Euler de França Belém
Euler de França Belém

Livro revela que, além da linguagem inventiva, há rigor científico na literatura de Guimarães Rosa

Professor da Universidade Federal de Minas Gerais mostra como o autor de “Grande Sertão: Veredas” era meticuloso nas suas histórias

No texto “Cabo das tormentas”, do livro “Genealogia da Ferocidade — Ensaio sobre Grande Sertão: Veredas” (Cepe, 116 páginas), o crítico literário e escritor Silviano Santiago afirma que, quando foi lançado, em 1956, o romance pregou um susto nos leitores, inclusive nos críticos. A obra tinha pouco a ver com o que se havia publicado antes no Brasil — daí o choque, que acabou por levar ao desnorteamento até de um vanguardista como o poeta e crítico Ferreira Gullar, que o tachou de “uma história de cangaço contada para os linguistas”. O romancista Adonias Filho publicou um artigo sob o título de “Guimarães Rosa: um equívoco literário”. O portento mineiro não tinha defensores, ao menos não ardorosos, porque não integrava nenhuma escola. Havia inventado a sua, e portanto não tinha discípulos, nem como leitores.

Sessenta e quatro anos depois, o “monstro” (e os “monstrinhos”, como os contos — às vezes “romances-novelais”, quiçá), lido e explicado por críticos categorizados, como Antonio Candido, Paulo Rónai, Walnice Nogueira Galvão, Heloísa Vilhena de Araújo, Mary D. Daniel, Kathrin Rosenfield, Francis Utéza, Benedito Nunes, Luiz Roncari, Willi Bolle, Silviano Santiago (“equivoca-se quem entra no romance esperando que menos é mais” — referência ao romance-filho único, “Grande Sertão: Veredas”), entre tantos outros, é mais bem compreendido. Uma crítica literária refinada e de amplo espectro contribuiu, assim como os próprios contos e o romance, para “inventar” os leitores de João Guimarães Rosa (1908-1967 — viveu 59 anos). Minas de ouro, diamante e prata esgotam-se. Já a obra de Guimarães Rosa, mineiro de Cordisburgo, é inesgotável. Os especialistas, os “rosianos”, terão muito trabalho pela frente, e quanto mais cavam, lá nas profundezas, mais retiram ouro, dos mais puros.

Como não é crítico literário, o médico Eugênio Marcos Andrade Goulart decidiu seguir outro percurso, no livro “O Viés Médico na Literatura de Guimarães Rosa” (Faculdade de Medicina da UFMG, 127 páginas). O professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais mostra, de maneira meticulosa, que a formação de Guimarães Rosa como médico, e praticamente um pesquisador, aparece nos seus poemas, contos e romance. O mestre assinala que o escritor é tão rigoroso quanto inventivo.

Guimarães Rosa trabalhou como médico, no interior de Minas Gerais, nas cidades de Itaguara e Barbacena, mas logo deixou a profissão. Mas a Medicina, postula Eugênio Andrade, “jamais se separou dele. Ficou entremeada em seus textos. O médico Rosa sobreviveu na obra do escritor Rosa”.

Quando ainda era estudante, um colega morreu, vítima da febre amarela, e Guimarães Rosa, na época ainda João Rosa, disse a frase famosa: “As pessoas não morrem, ficam encantadas”.

Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas”, Diadorim e Riobaldo | Foto: Reprodução

Em Itaguara, onde ficou até 1932, o doutor João Rosa “receitava elatério, chamado também de pepino-do-diabo, pelo seu efeito laxativo, e ruibarbo, de propriedades digestivas”. Na falta de medicamentos de laboratórios, firmou uma parceria com raizeiros e os ouvia com atenção. Um de seus interlocutores era o curandeiro Manoel Rodrigues de Carvalho. Seu Nequinha, como era conhecido, chegou a atuar como uma espécie de enfermeiro improvisado do médico. “Pudesse eu ter sempre à mão um auxiliar assim”, admite o homem de ciência.

