Euler de França Belém
Euler de França Belém

Livro examina a literatura de Graciliano Ramos sob novas perspectivas

Obra organizada por Benjamin Abdala Jr. analisa a obra do terceiro maior mosqueteiro da prosa brasileira

Não resta a menor dúvida: os dois maiores escritores brasileiros são Machado de Assis, o inventor de uma literatura patropi, e Guimarães Rosa, o inventor de uma literatura tropical que, longe de ser escrava, é um par da prosa do irlandês James Joyce e do americano William Faulkner. Mas o escritor do qual sou devoto (um pagão-religioso) é o terceiro mosqueteiro — Graciliano Ramos.

Há quem aposte que, dada a secura, sua literatura é escassamente discursiva. O mais provável é que, mesmo com sua contenção, com a frase justa — em que conteúdo e forma se fundem para criar, digamos, o clima da prosa e a descrição do ambiente e da vida das personagens —, há um caráter discursivo em sua literatura (talvez em todas, frise-se). O que não é o mesmo que engajamento ideológico. Embora comunista — o que lhe rendeu a prisão, em 1936, tão bem narrada em “Memórias do Cárcere” (um dos mais belos e dolorosos livros publicados no país) —, o Velho Graça era avesso ao realismo socialista. O vezo social é forte, crucial, na sua literatura, mas não a ideologia. Arrisco a dizer que, como escritor, era mais humanista do que comunista — tinha a visão da raposa, não a do porco espinho (visada unilateral), diria Isaiah Berlin. Era mais escritor do que militante político. É, quem sabe, o x da questão.

Portugal levou parte do ouro do Brasil. Mas uma mina inesgotável permanece: Graciliano Ramos. É o que provam os ensaios do livro “Graciliano Ramos — Muros Sociais e Aberturas Artísticas” (Record, 335 páginas), organizado pelo crítico literário Benjamin Abdala Jr. Este, por sinal, é autor de um dos textos mais acurados da obra (que devo comentar brevemente), “Aberturas simbólicas e artísticas num ‘mundo coberto de penas’”. Recomendo também “Faulkner e Graciliano: pontos de vista impossíveis”, de Ana Paula Pacheco.

Aos que querem conhecer um pouco mais a respeito do autor de “Vidas Secas” e “São Bernardo”, para entender que sua vida não era insípida — apesar da aridez de deserto de suas feições e de seu comportamento irritadiço —, vale a pena ler a edição revista de “O Velho Graça — Uma Biografia de Graciliano Ramos” (Boitempo, 360 páginas), de Dênis de Moraes.

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