Euler de França Belém
Euler de França Belém

Leo Perutz inventou um novo gênero literário, segundo Robert Musil

Amigo de Kafka e de Schnitzler, o escritor austríaco era admirado pelo filósofo Theodor Adorno e pelos escritores Jorge Luis Borges, Italo Calvino e Graham Greene

Você já leu algum romance de Leo Perutz (1882-1957)? Você sabe quem é Leo Perutz? Não? Pois então somos dois ignorantes culturais. E, pelo visto, somos ignorantões. Como fiquei sabendo a respeito do escritor austríaco? Pois é: lendo o jornal “Clarín”, da Argentina. Na quinta-feira, 21, li o texto “Leo Perutz, a língua dos estados nervosos”, de Ezequiel Alemian.

O escritor austríaco Robert Musil, afirma o resenhista, atribui a Leo Perutz “a criação de um novo gênero literário, a ‘ficção jornalística’” (seria, portanto, um precursor do escritor americano Truman Capote, autor do romance de não-ficção “A Sangue Frio”). O crítico Friedrich Torberg avalia “seus romances como o ‘possível resultado de uma união ilícita entre Franz Kafka e Agatha Christie’”.

O filósofo alemão Theodor Adorno, em “Teoria Estética”, observa que se trata de “um criador de intrigas genial”. “Entusiasmado”, o diretor de cinema Alfred Hitchcock confidenciou ao colega francês François Truffaut “que seu primeiro grande filme, ‘O Inquilino’, sobre um misterioso pensionista que parece ser um assassino serial, havia sido inspirado em uma cena chave do romance de Perutz ‘Mientras dan las nueve’”.

Judeu sefardita, embora não seguisse as tradições judaicas, Leo Perutz era um “expoente destacado do modernismo de Viena (cidade na qual se instalou, com seus pais, aos 20 anos)”. No fim da década de 1930, exilou-se em Tel Aviv, com a mulher e os três filhos. Ele e a família passaram por dificuldades financeiras. Seus livros haviam sido proibidos na Alemanha nazista (cuja influência se estendia à Áustria e a parte da Tchecoslováquia, e, em seguida, à Polônia). A fábrica de tecidos da família, administrada por um irmão, havia sido fechada.

Agentes literários, apostando na qualidade dos livros de Leo Perutz, buscaram novos mercados. Em 1944, a editora Elan lançou “Turlupin”, de 1924, em Buenos Aires. O livro, traduzido por Erwin Teodoro Engel, foi o primeiro romance do escritor vertido para o espanhol.

Luiz Saslavsky adaptou para o cinema a peça teatral de Leo Perutz “Mañana es Fiesta” com o título de “História da Noite” (“Historia de la noche”). “O autor não havia se dado conta de quem era o personagem principal de sua história e lhe dedicava só quatro ou cinco cenas. Ampliando esse papel, me disse, o filme seria um sucesso. Assim o fiz e acertei”, contou o cineasta. “O filme foi muito bem-sucedido, e uma das primeiras adaptações importantes feitas pelo cinema argentino”, relata o “Clarín”.

Jorge Luis Borges

Cidade novidadeira e cosmopolita, Buenos Aires, por meio da Editora Argonauta, publicou mais três romances de Leo Perutz: “Mientras dan las nueve”, “El Marqués de Bolibar” (“O Marquês de Bolibar”) e “El Tizon de la Virgen”.

A consagração de Leo Perutz na Argentina se deu quando o poeta, prosador, crítico e tradutor Jorge Luis Borges e o escritor Adolfo Bioy Casares incluíram “O Mestre do Juízo Final” na coleção de histórias policiais El Séptimo Círculo. Borges era um grande admirador de Leo Perutz. O argentino o qualificava de “Kafka aventuroso”, um “mestre de um tipo de fantástico que entrelaça precisas reconstruções históricas, retratos psicológicos inquietantes e atmosferas sombrias e barrocas” (informações retiradas do site da Editora Cavalo de Ferro).

