Euler de França Belém
Euler de França Belém

Mark “Garganta Profunda” Felt, o homem que derrubou Nixon, o presidente dos Estados Unidos

Bob Woodward diz que Mark Felt foi fundamental para mostrar as entranhas do governo de Nixon e revela sua relação tensa com a fonte que foi preservada durante 33 anos

“Os motivos de [Mark] Felt eram certamente complicados e não totalmente explicáveis. Três décadas no FBI, contudo, serviram para deixá-lo afiado em um princípio básico: a verdade sempre aparece”Bob Woodward

Texto publicado em 20 de junho de 2009

O livro “O Homem Secreto — A História do Garganta Profunda de Watergate” (Editora Rocco, 223 páginas), do jornalista Bob Woodward, 66 anos, deve ser acompanhado de duas dicas. A primeira, óbvia, é: se o leitor quer mesmo entender a história de Watergate, que provocou a renúncia de Richard Nixon, presidente dos Estados Unidos, em 1974, deve ler “Todos os Homens do Presidente”, obra publicada por Woodward e Carl Bernstein na primeira metade da década de 1970. Muito mais amplo, o livro merece reedição¹. A segunda é atraente para os mais preguiçosos: o filme de Alan J. Pakula, com título homônimo, é um retrato preciso da história contada pelos jornalistas do “Washington Post”. A grande revelação de “O Homem Secreto” não é mais revelação, pois, antes de Woodward publicar sua história, furando todos, mais uma vez, a família de Mark Felt, o número 2 do FBI na época de Watergate, divulgou a história em “Vanity Fair”, revista norte-americana. O Garganta Profunda, na hora agá, escapou de um de seus “criadores-criaturas”. Mark Felt, passando ou apenas confirmando informações, ajudou Woodward, com o apoio de Bernstein, a levar Nixon às cordas e, daí, ao nocaute.

Mark Felt: este homem fez a história americana girar mais rápido e ajudou a derrubar o presidente Richard Nixon, em agosto de 1974 | Foto: Reprodução

Leitores exigentes certamente vão reclamar que, sendo um livro de oportunidade, falta-lhe fôlego, profundidade, contexto (não há uma linha sobre a economia do período; Peter Ripley, em “Nixon”, uma biografia mixuruca, diz, na página 74: “A inflação foi o grande fracasso de sua política interna” [o autor refere-se a Nixon]). Trata-se de uma longa reportagem (às vezes, muito fria, sem a tensão de “Todos os Homens do Presidente”) transformada em livro. Só isto. Mas, se falta a Woodward o charme e a finura literárias de Ernest Hemingway e Norman Mailer, para os quais a imaginação tem o “dever” de substituir os vazios da realidade, o repórter é dono de invejável capacidade de investigação. Muito do que descobriu deveu-se à sua pertinácia, uma das maiores virtudes dos grandes repórteres (repórter que liga duas vezes para uma fonte e desiste merece perder o emprego. Se ligar de dez a 50 vezes vai incomodar tanto a fonte que, certamente, vai obter pelo menos um “não” como resposta. E, como se sabe, um repórter eficiente, que não se contenta com a versão de uma única fonte, pode produzir uma grande matéria a partir de uma negativa). Claro que o repórter era integrante de uma estrutura — jornalística, jurídica, financeira, moral — que permitiu que pudesse levar adiante uma denúncia contra o presidente dos Estados Unidos.

Nixon foi eleito presidente em 1968 e reeleito (com 61% dos votos) em 1972, então sob denúncias do Caso Watergate.

Richard Nixon: o presidente pressionou o “Post” e acabou caindo | Foto: Reprodução

