Euler de França Belém
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Leitor espera que o cantor Roberto Carlos não tente censurar novo livro de Paulo César de Araújo

A Editora Companhia das Letras lança o polêmico “O Réu e o Rei — Minha História com Roberto Carlos, em Detalhes”, que, se não for censurado, deve se tornar um dos best sellers deste ano

O novo livro de Paulo César  de Araújo começa a provocar polêmica, mas provavelmente  não será censurado pela Justiça

O novo livro de Paulo César
de Araújo começa a provocar polêmica, mas provavelmente
não será censurado pela Justiça

Roberto Carlos é um grande cantor e um cidadão de bem. Não à toa é uma referência para vários artistas e, diferentemente de alguns pares, nunca se envolveu em escândalos e falcatruas. Mas há um Roberto que parece não entender o que o Rei significa para o país. O cantor é um ícone — consagrado entre todas as classes sociais, com receptividade em praticamente todas as idades, menos, talvez, entre os mais jovens, que preferem rock e outros gêneros. Durante anos, a esquerda intelectual se sentia compelida a odiá-lo e a amar Chico Buarque e, às vezes, Caetano Veloso. Isto para consumo público. Pri­vadamente, poucos deixaram de curtir uma, duas ou mais músicas do cantor de “Como é grande o meu amor por você”.

Por ser quem é, um ídolo nacional, os brasileiros querem saber mais sobre Roberto. Porém, tentando preservar sua intimidade — o que é praticamente impossível no mundo moderno, no qual o público e o privado se misturam e se contaminam, sobretudo quando se tratam de pessoas públicas —, o artista, com seus advogados, busca censurar biografias e livros despretensiosos. Numa longa e bem-sucedida batalha, conseguiu tirar de circulação a biografia “Roberto Carlos em Detalhes” (Editora Planeta), de Paulo César de Araújo.

“Roberto Carlos em Detalhes” é uma biografia absolutamente decente, e até laudatória, por vezes com aspecto de hagiografia. O texto é preciso e amoroso. Paulo César de Araújo revela-se apaixonado pelo Rei, talvez excessivamente apaixonado. Mesmo assim, por ser um pesquisador meticuloso, sabe que biografias ou contam tudo, tornando-se uma referência, ou escondem quase tudo, tornando-se uma obra a se evitar. Fica-se com a impressão, concluída a leitura, que o autor sabe tudo, ou quase, sobre o cantor e compositor. Como não se trata de uma obra que pretende examinar as músicas do Rei criticamente, mas fundamentalmente evidenciar como foram criadas e o sucesso que obtiveram, consagrando o artista como uma espécie de Frank Sinatra patropi, não convém nem mesmo sugerir que, nesta questão, a biografia fica a dever. Como se trata de um trabalho pioneiro, sem obras anteriores para fundamentá-la e como o cantor não quis se pronunciar, esclarecendo pontos nebulosos — além de acrescentar questões que só ele pode revelar —, não há como não se referir a ele com o adjetivo excelente. O próprio Roberto terá de consultá-lo para saber mais de si, principalmente a respeito do que os outros disseram dele.

Paulo César de Araújo: vítima da mão pesada da lei acionada pelo cantor e compositor Roberto Carlos

Paulo César de Araújo: vítima da mão pesada da lei acionada pelo cantor e compositor Roberto Carlos. Foto: Reprodução/TV Cultura

Roberto precisa entender, e certamente vai compreender isto, que é muito mais importante que um biógrafo sério, como Paulo César, vasculhe e conte sua vida, com precisão, do que, mais tarde, quando não estiver entre os vivos para promover alguma contestação, algum biógrafo inescrupuloso esparrame histórias sensacionalistas que, na falta da contradição, podem se tornar dominantes. Dizer que uma pessoa perdeu uma perna, devido a um acidente na infância, não é crime. Porque a informação é verdadeira.