No sertão do bom Deus, o dr. João Rosa viajava quilômetros a cavalo para atender seus pacientes. Não ganhava dinheiro, mas recolhia histórias — estórias — de todos com os quais conversava. Apreciava uma boa prosa, mais ouvindo do que falando. Depois, anotava tudo nos seus cadernos e armazenava muita coisa na memória, que era prodigiosa.

Em 1932, torna-se médico voluntário da Força Pública de Belo Horizonte. Durante a batalha da Revolução Constitucionalista — São Paulo se rebelara contra o governo do presidente Getúlio Vargas —, não esteve na linha de frente. Eugênio Andrade corrige determinados autores: “Ficou aquartelado em Viçosa, aguardando o momento de seguir para uma sangrenta guerra entre irmãos brasileiros, o que felizmente, para ele, não aconteceu”.

No ano seguinte, o dr. João Rosa passou a trabalhar no 9º Batalhão de Infantaria, em Barbacena. Neste município, escreveu alguns poemas do livro “Magma”. Decidiu estudar alemão, russo e japonês e prestou concurso para o Itamaraty, tendo sido aprovado, em segundo lugar, em 1934.

O diplomata estava decidido a se tornar escritor e, em 1937, escreveu várias “estórias” e nominou-as de “Contos”, depois de “Sezão” e, mais tarde, de “Sagarana”. Escrevia a lápis, “deitado em uma cama”.

Em 1938, num concurso da Livraria José Olympio, ficou em segundo lugar. O esquecido Luiz Jardim, com o livro “Maria Perigosa”, foi o primeiro colocado. Graciliano Ramos seguiu os demais jurados e não premiou Guimarães Rosa, mas, atento, percebeu que “Viator”, como o mineiro havia se identificado, tinha talento (em seguida, o autor foi para Hamburgo, na Alemanha, como cônsul). “Sagarana” saiu em 1946, inteiramente reescrito.

Hanseníase

Eugênio Andrade rastreia quais doenças aparecem na literatura de Guimarães Rosa e como, entre o popular e o científico, com as duas linguagens irmanando-se, o autor é rigoroso.

A hanseníase (deriva do nome do médico norueguês Armauer Hansen) é a primeira a ser mencionada. “Magma”, livro de poesia escrito na década de 1930 e publicado só em 1997, contém o poema “Reportagem”, que, segundo Eugênio Andrade, “se refere ao Leprosário Colônia Santa Izabel, no município de Betim, a 40 quilômetros de Belo Horizonte”.

Eis o poema:

Reportagem

“O trem estancou, na manhã fria,

num lugar deserto, sem casa de estação:

a parada do Leprosário…

 

Um homem saltou, sem despedidas,

deixou o baú à beira da linha,

e foi andando. Ninguém lhe acenou…

 

Todos os passageiros olharam ao redor,

com medo de que o homem que saltara

tivesse viajado ao lado deles…

 

Gravado no dorso do bauzinho humilde,

não havia nome ou etiqueta de hotel:

só uma estampa de Nossa Senhora de Perpétuo

Socorro…

 

O trem se pôs em marcha apressada,

e no apito rouco da locomotiva

gritava o impudor de uma nota de alívio…

 

Eu quis chamar o homem, para lhe dar um sorriso,

mas ele ia já longe, sem se voltar nunca,

como quem não tem frente, como quem só tem

costas…

Quando médico, Guimarães Rosa não podia fazer nada de efetivo para curar quem tinha hanseníase. Ainda não havia medicamento apropriado. “O isolamento do enfermo era a principal medida a ser tomada”, pontua Eugênio Andrade. Dizia-se que não se devia nomear a doença diretamente. “No livro ‘Sagarana’ há uma referência a essa prática, no conto ‘São Marcos’: ‘Nem dizer lepra, só o ‘mal’”. O conto “Corpo Fechado”, também desta obra, registra: “Camilo Matias acabou com o mal-de-lázaro”.