Lula da Silva ecoa posição de Richard Nixon

A corrupção no governo Lula da Silva alcançou repercussão com a denúncia de que um diretor dos Correios, indicado pelo PTB do deputado Roberto Jefferson, recebeu suborno de 3 mil reais. O vice de Nixon, Spiro Agnew, renunciou em 1973 porque recebeu suborno de 2.800 dólares. Sem defesa racional, quando apontada a questão do caixa 2 na campanha do PT, partido-santo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva saiu-se com uma explicação que ficaria mal até para um vereador de Garanhuns: todo mundo faz isto. Faz, mas todos dizem, sobretudo o PT, que não fazem, ou não faziam. Pego com a boca na botija, “Nixon”, segundo Peter Ripley, “limitou a dizer que essas práticas [espionagem e perseguição de adversários, uso irregular de fundos de campanha, suborno] eram comuns em outras administrações e que [John] Kennedy e [Lyndon) Johnson tinham feito coisa pior”. O PT de Lula da Silva, que é maior do que o PT de José Dirceu, faz a mesma coisa. Apanhado com a mão na massa, fazendo o que condenava nos outros, diz: “É preciso começar a investigação pelo governo de Fernando Henrique Cardoso”. Os petistas não dizem isto porque querem mesmo investigar o governo de FHC, e sim porque querem atrapalhar as investigações sobre o governo Lula. Nixon fez o mesmo. Mas, diferentemente de Nixon, Lula, sem o amparo do eminência parda José Dirceu, parece não ter nenhuma estratégia, pois o contato direto com as massas não é estratégia, mas produto do desespero, do abandono dos antigos aliados (José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares e Sílvio Pereira) que, digamos, eram as suas “massas dirigentes”. Em política pior do que ter uma estratégia ruim é não ter nenhuma estratégia. Outra tolice é acreditar que um “inimigo” pode-se tornar “amigo” de uma hora para outra devido aos nossos belos olhos. Poder só negocia com poder — e com altivez, ou, noutras palavras, medo (muitas vezes confundido com respeito). O poder raramente teme, mas só teme aquele por quem tem respeito, ou, repita-se, medo.

Katharine Graham, Carl Bernstein, Bob Woodward, Howard Simons e Ben Bradlee: eles derrubaram o presidente Richard Nixon | Foto: Reprodução

Em “O Homem Secreto” — um livro sobre Lula teria, talvez, o título de “O Político Invisível” (sim, porque a visibilidade ficava para José Dirceu, o homem que “governava” ou “operava”) —, Bob Woodward se propõe a contar como se iniciou a sua relação com Mark Felt, o Garganta Profunda, o diretor do FBI que, dizendo pouco, mas com precisão, ajudou-o a desmontar o governo de Nixon. Há pontos de incerteza, ou claros, mas Woodward, como repórter experimentado, nada adepto do novo jornalismo de Tom Wolfe e Gay Talese, não os preenche com interpretações racionalistas nem imaginativas. Ele tão-somente diz que não tem uma explicação definitiva sobre, por exemplo, as razões pelas quais Mark Felt, um homem do establishment, o ajudou com informações a respeito dos bastidores do mar de lama que cercava Nixon. Não se trata, pois, de um livro espetacular, talvez o seja para jornalistas e, sobretudo, estudantes de jornalismo, pois ensina-se, aqui e ali, a lidar com fontes. O jornalismo declaratório é um assassino de fontes. Porque, em geral, as melhores fontes só fazem revelações anonimamente. Daí que, e os repórteres nem sempre entendem isto, as fontes querem tão-somente sigilo da fonte, não da informação. Ninguém, mas ninguém mesmo, diz alguma coisa a jornalistas que não queira que seja divulgado. A fonte faz um mise-em-scène até para testar a inteligência do repórter. Mas quem guarda informação, na fé ingênua que está preservando um amigo, corre o risco de levantar-se no dia seguinte e descobrir que seu furo está publicado no jornal concorrente. A fonte? A mesma que, com mesuras, havia passado a informação e dito: “Guarde-a um pouquinho mais, pois depois darei todo o quadro pra você”. Ninguém, nem espiões, como Mark Felt, guarda informações. O que se precisa proteger, a todo custo, é a fonte. E é isto que Woodward fez durante 33 anos. Com o apoio de Ben Bradlee e do velho parceiro Carl Bernstein, ele havia jurado revelar a fonte seminal apenas após a sua morte. Mas, como foi furado por “Vanity Fair”, decidiu escrever um livrinho para contar os detalhes de sua relação, às vezes tempestuosa, com a fonte, uma fonte inteligente, muito bem informada.

O foca demolidor

A corrupção no governo Lula da Silva, que este tenta apresentar como uma corrupção exclusiva do PT, daí as punições a Delúbio Soares e Sílvio Pereira, parece um fato isolado. Mas certamente não é. Tanto que falam, já, em corrupção sistêmica. Como no caso Watergate, é provável que, se a investigação for mesmo a fundo, Lula não tenha como continuar presidente, pois, ao contrário até do que a imprensa às vezes “engole”, zagallamente, Delúbio não devastou o PT e o governo Lula. Com sua grana farta, o tesoureiro foi decisivo para eleger Lula e governadores e prefeitos do PT. Delúbio “levantou” Lula e o PT. O tesoureiro tem culpa no cartório, mas o fermento que o fez crescer foi dado pelo PT de José Dirceu, Lula e José Genoino. Woodward escreve, citando reportagem de 1972: “… a invasão no Watergate não era um fato isolado, mas ‘fazia parte de uma campanha maciça de espionagem política e sabotagem’ orquestrada pela Casa Branca e pelo Comitê de Reeleição do presidente Nixon”. Talvez seja o caso da comunhão PT-Lula.

