Euler de França Belém
Euler de França Belém

Leitor pode criticar biografia de Lula escrita por Fernando Morais, mas não deve destruir o livro

A biografia parece uma petição escrita pelo advogado Cristiano Zanin e assinada pelo jornalista Fernando Morais. Mas o ex-presidente tem o direito de se defender

“Onde se queimam livros ainda se queimarão pessoas.” — Heinrich Heine (1797-1856)

Há pelo menos duas coisas a se dizer do livro “Lula — Biografia” (Companhia das Letras, 448 páginas). Primeiro, é bem-sucedida. Segundo, é malsucedida.

Antes das “duas coisas”, é preciso admitir: Fernando Morais é um dos maiores biógrafos brasileiros. Os livros “Chatô — O Rei do Brasil”, sobre o magnata da imprensa Assis Chateaubriand, e “Olga”, a respeito de Olga Benario (comunista alemã que se casou com o brasileiro Luiz Carlos Prestes), resultam de pesquisas exaustivas. A prosa do autor também é deliciosa.

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Biografia bem-sucedida

A biografia é bem-sucedida sobretudo porque é uma defesa habilmente orquestrada de Lula da Silva. Por momentos, ao acompanhar a, digamos, “petição” fiquei com a impressão de que estava lendo uma história contada pelo advogado Cristiano Zanin e assinada ou copidescada por Fernando Morais. Mas é só impressão: o texto é mesmo de Fernando Morais.

Cristiano Zanin e Lula da Silva: a biografia parece escrita pelo advogado e copidescada por Fernando Morais | Foto: Reprodução

Portanto, a biografia, publicada num ano eleitoral, é bem-sucedida ao conter a defesa jurídica de Lula da Silva registrada com a habilidade narrativa de Fernando Morais. Fica mais fácil entendê-la na prosa objetiva — de uma clareza ímpar — do jornalista.

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Biografia malsucedida

Porém, ao mesmo tempo, a biografia é malsucedida, claro que do ponto de vista do leitor comum, aquele que procura tão-somente um texto amplo, nuançado e preciso a respeito de uma pessoa.

A biografia é apresentada como “primeiro volume”, mas tem cara de último volume, porque contém a defesa de Lula da Silva a respeito das acusações de corrupção. Ou seja, trata de fatos recentes. O homem que nasceu em Pernambuco, depois mudou-se para São Paulo, tornou-se sindicalista e, em seguida, político — um sujeito que tem sua grandeza e uma história rica (goste-se ou não dele) —, acabou por ser esquecido por Fernando Morais.

Outro problema é a idolatria. Fernando Morais não trata Lula da Silva como um personagem complexo, que supera o debate mignon de se é ou não é corrupto, e sim como um santo sem defeitos. Neste sentido, “Lula” é a biografia de um santo, não de um homem com virtudes e defeitos.

Fernando Morais: um dos principais biógrafos do Brasil | Foto: Reprodução

Qualquer pesquisador sério sabe que um político tem de ser avaliado pela média (ressalva: homens como Hitler e Stálin são exceções e, por isso, podem e devem ser avaliados pelos extremos, pela barbárie que cometeram). Lula da Silva é maior do que a corrupção que ocorreu em governo, e não foi necessariamente criada por seu governo.

Lula da Silva tem sua grandeza — sobretudo por causa de suas ações no sentido de reduzir as desigualdades sociais e sua história pessoal é interessantíssima —, mas Fernando Morais, ao se comportar como hagiógrafo, não soube contá-la. Ficou aquém, muito aquém, do personagem. Não deu conta do personagem.

Como Fernando Morais é um grande contador de histórias, quase sempre equilibrado e criterioso nas avaliações, o “equívoco” da biografia de Lula da Silva é intencional. O autor não quis escrever uma biografia clássica, como as que Roy Jenkins e Andrew Roberts fizeram de Churchill, e sim um panegírico.

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Fernando Morais tem o direito de defender Lula

Heine: “Onde se queimam livros ainda se queimarão pessoas” |Foto: Reprodução

Porém, se a biografia não é de alta qualidade, se é mais uma defesa do “presente” de Lula da Silva (e um presente do jornalista para o ex-presidente da República), quiçá para influenciar o debate eleitoral de 2022, Fernando Morais e seu livro merecem respeito.

O Brasil é uma democracia. Numa democracia, o respeito à diferença de pensamento é crucial. Não é preciso concordar com Fernando Morais e com o PT de Lula da Silva. Mas é vital que se aceite que pensem diferente de nós. Até porque o petista-chefe tem o direito de se defender, assim como o jornalista-biógrafo tem o direito de defendê-lo. Quem acha que não basta não ler o livro.

A jornalista Mônica Bergamo, colunista da “Folha de S. Paulo”, relata, na edição de quarta-feira, 9, que uma cliente da Livraria da Vila, no Shopping Morumbi, em São Paulo, “derrubou uma pilha de exemplares da biografia do ex-presidente Lula (PT). E ainda atirou alguns deles em direção a vendedores, questionando se não tinham ‘vergonha de vender esse lixo’”. O fato ocorreu em novembro de 2021, mas é reportado só agora. Na unidade da livraria em Campinas, ocorreu o mesmo.

Fernando Morais disse à colunista: “Em vez de destruir os livros, eu prefiro que as pessoas primeiro comprem, paguem e depois incendeiem. Acho mais justo [com os vendedores]. Pode comprar dois, dez, até cem e fazer uma fogueira. Eu até prefiro que [a pessoa] leia para aprender um pouquinho da história do Brasil”.

“Lula — Biografia” já vendeu quase 100 mil exemplares.

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