Euler de França Belém
Euler de França Belém

Levantamento mostra que 76 jornalistas morreram no Brasil em decorrência da Covid

Em todo o mundo morreram 712 profissionais. O papa Francisco diz que os repórteres precisam sair às ruas. Está certo, mas precisam de proteção

Rodrigo Rodrigues Duarte, da TV Globo: morte aos 45 anos | Foto: Reprodução

O papa Francisco é o estadista mais surpreendente do século 21 — por dizer as coisas certas na hora certa. A reportagem é o coração e o cérebro do jornalismo. Por isso, o imperador da Igreja Católica está certo quando recomenda que os repórteres não esqueçam de que não devem trocar as ruas pelo conforto e proteção das salas refrigeradas. “A crise do setor editorial pode levar a informações construídas nas redações, na frente do computador, nos terminais das agências, nas redes sociais, sem nunca sair para a rua, sem gastar as solas dos sapatos, sem encontrar as pessoas para encontrar histórias”, afirma, de maneira irretocável, o religioso.

De fato, não há como fazer jornalismo de primeira linha sem sair às ruas, sem conversar com as pessoas. Dá para escrever colunas e até algumas reportagens por telefone, via WhatsApp, e-mails ou buscando informações básicas nas redes sociais. Mas as melhores reportagens, aquelas de profundo conteúdo humano, precisam mesmo de contato, de olho no olho. Jornalismo é fruto da vitória da razão, mas as relações diretas entre fonte e profissional, com um avaliando o outro, contribuem para incluir alguma emoção, um viés, digamos, sensível. Um olhar, um sorriso, um tremor de mãos são mais bem captados de perto. O contato pessoal humaniza as relações. O contato distanciado esfria o diálogo entre os indivíduos.

Israel Pinheiro: morte aos 38 anos | Foto: Reprodução

Neste momento, há jornalistas que, devido à pandemia do novo coronavírus — que já matou mais de 220 mil pessoas só no Brasil —, estão trabalhando no sistema de home office, as reuniões de pautas são feitas, em geral, por meios virtuais. Mas há centenas de jornalistas que estão na linha de frente, contando as histórias dos que lutam para sobreviver — no caixa do supermercado, dirigindo ônibus, recolhendo o lixo das ruas —, porque não há como todos ficarem em casa.

Na semana passada, o Portal dos Jornalistas publicou um levantamento informando que 76 jornalistas e radialistas brasileiros morreram em decorrência da Covid. A idade varia de 28 a 88 anos. A maioria — 34 profissionais — tinha de 60 a 70 anos. “Muitos em plena atividade de trabalho”, informa o portal.

Renan Antunes de Oliveira: Prêmio Esso de Jornalismo | Foto: Reprodução

São Paulo (oito), Rio de Janeiro (sete) e Manaus (sete) são as cidades onde mais morreram jornalistas.

Os homens (68) são a maioria dos mortos. Morreram oito mulheres. “Um grande número de profissionais”, entre os que morreram, “se dedicava ao jornalismo esportivo” (dez). Orlando Duarte, de 88 anos, não estava mais em atividade — tinha Alzheimer, faleceu em São Paulo. Era o decano do jornalismo esportivo patropi — cobriu várias copas e escreveu livros a respeito. Rodrigo RodriguesDuarte, de 45 anos, trabalhava na TV Globo.

José Paulo de Andrade, da Rádio Bandeirantes, morreu, aos 78 anos.

Sérgio Jorge: fotografou o milésimo gol de Pelé | Foto: Reprodução

O jornalista Israel Pinheiro, que trabalhava como assessor de imprensa, em Manaus, morreu aos 38 anos. Pouco antes de ser entubado, deixou uma despedida, no Facebook: “Combati o bom combate. Guardei a fé, terminei bem a corrida que me foi proposta… Amo muito todos vocês e estou aguardando alegremente poder encontrar todos vocês por aqui. O Paraíso de Deus é real e é tudo muito lindo. Não é um tchau, é um até logo!”

Ao saber que estava mal, Normando Sóracles, radialista e político em Juazeiro do Norte, no Ceará, gravou um vídeo no qual alertou a população sobre a gravidade da doença. Logo depois, morreu. Mas cumpriu, até o fim, sua missão de informar com precisão.

O fotógrafo Sérgio Jorge faleceu, aos 83 anos. Era considerado um nome importante da fotografia brasileira, tendo registrado a construção da Belém-Brasília (BR-153), a inauguração de Brasília e o milésimo gol de Pelé, no Maracanã.

José Paulo de Andrade: da Bandeirantes | Foto: Reprodução

Prêmio Esso de Jornalismo, Renan Antunes de Oliveira morreu, aos 71 anos, em Florianópolis.

Stanley Gusman, de 49 anos, morreu, em Belo Horizonte. Não tinha apreço pelas medidas de isolamento e criticava as ações do prefeito Alexandre Kalil.

O levantamento não incluiu jornalistas que tiveram Covid-19 e se recuperaram. Seria interessante saber quantos, depois de internados ou não, sobreviveram. É relevante saber se estavam na linha de frente e, se possível, como foram contaminados.

Orlando Duarte: cobriu várias copas de futebol | Foto: Reprodução

O portal assinala que já morreram 712 jornalistas em todo o mundo de complicações decorrentes da Covid. Morreram mais profissionais no Peru e no México. O Brasil figura em terceiro lugar na lista de mortes.

O papa Francisco está correto em cobrar mais presença nas ruas. Mas as empresas precisam criar estruturas adequadas de proteção. As redes de televisão adotam medidas para proteger seus profissionais. Resta saber se os jornais, revistas, sites e emissoras de rádio estão fazendo o mesmo.

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