A série argentina “O Eternauta”, com o ator Ricardo Darin, obteve sucesso global, inclusive no Brasil. Foi produzida pela Netflix.

Baseada numa história em quadrinhos de Héctor Germán Oesterheld (1919-1977), a série se tornou febre no país de Jorge Luis Borges e Silvina Ocampo. Estive em Buenos Aires em 2025 e vi a publicidade maciça feita em pontos centrais da capital portenha. As pessoas falavam com prazer e orgulho de sua qualidade.

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O livro conta a história do criador literário e sua participação política (ele e quatro filhas foram assassinados pela ditadura) | Foto: Jornal Opção

As historietas de Héctor Oesterheld eram sofisticadas, pois seu autor era erudito. Ele e suas quatro filhas foram assassinados pela ditadura militar (1976-1983). Eram guerrilheiros do movimento Montoneros.

A história da liquidação de toda uma família (só escapou a mulher de Héctor, Elsa) está muito bem documentada no livro “Los Oesterheld” (Sudamericana, 411 páginas), das jornalistas e pesquisadoras Fernanda Nicolini e Alicia Beltrami.

Na página 49, Fernanda Nicolini e Alicia Beltrami dizem: “Todos estavam fascinados com ele, até Borges. Héctor visitava Borges na Biblioteca Nacional [de Buenos Aires], quando era diretor. Héctor era fanático por ele e Borges era encantado com ficção científica”.

Jorge Luis Borges: maior escritor argentino: ligações fortes com Héctor Oesterheld | Foto: Reprodução

As pesquisadoras dizem não saber se Borges leu “O Eternauta”. “Mas Héctor lhe contava a história e dizia que era uma novela [romance] de ficção científica.” Borges encantava-se com o fato de que estavam escrevendo ficção científica em Buenos Aires. “Lamentavelmente, ‘El Eternauta’ começou a ser publicada numa revistinha que custava uns poucos centavos.”

Na edição de 8 de abril, a excelente revista “Ñ”, do jornal argentino “Clarín” (eu e minha mulher, Candice Marques de Lima, somos assinantes), publicou a reportagem “A conexão oculta entre Borges e ‘O Eternauta’ revelada em um novo livro”, assinada por Gisela Daus.

Elsa, Héctor Germán Oesterheld e as quatro filhas: o escritor e as garotas, montoneros, foram assassinados pela ditadura militar da Argentina, na segunda metade da década de 1970 | Foto: Reprodução

Borges e Héctor: parceiros literários

Doutor pela Universidade de Barcelona, mestre pelo MIT, mestre pela Universidade de North Texas e pós-graduado em Harvard, Martín Hadis é expert na obra de Borges. Publicou sete livros sobre a obra do maior escritor argentino.

No livro “Borges y el Eternauta” (Editorial Claridad, 336 páginas), Martín Hadis revela que Borges e Héctor “eram amigos e compartilhavam projetos literários”.

A historieta “‘El Eternauta’, afirma Hadis, é o romance que Borges nunca escreveu e merece ser considerada como obra de alta literatura”.

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Martín Hadis autografa seu livro sobre Borges e Oesterdeld | Foto: Soledad Amarilla

De acordo com Martín Hadis, as fontes de Héctor “extrapolam a historieta [história em quadrinhos] e a ficção científica”.

Héctor “inspirou-se em relatos da antiga Grécia, do Japão medieval e, sobretudo, em textos de Borges”.

Uma das descobertas de Martín Hadis é que, se Borges influenciou Héctor, este influenciou o autor de “O Aleph”. Contos de Borges nutriram os quadrinhos de Héctor. E “vários contos de Borges têm conexões notáveis com a obra mais importante de H. G. Oesterheld”.

Martín Hadis assinala que Héctor foi “professor de roteiro” de Borges. Ele “colaborou com Borges na redação do libreto do filme ‘Invasión’, dirigido por Hugo Santiago. Bioy Casares participou da elaboração do argumento”.

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Borgesnauta, por assim dizer, Martín Hadis descobriu que “Oesterheld e Borges eram familiares [parentes], embora não soubessem disso. Seus ancestrais remontavam a um passado conjunto em San Nicolás de Arroyos”.

