupo Zarhan, de Mato Grosso, supostamente sob pressão do Grupo Globo (no caso da emissora), que dirige a TV Globo —, alguns dos proprietários de jornais online estejam tentando se tornar Câmaras mignons. Já que é para copiar, que tal copiar o que é melhor, como o jornalismo da “Folha”, de “O Globo” e do “Estadão”? A “Veja” online também é um modelo a ser examinado, assim como o da revista “Época”.

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