A história americana é relativamente “simples”. No início de 1972, cinco homens, liderados pelo ex-agente da CIA James W. McCord, foram “presos na sede do Partido Democrata no edifício de escritórios Watergate”. Uma investigação rápida, sob pressão da imprensa, descobriu logo que eram financiados por E. Howard Hunt Jr., “antigo operador da CIA e consultor da Casa Branca, e G. Gordon Liddy, ex-agente do FBI”. John N. Mitchell, presidente do Comitê de Reeleição, era um dos líderes da “quadrilha” de Nixon.

Mark Felt, com sua filha Joan: o vice-diretor do FBI era um homem de coragem | Foto: Reprodução

Aí apareceu o Garganta Profunda e, sem fornecer “detalhes exatos”, sugeriu, nota Woodward, que “a invasão no Watergate não era um evento isolado, mas sim parte de um padrão abrangente de atividades ilegais visando a pessoas identificadas como inimigas de Nixon”. A invasão do Watergate não era, assim como os escândalos do governo Lula-PT-Marcos Valério, um fato isolado. Não era um “crimezinho”.

De qualquer modo, com Nixon reeleito, poderoso, tudo parecia em ordem. Não estava. “Felt era visivelmente ambicioso e queria ser nomeado diretor do FBI. Mas naquele mesmo mês, fevereiro de 1973, Nixon tinha nomeado” L. Patrick Gray III “diretor permanente”. Felt queria o posto que havia “pertencido” ao seu ídolo J. Edgar Hoover.

Irritado, Mark Felt bandeou-se de vez para o lado do “Post”. “Eles [integrantes do governo Nixon e seus aliados] estão ocultando coisas que serão reveladas e irão desacreditar a guerra contra os vazamentos. Eles não podem impedir a revelação da verdadeira história. É por isso que estão assim desesperados” (é o mesmo desespero do presidente Lula). Felt, diz Woodward, “falava com uma confiança incomum”.

Katharine Graham, a dona do “Washington Post”, e Ben Bradlee, o editor: os dois bancaram a publicação das reportagens sobre Watergate | Foto: Reprodução

Não se acha uma fonte como Mark “Garganta Profund” Felt de uma hora para a outra. Woodward conheceu Felt quando era tenente da Marinha, em 1969. Ele fora levar documentos à Casa Branca e, lá, sentou-se ao lado de Felt. Puxou conversa, falou de si (de seu futuro incerto) e o diretor assistente do FBI mantinha-se silencioso. Ao final, sem saber exatamente o porquê, Woodward pediu o telefone de Felt. Mais tarde, ainda não repórter, ligou para Felt e pediu conselhos sobre o futuro profissional. Felt sugeriu a Faculdade de Direito, mas ressalvou que, primeiro, era preciso descobrir o que seu coração dizia.

Em 1970, sem saber direito o que fazer, Woodward compareceu ao “Post” e pediu um emprego ao editor de Cidade, Harry Rosenfeld. Nem sabia o que era fonte. Mesmo assim, ganhou uma chance. Na primeira semana, com uma pauta na mão, não conseguiu levantar nada e, no dia seguinte, viu o “Times” furá-lo. Rosenfeld decidiu enviá-lo para um pequeno semanário, “The Montgomery County Sentinel”, dirigido por Roger Farquhar. Woodward foi contratado porque disse: “Quero tanto este emprego que posso sentir seu gosto”.

Em setembro de 1971, agora sabendo o que era fonte, Woodward foi contratado pelo “Post”. Seu salário era o menor. Mas ele decidiu trabalhar muito, para conquistar espaço.

Bob Woodward e Carl Bernstein: jovens e determinados | Foto: Reprodução

Em junho de 1972, Woodward tirou a sorte grande com a explosão do escândalo que ficou conhecido como Watergate. “Cinco homens vestindo ternos, com os bolsos repletos de notas de 100 dólares e carregando equipamentos de escuta e equipamento fotográfico, tinham sido presos perto das 2h30 da manhã dentro da sede nacional do Partido Democrata no edifício de escritórios Watergate.” O editor de Cidade enviou Woodward para o local.