O conto “Cara-de-bronze”, do livro “No Urubuquaquá, no Pinhém”, faz uma menção direta: “O fazendeiro patrão não saía do quarto, nem recebia os visitantes, porque tinha uma erupção, umas feridas feias brotadas no rosto. Seria lepra? Lepra, mal-de-lázaro, deveria de ser, encontrar-se um rico fazendeiro nesse estado não era raridade. Lamentava-se, a doença. O ar ali, era triste, guardado pesado”.

Sô Candelário, o jagunço chefe de Riobaldo, tinha receio de ter ou adquirir hanseníase. Riobaldo relata, na opus magna “Grande Sertão: Veredas”: “Digo ao senhor: ele tinha medo de estar com o mal-de-lázaro. Pai dele tinha adoecido disso, e os irmãos dele também, depois e depois, os que eram mais velhos. Lepra — mais não se diz: aí é que o homem lambe a maldição de castigo. Castigo, de quê? Disso é que decerto sucedia um ódio em Sô Candelário. Vivia em fogo de ideia. Lepra demora tempos, retardada no corpo, de repente é que se brota; em qualquer hora, aquilo podia variar de aparecer. Sô Candelário tinha um sestro: não esbarrava de arregaçar a camisa, espiar seus braços, a ponta do cotovelo, coçava a pele, de em sangue se arranhar. E carregava espelhinho na algibeira, nele furtava sempre uma olhada. Danado de tudo. A gente sabia que ele tomava certos remédios — acordava com o propor da aurora, o primeiro, bebia a triaga e saía para lavar o corpo, em poço, para a beira do córrego. (…) As favas fora, ele perseguia o morrer, por conta futura da lepra; e, no mesmo tempo, do mesmo jeito, forcejava por se sarar. Sendo que queria morrer, só dava resultado que mandava mortes, e matava. Doido, era? Quem não é, mesmo eu ou o senhor? Mas, aquele homem, eu estimava. Porque, ao menos, ele, possuía o sabido motivo”.

O texto acima é, na avaliação de Eugênio Andrade, “uma verdadeira aula sobre hanseníase”. “O médico Guimarães Rosa sabia que o contágio efetivo, por exigir contatos múltiplos, é geralmente intrafamiliar, que as crianças são mais suscetíveis que os adultos, que a demora em manifestar os sintomas e sinais é outra característica da hanseníase, que uma das manifestações mais frequentes é o aparecimento de manchas hipocrômicas no corpo, e que essas lesões determinavam a perda da sensibilidade da pele no local”. A “triaga”, ou “teriaga”, era uma mistura de dezenas de componentes.

O conto “Substância”, do livro “Primeiras Estórias”, relata: “O pai, razoável bom-homem, delatado com a lepra, e prosseguido, decerto para sempre, para um lazareto”. “As leis brasileiras de então impunham a ‘captura’ dos hansenianos e a internação compulsória”, historia Eugênio Andrade. Lazareto era o leprosário.

Malária

A malária (também conhecida como maleita, sezão), transmitida pelo mosquito Anopheles, dá as caras na poesia e na prosa de Guimarães Rosa.

No poema “Maleita”, dois compadres, febris, dialogam:

— “Que frio!… que fri-í-io!…

Que mosquitada brava!…

Estou com a sezão dos três dias…

Ei, Compadre, vamos quentar sol naquela pedra?”

— “Volta pra casa, Compadre, deixa de bater queixo,

vai cortar a febre

com cachaça com limão…”

— “Você também está tremendo?!…

Que frio! Tudo treme!…

Olha os pernilongos

Zunindo nos meus ouvidos!…

Olha o quinino zunindo

dentro dos meus ouvidos!…

Que frio!”

O poema (publica-se um trecho) é de 1933. Eugênio Andrade nota que Guimarães Rosa percebeu o “efeito colateral do quinino, que eram os zumbidos”.

O tema do conto “Sarapalha”, de “Sagarana”, é a malária. “Várias informações sobre a doença são apresentadas de forma bastante original: ‘O mosquito fêmea não ferroa de-dia; está dormindo com a tromba repleta de maldades.” Eugênio Andrade nota que, inicialmente, Guimarães Rosa escreveu “tromba repleta de esporozoítos”. “Esse exemplo mostra seu cuidado em tornar o livro de leitura mais fácil para o leigo”, postula o médico. Talvez, como narrador, estivesse pensando mais na história e no ambiente do que em facilitar a vida do leitor.

