Líbano de todos nós. 75 anos de independência

O Líbano guarda sedimentos, como uma rocha que traz em si eras geológicas distintas ali sedimentadas, pedaços de toda a história e cultura humanas. É isso que se celebra

Hanna Mtanios

Especial para o Jornal Opção

É festa no Líbano por seus 75 anos de independência. Mas festa no Líbano é sempre comemoração de um bocado da população terrestre. Esse pequeno país de seus pouco mais de 4 milhões de habitantes, localizado no Oriente Médio, é uma grandiosa porta de entrada para a história cultural do Planeta. São 75 anos que condensam mais de sete mil anos de História.

O famoso Crescente Fértil, região em que se desenvolveram as primeiras grandes civilizações, estava localizado onde hoje dividem fronteira Líbano e a Síria. Foi ali que os Fenícios criaram e sustentaram por mais de dois mil anos a cultura marítima, impulsionada por bravos negociantes e mercadores. É também por estas terras que a humanidade criou o primeiro alfabeto, responsável por codificar e dar vazão à linguagem escrita, que aproximou povos, que permitiu o aparecimento das línguas modernas.

O território libanês é historicamente responsável pela ligação entre Oriente e Ocidente, tendo abrigado civilizações de rico desenvolvimento cultural como gregos, romanos, bizantinos e otomanos. Lá estão as maiores colunas romanas, erguidas como oferenda ao deus Baco, localizadas no sítio arqueológico de Baalbek.

Se por um lado o Líbano vivenciou históricos, intensos e sangrentos conflitos, que envolvem toda a região que sempre atraiu olhares gananciosos de muitos povos, por outro é um reduto do acolhimento, da irmandade, da recepção dos valores humanos e da dignidade. Foi assim, com esse espírito, que nosso irmão libanês Charles Habib Malik dirigiu os trabalhos na ONU que resultaram na Declaração Universal dos Direitos Humanos, e é assim que hoje nosso país acolhe centenas de milhares de sírios que se refugiam da longa guerra civil.

Há ainda maravilhas naturais, desde o nosso milenar cedro, árvore que estampa nossa bandeira, aos belos rios Litani e Ibrahim, passando pela riqueza dos parques naturais localizados em Shouf. E mais, o que os libaneses foram capazes de fazer com os frutos da nossa mãe terra e colocar à mesa mundo afora é indizível. Nossos vinhos, araks, coalhadas secas, especiarias, ocupam mesas dos extremos oriente e ocidente deste planeta.

O Líbano jovem guarda sedimentos, como uma rocha que traz em si eras geológicas distintas ali sedimentadas, pedaços, “cadiquins” de toda a história e cultura humanas. É isso que se celebra hoje.

É essa rica cultura de acolhimento, de simplicidade, de bravura que encontra guarida e repouso aqui em solo goiano. Aqui, sinto-me igualmente em casa. Sinto-me abraçado pelos Ipês, pelo Rio Araguaia, pelas reservas naturais da Chapada dos Veadeiros ou pelo Parque Nacional das Emas, pela carne de panela, pelo arroz com pequi, pela história goiana nas entranhas de suas ruas de pedra estampadas em diversas cidades. De modo que posso hoje comemorar a independência libanesa em terras tão acolhedoras quanto a minha cultura de origem.

 Hanna Mtanios é libanês e advogado da Embaixada do Líbano no Brasil.

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