Com o apoio do repórter Eugene Bachinski, Woodward descobriu que “as agendas de telefones de dois dos invasores continham o número de um certo E. Howard Hunt Jr. com as anotações ‘C. Branca’ e ‘C. B.’ em letras miúdas ao lado do nome dele”. Perdido, sem experiência, Woodward ligou para Felt, no FBI. Felt, irritado com a indiscrição, desligou o telefone “abruptamente”. O repórter continuou investigando e descobriu que Howard Hunt havia mesmo trabalhado para a CIA. Sem saber o que fazer, ligou mais uma vez para Felt: “O que tenho em mãos?” “Felt pareceu nervoso. Disse, em off — o que significava que eu não podia usar a informação —, que Hunt era o principal suspeito da invasão de Watergate por vários motivos além das agendas dos telefones”, conta Woodward. Nascia, então, a parceria Felt-Woodward.

Em agosto de 1972, o “Post”, que estava crescendo, publicou a primeira reportagem que associou “diretamente o dinheiro de campanha de Nixon com Watergate”. “O jeito meio evasivo de Felt me deixou nervoso e achei que ele estava a ponto de subir pelas paredes. Ele pareceu entusiasmado com a matéria que relacionava os invasores com o dinheiro da campanha de Nixon, mas também parecia um homem apavorado na minha presença. Chega de telefonemas, disse ele, chega de visitas a minha casa, nada mais será feito abertamente.”

Carl Bernstein, Ben Bradlee e Bob Woodward: já mais velhos | Foto: Reprodução

Adotaram técnicas de espionagem, nas quais Felt era mestre. Relata Woodward: “Se as cortinas de seu apartamento estiverem fechadas, abra-as e isso pode ser um sinal para mim, disse ele. Posso verificar todo dia ou conseguir que verifiquem, e se elas estiverem abertas poderemos nos encontrar à noite em um local predeterminado. (…) Sentindo-me sob pressão, eu disse que tinha uma bandeira de pano vermelho de menos de 10 centímetros quadrados — do tipo usada em caminhões de carroceria longa — que uma namorada encontrara na rua. Ela a colocara em um vaso de flores vazio na casa do meu apartamento. Felt e eu rapidamente concordamos que eu passaria o vaso com a bandeira, que normalmente ficava na frente, perto da grade, para os fundos da sacada se precisasse de um encontro urgente. Isso teria de ser importante e raro, disse ele, asperamente. O sinal, reforçou ele, significaria que nos encontraríamos naquela mesma noite por volta das duas da manhã, no primeiro piso de uma garagem de subsolo, logo depois da ponte Key, em Rosslyn, Virgínia. (…) Felt disse que, se houvesse alguma coisa importante, mandaria com meu ‘The New York Times’. Eu não sabia como. A página 20 seria assinalada com um círculo e os ponteiros de um relógio seriam desenhados na parte inferior da página para indicar a hora do encontro naquela noite, provavelmente duas da manhã, na mesma garagem de Rosslyn”.

Com um Woodward atordoado, Felt disse que o repórter deveria “usá-lo como apoio ou segunda fonte de informação e de conclusões coligidas em outro lugar. Ele podia me guiar para o certo, ou para uma linha frutífera de investigação”. Felt queria distância dos holofotes, ao contrário de alguns promotores de justiça do Brasil.

Katharine Graham, Carl Bernstein e Bob Woodward: a dona do “Post” nunca exigiu que os repórteres lhe dessem o nome da fonte | Foto: Reprodução

Uma prova da perceptiva colaboração de Felt está no fato de que, quando Hunt, Liddy e os cinco invasores de Watergate foram indiciados, Bernstein e Woodward decidiram publicar uma reportagem contando que gente mais caixa alta estava envolvida no uso do caixa 2 da campanha de Nixon para bancar atividades ilegais — o texto citaria que John Mitchell, homem de Nixon, estava envolvido —, o diretor do FBI sugeriu que pegassem mais “pesado”. Felt teria dito “Siga o dinheiro”, o que Woodward não confirma, mas admite que sugeriu, pelo menos. Com o apoio de Felt, que orientava os passos e criticava duramente os erros (os repórteres acreditaram, ao publicarem um erro, que seriam demitidos, mas foram bancados por Bradlee) do “Post”, Bernstein e Woodward puderam escrever: “Agentes do FBI determinaram que o incidente dos grampos em Watergate provém de uma campanha maciça de espionagem e sabotagem política realizada, em nome da reeleição do presidente Nixon, diretamente por funcionários da Casa Branca e do Comitê de Reeleição do presidente”.