Um personagem de “Sarapalha”, anota Guimarães Rosa, “tem no baço duas colmeias de bichinhos maldosos, que não se misturam, saltando enxames no sangue em dias alternados. E assim nunca precisa de passar um dia sem tremer”. Eugênio Andrade frisa que o escritor acerta a mão: o aumento do baço, “ou seja, a esplenomegalia, faz parte do quadro clínico da malária”.

Eugênio Andrade conta que, “há séculos, a doença era considerada como proveniente de ‘maus ares’, binômio que deu origem ao nome malária”.

“Grande Sertão: Veredas” — cujo história se passa “por volta do início dos anos de 1900” — também é pródigo em citação à malária: “Mas o que eu falo por causa da maleita, da pior: febre, ali no oco, é coisa, é grossa, mesma. Terçã maligna, pega o senhor; a terçã brava, que pode matar perfeito o senhor, antes do prazo de uma semana”. Eugênio Andrade frisa que “a terçã maligna é provocada pelo Plasmodium falciparum e de fato apresenta maior gravidade. (…) Os médicos ainda a chamam de malária maligna”.

Guimarães Rosa e Vaqueiros em 1952 | Foto: Eugênio Silva/O Cruzeiro

Tuberculose

A tuberculose, causada pelo Mycobacterium tuberculosis, ou bacilo de Kock, também é “personagem” das histórias de Guimarães Rosa.

“Guimarães Rosa viveu numa época em que o tratamento consistia apenas em repouso, alimentação reforçada, resguardo contra vento pelas costas e ares de montanha. O tratamento específico começou a partir da década de 1940, com o emprego da estreptomicina, um dos primeiros antibióticos utilizados em seres humanos”, escreve Eugênio Andrade.

O conto “Corpo fechado”, de “Sagarana, menciona um pangaré “héctico”, isto é, tuberculoso.

O menino Miguilim, no conto “Campo geral, do livro “Manuelzão e Miguilim”, teme a tuberculose. Pergunta para a cozinheira Rosa: “Rosa, que coisa é a gente ficar héctico”? A cozinheira responde: “Menino, fala nisso não. Héctico é tísico, essas doenças, derrói no bofe, pessoa vai minguando magra, não esbarra de tossir, chega cospe sangue”. O garoto “deserteia para a tulha, atontava”. Eugênio Andrade aponta o acerto da narrativa do escritor: “Quando não havia tratamento, a infecção provocava cavernas pulmonares, por isso o emprego da expressão ‘derrói no bofe’”.

O conto “Buriti” e “Grande Sertão: Veredas” também versam sobre a tuberculose. No romance, um jagunço ligado a Riobaldo “tosse” como “um garrote entisicado”. Guimarães Rosa está certo, sugere Eugênio Andrade. “A tuberculose não é uma doença exclusiva dos seres humanos, que, aliás, adquiriram a infecção de auroques domesticados há cerca de 10 mil anos. Os auroques eram os ancestrais do nosso gado de corte e de leite, que pastavam pelas pradarias da Europa e da Ásia.”

Guimarães Rosa “tangendo” gado, no sertão | Foto: Reprodução

Varíola

Altamente contagiosa, a doença virótica varíola é outra “personagem” das histórias de Guimarães Rosa. “Assim como a tuberculose, a varíola foi adquirida a partir de um vírus que acometia o auroque domesticado. (…) A primeira vacina aplicada cientificamente em seres humanos foi a da varíola, desenvolvida em 1796 pelo médico inglês Edward Jenner. (…) A palavra ‘vacina’ tem origem no vocábulo ‘vacca’, uma referência às vacas acometidas pela varíola que haviam sido estudadas por Jenner”, informa Eugênio Andrade.