Comentar a vida amorosa, especialmente de uma figura pública, como Roberto, não é o mesmo que assassinar reputações. O artista poderia ter convidado Paulo César para uma conversa e explicitar que alguns aspectos de sua pesquisa não estão devidamente apurados. Mas censurar a biografia apenas transformou Paulo César em vítima e Roberto numa espécie de censor que ele nunca quis nem quer ser.

Espera-se que Roberto não implique com o livro “O Réu e o Rei — Minha História com Roberto Carlos, em Detalhes”, de Paulo César, que acaba de ser lançado pela Companhia das Letras (528 páginas).

O livro revela a batalha jurídico-pessoal de Paulo César para tentar liberar a biografia “Roberto Carlos em Detalhes”. Para publicar “O Réu e o Rei”, a Companhia das Letras agiu em segredo, pelo menos durante algum tempo, e articulou uma distribuição rápida do livro (em papel e eBook) para evitar uma possível apreensão. A editora, de sócios brasileiros e internacionais, cercou-se também de um aparato jurídico para enfrentar o poderio de Roberto. “Estamos cientes dos riscos e resolvermos assumi-los”, afirma o publisher da editora, Otávio Marques da Costa. O editor não acredita que o livro será censurado. “O primeiro livro era uma biografia tradicional. Esta agora é a história do Paulo César, a visão dele sobre toda essa experiência. Os fundamentos que levaram à proibição da biografia não se aplicam neste caso. Essa é a nossa defesa”, diz Costa. As informações são da “Folha de S. Paulo”. Os advogados de Roberto por certo estão examinando a obra. Se as informações que incomodaram o cliente na biografia foram reproduzidas (não há como contorná-las) no segundo livro, possivelmente Ro­berto vai acionar o autor. Mas, desta vez, dificilmente vai conseguir retirar o livro de circulação, pois ele não é, em definitivo, uma biografia disfarçada. Mas os advogados e, sobretudo, Roberto podem discordar desta avaliação.

Uma resposta para “Leitor espera que o cantor Roberto Carlos não tente censurar novo livro de Paulo César de Araújo”

  1. Horlando HaleRgia disse:

    Pela primeira vez texto sensato (e digo até mesmo equilibrado) sobre a questão. Pela primeira vez (que eu lembre) leio algo que NÃO foge do assunto principal e NÃO vem carregado de ofensas como, por exemplo, associar o cantor a “alguém gagá e ultrapassado” (como já vi) ou “cheio de manias” (como também já vi) e até mesmo que as fãs que o acompanham nos navios são “vovozinhas ricas e deslumbradas” (já li isso aqui mesmo neste jornalopcao.com.br). Agora, neste momento, vejo texto muito interessante e, repito, sensato.

    Mas… De nada valerão “estrategias editoriais”, “ações mercadológicas”, interesses (sejam eles quais forem) e boas intenções (seja o autor fã ardoroso ou não)… De nada isso adiantará, enquanto houver instrumentos legais que beneficiem os citados em biografias, ora bolas! Se a lei “protege” os biografados, a justiça não hesitará em dar ganho de causa a eles. Ou estou redondamente enganado?

    Outra coisa que me surpreendo com o presente lançamento. Se é uma biografia, se pode ser considerado um tanto biográfico (pelo menos sobre o autor), porque outro biógrafo não escreveu o livro? Não será mais uma “biografia chapa-branca”? Ou seja, biografia AUTORIZADA (pelo proprio escritor)? Por que ele não aguardou que outro biógrafo se prontificasse a escrever sobre ele (como todos os biógrafos fazem sobre OUTRAS PESSOAS)? Se não chega a ser biografia do autor, por favor desconsiderem esta parte, oh-quei? Parece que morrerei sem ter realizado meu sonho: o de ver biografia NÃO AUTORIZADA sobre biógrafo vivo e escrita por OUTRO biógrafo. Será que morrerei infeliz? Será? “O que será que será que será”? Hein?
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