No lançamento do livro, o editor de Cultura do “Clarín”, Héctor Pavón, entrevistou Martín Hadis. O pesquisador “explicou o significado do canto que os ‘Manos’, personagens extraterrestres de ‘O Eternauta’, entoavam ao morrer: ‘Mimnio Athesa Eioioio’”.

A repórter Gisela Daus diz que as palavras do canto “não haviam decifradas até agora, transcorridos quase 70 anos desde que o inventou Oesterheld, mas Hadis conseguiu interpretá-lo”.

Martín Hadis, frisa o “Clarín”, “descreveu que a tradução, analisada em seu livro, é uma evocação cósmica pela qual os ‘Manos’ tratam de seu regresso às estrelas e ao seu próprio planeta no momento de morrer”.

Martin Hadis capa de Borges y El Ternauta

O livro inova também ao explicar as referências gregas em “O Eternauta”. A “Odisseia”, de Homero, é referenciada na história.

Sabia-se que Oesterheld e Borges conversavam, como mencionam as autoras de “Os Oesterheld”. Mas Martín Hadis descobriu que eram “grandes amigos”.

Elsa Oesterheld disse que marido “teve uma vida muito solitária, mas se encontrava muito com Borges, que era fanático por ficção científica. Eles falavam muito do tema. Héctor foi meio que seu lazarillo [guia]. Se conheceram quando Borges dirigia a Biblioteca Nacional”.

Héctor era tão erudito quanto Borges

Héctor usou a mitologia em sua obra. Tanto que Martín Hadis planeja escrever um livro a respeito. “Era um grande erudito , quase à altura de Borges. Sua biblioteca, que continha livros selecionados, era digna de um filósofo ou de um professor universitário”.

Eternauta cartaz da série 500

(Martín Hadis é um expert no assunto, mas é preciso ressaltar que, se Héctor não é pequeno, Borges é muito maior, tanto que reverbera mais, por todo o mundo. Há uma tendência a tratar indivíduos que nos cativam como mais relevantes do que realmente não. Porém, não sei se é o caso. Me parece que é.)

Quando estava pesquisando sobre o relacionamento entre Borges e Héctor, Martín Hadis diz ter pensado: “E se O Eternauta [Héctor] influenciou Borges?”.

Martín Hadis decidiu consultar alguns contos escritos por Borges no período em que mantinha contato com Héctor. “Descobri que vários indicam uma clara influência de O Eternauta.” Os contos são “El Otro”, “Ulrica” e “Utopia de um hombre que está cansado”. O pesquisador diz que há outros relatos influenciados pelo autor de histórias em quadrinhos.

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Gisela Daus: autora da resenha no “Clarín” | Foto: Facebook

Para escrever suas histórias, Borges e Héctor se inspiraram nos livros de H. P. Lovecraft, H. G. Wells e Robert Louis Stevenson. Um americano, um inglês e um escocês.

A historieta é ou era um “vício” dos argentinos — tanto que Héctor obteve imenso sucesso com seus quadrinhos (vivia deles, ainda que de maneira relativamente precária). Mas tentaram e tentam reduzir a força, digamos, literária das histórias. Seria uma atividade (gênero) “menor”.

Polêmico e crítico, o historietista Héctor discordava de determinadas avaliações: “Com qual critério definimos o maior e o menor? Para mim, objetivamente, gênero maior é quando se tem uma maior quantidade de leitores. E eu tenho mais leitores do que Borges. De longe”.

Gisela Daus postula que o livro de Martín Hadis apresenta “descobertas tão assombrosas quanto transcendentes”.

Martín Hadis sublinha que há profundidade tanto filosófica quanto mítica em “O Eternauta” (a principal obra de Hector, que também escreveu “Sargento Kirk”, “Ernie Pike” e “Bul Rocket”). “Oesterheld se fazia perguntas muito densas sobre a existência. Em suas obras tais questionamentos aparecem constantemente.”

Os temas de Héctor e Borges são, frisa Martín Hadis, “a natureza do tempo, a memória ou a identidade e até as trocas de cartas nas jogadas de truco”.

Martín Hadis e Mariano Chinelli organizaram a antologia de contos de ficção científica de Héctor — “Más Allá de Gelo”.

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