Nixon, nas conversas privadas, dizia que ia liquidar o “Post”. Sem perceber que a imprensa, como o Legislativo e o Judiciário, é uma instituição que só pode ser destruída por ditaduras, mas, mesmo assim, ressurge, e às vezes mais forte. É um erro comum entre políticos que, mesmo inteligentes, como Nixon, têm pouco respeito pela história e se tornam cegos pelo poder e pela bajulação (sem entender que os que cercam o poder, o poderoso do momento, bajulam o poder, não a pessoa em si).

Em junho de 1973, Felt aposentou-se e Woodward acreditava que havia perdido a fonte privilegiada. Em novembro, Felt prova que, mesmo aposentado, estava bem informado. “Ele tinha um recado simples: uma ou mais fitas de Nixon continham trechos apagados deliberadamente.” O Post publicou a informação e os advogados de Nixon confirmaram a informação. O Garganta Profunda estava vivíssimo.

Homem decisivo e o “agente” de Felt

Woodward diz que “não havia tempo para perguntar a nossas fontes: por que vocês estão falando? Têm algum interesse pessoal?” E Felt? Eis a interpretação do repórter do “Post”: “O peso, a autenticidade e o comedimento de Felt eram mais importantes do que seu projeto, se é que ele tinha um”. Felt queria ser o número 1 do FBI, mas também, avalia o jornalista, queria proteger o FBI dos tentáculos (sujos) de Nixon. E Felt gostava do jogo. “Desconfio que, na cabeça de Felt, eu era agente dele.”

Mais tarde, Woodward perguntou a Felt se poderia citá-lo, pois ele estava aposentado, no livro sobre Watergate. “Ele explodiu. Absolutamente não. Eu era maluco para fazer um pedido desses?”, conta o repórter do “Post”.

As fitas com gravações de conversas de Nixon foram decisivas para a sua derrubada, porém “Felt”, escreve Woodward, “é a peça que completa as fitas gravadas de Nixon. Enquanto as fitas provam que Nixon regularmente ordenava ações criminosas e abuso do poder do governo, Mark Felt é importante menos por seu nome do que por sua posição na época, de nº 2 do FBI. O sistema de justiça foi tão poluído, corrompido e politizado por Nixon e seus homens que o FBI jamais poderia chegar ao fundo de Watergate. A lei e as regras tinham sido postas de lado e subvertidas. Mark Felt foi levado a expor o que estava acontecendo. Só podia fazer desse modo. Mas sem ele e, deve ser dito, sem inúmeras outras fontes confidenciais, promotores e o juiz Sirica, o Senado e a Casa Branca jamais teríamos chegado às fitas gravadas de Nixon. As fitas são a história interna de Watergate”.

Depois disto, Woodward aproximou-se de Felt, que já estava encanecido, praticamente sem memória. O repórter perguntou se o agente o havia ajudado porque ele “era um chato insistente”. “Isso mesmo”, disse Felt. Pode não ter sido por isso, mas um repórter insistente sempre, ou pelo menos em 90 por cento das vezes, consegue falar com as fontes. Em 2002, Woodward conversou com o filho de Felt, Mark Felt Jr., que lhe informou que o pai havia admitido que era o Garganta Profunda. Joan, filha de Felt, revelou a preocupação do pai: “Só falaria se vocês pudessem provar que o Garganta Profunda é um herói nacional. Senão vou negar tudo”.

Nas novas conversas com Felt, este com quase 90 anos, Woodward tentou extrair mais uma vez suas razões. Felt dizia não saber, não se lembrar de nada. “Fiquei decepcionado e com uma certa raiva de nós dois, por nunca ter extraído uma explicação mais precisa, uma declaração mais clara do raciocínio e da motivação dele”, diz Woodward.

A Justiça americana mandou quase 20 aliados de Nixon para a cadeia e o próprio presidente caiu. Watergate não terminou em pizza.

O leitor certamente notará que há, no livro de Woodward, um certo fastio, um ar de “estou cansado do assunto”. Mas o repórter prova que um homem, quando decide agir, pode mudar o rumo da história. As mudanças estruturais são produto da ação coletiva, mas o começo delas tem, muitas vezes, origem no movimento de um único indivíduo.

Nota

¹ Saiu uma nova edição pela Editora Três Estrelas, 424 páginas, com tradução de Denise Bottmann, em 2014. Há também o livro “A Vida do Garganta Profunda” (Record, 375 páginas, tradução de Bruno Casotti), de Mark Felt.