O romance “O Mestre do Juízo Final” (226 páginas), de 1923, está sendo republicado na Argentina pelos Libros del Asteroide, com tradução de Jordi Ibáñez, daí a matéria do “Clarín”. O barão Bon Yosch, personagem do romance, recorda acontecimentos que lia num jornal — assassinatos, estreias de óperas, incêndios, exposição, greves, conspirações, falências. Trata-se de uma literatura “dos estados nervosos”, que dominavam o mundo da psicologia e das artes em Viena (os tempos eram, diga-se, freudianos). O livro, ao mostrar o mal-estar de uma sociedade em estado terminal, investiga “o que parece ser uma sequência de suicídios induzidos — não se sabe por quem e quais os motivos. Há uma mistura de realismo, psicologismo, ocultismo, religião, drogas, onirismo. Bon Yosch está continuamente despertando e perdendo a consciência”.

Ezequiel Alemian assinala que o romance “O Mestre do Juízo Final” articula um “mundo de saberes que se desintegra, armazenando, ameaçando cair na loucura”. Bon Yosch se pergunta: “A loucura está se apoderando de mim?”.

“O romance exibe uma mestria narrativa, uma elegância de estilo admirável e decadente. Alcança um grau de eficiência que não pode sustentar. Não pode sustentar porque finalmente é só formal, quase uma sublimação do outro eu, essa interioridade terrível que terminará por levá-la à implosão. No fecho, o narrador convoca os fantasmas de Hoffman, de Brueghel O Velho, de Poe, como última conjura ante o abismo final”, anota o “Clarín”.

A vida de Leo Perutz

O “Clarín” frisa que “a vida de Leo Perutz foi um tanto sinuosa. Havia trabalhado, quando jovem, em Trieste, na mesma seguradora na qual trabalhava, em Praga, Franz Kafka”. Matemático, “especializado em estatística, descobriu uma ‘fórmula de equivalência de Perutz’, que, durante anos, se utilizou para determinar taxas de mortalidade”.

Robert Musil, escritor austríaco: Leo Perutz criou um novo gênero literário, a “ficção jornalística”

Na Primeira Guerra Mundial, Leo Perutz se integrou à infantaria imperial e “levou um tiro em um pulmão e passou um ano convalescendo”. Dado seu talento, o Exército o enviou para o departamento de criptografia. Como integrante do Partido Social Democrata, o escritor apoiou a incorporação da Áustria à Alemanha durante a República de Weimar — antes da ascensão do nazismo (que anexou a Áustria, mais tarde).

Lido, comentado e admirado, Leo Perutz passou a se relacionar com os grandes nomes de sua época — como Bertolt Brecht, Franz Werfel e Alexander Lernet-Holenia, prosador austríaco, que se tornaria seu testamenteiro literário.

Escritor de prosa sólida e texto ágil, Leo Perutz trabalhou como correspondente de jornais de Viena na Rússia. Ele traduziu o escritor francês Victor Hugo. Quando Adolf Hitler anexou a Áustria, na década de 1930, o escritor mudou-se para a Itália. Como o país estava sob o comando de Benito Mussolini, aliado de Hitler, transferiu-se para Tel Aviv.

Ezequiel Alemian sublinha que, na Wikipédia, conta-se que Leo Perutz “não acolheu com demasiado entusiasmo a criação do Estado de Israel, dada sua aversão a todo tipo de nacionalismo, e viu com tristeza a expulsão dos árabes de Jerusalém”.

Em 1951, depois de várias tentativas, Leo Perutz recuperou a cidadania austríaca e voltou a morar em Viena. O escritor morreu, em 1957, aos 74 anos, de um edema pulmonar. Um documento, que mantinha no seu escritório, sugeria que a origem de família era toledana. Inicialmente, a família, antes de ser Perutz, era Pérez. Os Pérez-Perutz foram expulsos da Espanha, no século 17. Alguns de seus amigos o chamavam de “o Espanhol”. O “Clarín” afirma que, “durante toda sua vida, mantinha um anel com a inscrição ‘na contracorrente’” (ou “a contracorrente”).

Entre os muitos admiradores de Leo Peruz estão o italiano Italo Calvino e o britânico Graham Greene. Além de Kafka, ele foi amigo de Arthur Schnitzler. Leopold Perutz é seu nome de batismo.

Há pelo menos um livro do autor editado em português, “O Judas de Leonardo — Como Da Vinci Encontrou o Judas de A Última Ceia” (Ediouro, 176 páginas) — quase de graça no site Estante Virtual (o preço do frete, 8,05 reais, é superior ao do livro — 4 reais, o valor que paguei). Portugal traduziu “O Cavaleiro Sueco” (Cavalo de Ferro, 216 páginas).

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