Atento às doenças do sertão, Guimarães Rosa, no conto “Minha gente”, de “Sagarana”, faz referência à gravidade da varíola, “chamando a atenção para a febre intermitente, para a necessidade de isolamento do doente para evitar o contágio, para a imunidade adquirida por pacientes que sobreviveram à doença e ainda para a falsa sensação de melhora no período que antecede a morte”.

Na vila Sucruiú, os jagunços encontram pessoas doentes. Há uma epidemia de varíola — “peste de bexiga preta” — e catrumanos (moradores de locais isolados) tentam impedir que estranhos se aproximem ou saiam do local. O chefe jagunço Zé Bebelo decidiu ir assim mesmo ao local. Lá, segundo Riobaldo, as pessoas “sofriam a esperança de não morrer. (…) Aquele travessia durante só um instantezinho enorme”.

No conto “Rebimba o bom”, do livro “Tutameia” (“Terceiras Estórias”), Guimarães Rosa descreve, de maneira cuidadosa, as consequências da varíola.

Ofidismo

“Ofidismo, ou acidente ofídico, é a inoculação de veneno por cobras peçonhentas em seres humanos”, assinala Eugênio Andrade. Havia soro antiofídico no início dos anos 1900. Mas a distribuição era precária e a população ainda tinha receio em relação ao seu uso

Guimarães Rosa começa a falar de picada de cobra no poema “Boiada”. Uma urutu picou um jovem camponês e ele morreu. O conto “O burrinho pedrês”, de “Sagarana”, registra que uma jararacuçu mordeu o animal, que “não morreu porque a lua era boa e o benzedor acudiu pronto”.

O conto “São Marcos”, de “Sagarana”, conta a história de moço “moderno”, “de fora”, que se mostra arrogante com os homens do “fim do mundo”. Mas, quando se tratava de mordida de cobra, tinha preocupações místicas. Eugênio Andrade diz que Guimarães Rosa está certo quando nota que “as cobras peçonhentas geralmente têm a cauda em ‘ponta de lápis’, ao contrário das não venenosas, que apresentam o final do corpo afunilado de forma gradativa”.

No “Grande Sertão: Veredas”, uma jararaca morde e mata um jagunço, o Gregorinho. No conto “Bicho mau”, de “Estas Estórias”, uma cascavel (boicininga) pica o fazendeiro Seo Quinquim. “Vários detalhes são descritos com precisão científica, inclusive as ‘escamas carenadas’, ‘a ausência de pálpebras’, o chocalho, ‘qual o sacolejar de feijões numa vagem seca’ e a desarticulação da mandíbula no momento do bote”, afirma Eugênio Andrade.

Carta do escritor e diplomata João Guimarães Rosa para Antônio Azeredo da Silveira, o Silverinha | Foto: Jornal Opção

“Doenças” ditas “psiquiátricas”

Eugênio Andrade começa o capítulo em que trata das “doenças psiquiátricas” citando Riobaldo: “Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso da loucura”.

No conto “São Marcos, um jovem “debica” de João Mangolô, um feiticeiro. Em decorrência de uma feitiçaria, o moço “alucina”.

No conto “Corpo fechado”, um personagem furioso é apontado como “neurastênico”.

No conto “O recado do morro”, de “No Urubuquaquá, no Pinhém”, conta-se a história de Gorgulho, “que tenta explicar as demais o que o morro insistentemente lhe dizia, mas sua fala somente era compreensível a si próprio”. O personagem Nominedômine, do mesmo conto, também tem “problemas psiquiátricos”. Pregoeiro do apocalipse, ele diz: “… veio um anjo mandado, um anjo papudo e idiota — mais do que assim eu não mereci… Ele mesmo me confirmou e me disse do aspecto do fim grave. Me escutem!”

O conto “Buriti”, de “Noites do Sertão”, descreve “um caso típico de paranoia”. O personagem, Chefe Zequiel, “apresenta um quadro de delírio crônico”. “O Chefe Ezequiel, ele pode dizer, sem errar, qual é qualquer ruído da noite, mesmo o mais tênue. — ‘É bem. Ele há-de estar ouvindo, está lá no moinho, deitado mas acordado, a noite inteira, coitado, sofre de um pavor, não tem repouso. Quem sabe, na cidade, algum doutor não achava um remédio para ele, um calmante?’” O “inimigo” — tão imaginário quanto real — estava sempre à espreita.