A origem do apelido Garganta Profunda

Mark Felt: o agente que queria substituir Hoover | Foto: Reprodução

Bob Woodward esclarece a razão de o “Washington Post” ter apelidado sua fonte de Garganta Profunda: “Howard Simons, o editor-chefe do ‘Post’, havia batizado a fonte de Garganta Profunda, nome de um filme pornográfico famoso, porque o teor das entrevistas era de ‘profundo sigilo’, o que em jornalismo significa que as informações podem ser usadas, mas nenhuma fonte pode ser identificada pelo veículo”.

Woodward revela que, durante as investigações, o governo de Richard Nixon chegou a descobrir a fonte, Mark Felt. E, o que é pior, o vazamento começou no “Post”, supostamente por intermédio de um jornalista amigo do poder — sim, há jornalistas que são mais amigos do poder do que veículo no qual trabalham.

Em 1972, Halderman informou que havia um vazamento no FBI. Nixon pergunta:

— Alguém próximo a Gray?

Haldeman explica:

— Mark Felt.

Se Nixon descobriu a fonte, por que não fez alguma coisa para destrui-la? Haldeman explica: “Se partirmos para cima dele, ele vai soltar tudo. Ele sabe tudo o que há para se saber no FBI. Ele tem acesso a absolutamente tudo”. Woodward não diz, porque está escrevendo obviamente para o público norte-americano, mas está implícito que a força não era apenas de Felt, mas também das instituições, no caso, o FBI, que não se subordinam ao presidente e, eventualmente, podem enfrentá-lo.

Felt, disse Haldeman, queria a chefia do FBI.

Nixon pergunta:

— Ele é católico.

Haldeman conta que Felt era judeu.

O presidente assusta-se:

— Jesus Cristo, colocar um judeu lá?

Nixon foi informado, com precisão, que Felt vazava informações para o “Post” e que a fonte de Haldeman trabalhava no jornal.

“Isso significava que nós do ‘Post’ tínhamos nosso próprio Garganta Profunda, alguém que estava vazando informação para o Departamento de Justiça e a Casa Branca sobre nossas fontes. Nunca descobrimos quem poderia estar fornecendo informações sobre o ‘Post’, mas aparentemente a Casa Branca quase concluiu que uma de nossas fontes era Felt”. A tradução certamente não é precisa, porque Nixon concluiu, sim, que a fonte era Felt, só que não podia fazer nada, a aceitarmos a versão do próprio Woodward. É mais apropriado dizer que Nixon talvez não acreditasse que o estrago fosse feito apenas por um homem, o que certamente era fato, pois as fontes que destruíram seu governo não estavam apenas no FBI.

Quem acertou a identidade da fonte

Além do presidente Richard Nixon, que ficou sabendo quem era o Garganta Profunda, mas não parece ter levado a sério a história, pelo menos num nível mais profundo, outras pessoas e jornais estiveram próximos de revelar o nome de Mark Felt.

Em junho de 1974, depois da publicação de “Todos os Homens do Presidente”, a revista “Washingtonian” publicou que Felt “era o mais provável candidato a Garganta Profunda”. No mesmo mês, “The Wall Street Journal” disse que Felt poderia ser a fonte do “Post”. Habilidoso, Felt sugeriu ao “Journal que achava que o Garganta Profunda era um ‘composto’”. E a tese de que o Garganta Profunda não era apenas um homem pegou.

Em 1976, Woodward foi surpreendido por Stanley Pottinger, funcionário do Departamento de Justiça, com a informação de que Felt era o Garganta Profunda. O repórter contestou. Pottinger disse ao jornalista que guardaria o segredo. E guardou.

Na década de 80, o colunista do “Post” Richard Cohen decidira escrever um artigo revelando que Felt era o Garganta Profunda. Foi dissuadido por Woodward, que, agora, admite que mentiu para o colega. Em 1999, “The Hartford Courant” publicou uma reportagem, baseada numa suposta informação de um filho de Bernstein, garantindo que Felt era mesmo o agente que ajudou o “Post”. Procurado pelo repórter David Daley, Felt disse: “Não, não sou eu. Eu teria feito melhor. Teria sido mais eficiente. Garganta profunda não derrubou exatamente a Casa Branca, certo?”

Alguns dos suspeitos de ser o Garganta Profunda: Fred Fielding, Alexander Haig, Laurence Lynn, Winston Lord e John Sears.

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