Riobaldo Tatarana conta que “uma moça, no Barreiro-Novo, essa desistiu um dia de comer e só bebendo por dia três gotas de água de pia benta, em redor começaram milagres. Mas o delegado-regional chegou, trouxe os praças, determinou o desbando do povo, baldearam a moça para o hospício dos doidos, na capital, diz-se que lá ela foi cativa de comer, por armagem de sonda. Tinham o direito?” Nota-se um Guimarães Rosa como precursor da antipsiquiatria? É provável.

Riobaldo, um grande doutor do sertão, “diagnostica” um caso de paranoia: “Assim a eles eu disse. Tanto enquanto riam, apreciando me ouvir, eu contei a estória de um rapaz enlouquecido devagar, nos Aiáis, não longezinho da Vereda-da-Aldeia: o qual não queria adormecer, por um súbito medo que nele deu, de que alguma noite pudesse não saber mais como se acordar outra vez, e no inteiro de seu sono restasse preso”.

Riobaldo era Guimarães Rosa? Era e não era. Às vezes, era. Às vezes, não era. Personagens são, no geral, compósitos. Eugênio Andrade tende a “fundir” personagem e criador — cuja voz nem sempre é a mesma do narrador. Riobaldo comenta, falando de si, e o médico acredita que se trata de um registro íntimo de Guimarães Rosa: “Pior não estive; mas, eu, de mim, sei. Todos, de em antes, me davam por normal, conforme eu era, e agora, instantantemente, de dia em dia eu ia ficando demudado. Com uma raiva, espalhava em tudo, frouxa nervosia. — “É do fígado…” — me diziam. Dormia pouco, com esforços”.

O conto “Soroco, sua mãe, sua filha”, de “Primeiras Estórias”, é, afirma Eugênio Andrade, “todo dedicado a transtornos psiquiátricos”. Em Minas Gerais, na cidade de Barbacena, havia um hospício no qual as pessoas eram internadas e por lá ficavam para sempre, esperando a morte chegar, com a boca escancarada, em geral sem dentes. A jornalista e escritora Daniela Arbex contou a história do “depósito de gente” de Barbacena no livro “Holocausto Brasileiro — Genocídio: 60 Mil Mortos no Maior Hospício do Brasil” (Intrínseca, 280 páginas). Guimarães Rosa antecipou-a, não com tantos detalhes, mas com uma sofrida prosa poética. “Para onde ia, nos levar as mulheres, era para um lugar chamado Barbacena, longe. Para o pobre, os lugares são mais longe. […] A filha — a moça — tinha pegado a cantar, levantando os braços, a cantiga não vigorava certa, nem no tom, nem no se-dizer das palavras — o nenhum. A moça punha os olhos no alto, que nem os santos e os espantados, vinha enfeitada de disparates, num aspecto de admiração”.

No “Grandes Sertão: Veredas”, Riobaldo diz: “Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo”. Depressão, por certo. Melancolia, talvez.

No ensaio “Bichos, plantas e malucos no sertão rosiano”, inserto no livro “A Rosa o Que É de Rosa — Literatura e Filosofia em Guimarães Rosa” (Difel, 320 páginas), o filósofo e crítico literário Benedito Nunes assinala que, quando Diadorim esfaqueia Hermógenes e é esfaqueado pelo terrível jagunço, e há uma revelação, Diadorim não é homem, é mulher — Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins —, “a loucura aí é de todos”.

Seu Quelemém de Góis, conselheiro espiritual de Riobaldo, filosofa, por assim dizer: “Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que que é a salvação-da-alma”.

No conto “A terceira margem do rio”, de “Primeiras Estórias”, Guimarães Rosa relata a história do homem que pega uma canoa e fica no meio do rio, não voltando mais para sua casa. “Nosso pai não voltou. Ele nem tinha ido a nenhuma parte. […] Aquilo que não havia, acontecia”, tenta explicar um filho.

Benedito Nunes afirma que “A terceira margem do Rio”, um dos mais importantes contos da literatura patropi, “focaliza a loucura como paradoxo: o da razão ou racionalidade absoluta de uma decisão irrevogável, por absurdo, uma ilustração daquela tese de Chersterton, em ‘Ortodoxia’, de que a razão total equivale à total loucura”. A terceira margem, ressalta o filósofo, é a canoa. “Outro aspecto importante dessa estória rosiana é ligar à loucura a morte, ligando o rio, a velhíssima imagem de fluxo da vida, à loucura”, frisa Benedito Nunes.

Miguilim e o tétano do irmão Dito

O livro de Eugênio Andrade contém várias outras histórias de doenças, que não serão relatadas. Conto mais uma, a da morte de Expedito, o Dito — irmão de Miguilim —, que, tendo cortado um pé, morreu de tétano. Trecho da “estória”: “Meu-deus-do-céu, e o Dito já estava mesmo quase bom, só que tornou outra vez a endefluxar. (…) e Miguilim desongolia da garganta um desespero. — ‘Chora não, Miguilim, de quem eu gosto mais, junto com Mãe, é de você…’”. (Endefluxar significa estado febril.) Dito acrescenta: “Miguilim, Miguilim, vou ensinar o que agorinha eu sei, demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo. A gente deve de poder ficar então mais alegre, mais alegre, por dentro!…”.

Guimarães Rosa com o fardão da Academia Brasileira de Letras: morreu ao se tornar imortal | Foto: Reprodução

Eugênio Andrade mostra, sobretudo, que o rigor de Guimarães Rosa não era apenas com a linguagem literária, com a riqueza linguística de suas histórias. Ele era igualmente meticuloso com as questões médicas, enfim, com a ciência — era, também, um notável naturalista, ainda que amador. Goethe o teria inspirado?

Como ninguém é perfeito, nem o Jesus Cristo da literatura brasileira, Guimarães Rosa também errou algumas vezes. “No conto ‘Corpo fechado’, Rosa” se equivoca “ao falar em ‘gálico herdado’”. “A sífilis pode ser transmitida pela mãe infectada para o feto, que apresentará então sífilis congênita, com acometimento generalizado do organismo. Esse quadro recebeu inicialmente o nome de sífilis hereditária, o que é um erro histórico, pois não se trata de uma alteração genética, e sim de uma infecção intrauterina”, explica Eugênio Andrade.

“Outro engano relacionado a doenças foi cometido por Guimarães Rosa, ao vincular o papo (bócio) com o barbeiro, o inseto transmissor da doença de Chagas. O barbeiro não é o causador do bócio, como se acreditou por muito tempo”, corrige Eugênio Andrade.

No conto “Duelo”, de “Sagarana”, na descrição do personagem Turíbio Todo, Guimarães Rosa narra: “… ninguém nasceu papudo nem arranja papo por gosto: ele resulta das tentativas que o grande percevejo da mata faz para se tornar um animal doméstico nas cafuas de beira-rio, onde há, também, cúmplices, camaradas do barbeiro, cinco espécies, mais ou menos, de tatus”. Eugênio Andrade esclarece: “A doença de Chagas é uma doença infecciosa causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, sendo transmitida pelo triatoma, um percevejo popularmente conhecido como barbeiro. Já o bócio é uma doença carencial determinada pela falta de iodo”. O médico estranha o fato de Guimarães Rosa não ter se amparado nas pesquisas do médico mineiro Carlos Chagas.

Igualmente rigoroso, Eugênio Andrade comete ao menos um pecadilho: “Segundo depoimento do escritor espanhol Emir Rodriguez Monegal” (1921-1985). O notável crítico literário e ensaísta “Rodríguez”, com acento agudo no “i”, é uruguaio (Silviano Santiago diz: “crítico uruguaio/brasileiro”). Ele foi professor da Universidade Yale, nos Estados Unidos.

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