Euler de França Belém
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LBP, que morreu nesta terça, tinha um olhar proustiano para perceber o indivíduo na sociedade

Lourival Batista Pereira pedia para não trocar “em nível de” para “a nível de”, implicava com quem pronunciava “country” errado e percebia um novo rico em nano-segundos

Lourival Batista Pereira: talvez o maior colunista social da história de Goiás | Foto: Jornal do Tocantins

Lourival Batista Pereira, conhecido como LBP, trabalhou no Jornal Opção. Enviava as laudas para a redação e revisores e editores ficaram impressionados com seu português perfeito e a frase fluente. Era um colunista social diferenciado. No lugar do elogio hiperbólico, preferia a informação precisa. Era um repórter, um grande repórter. Sabia tudo sobre a sociedade, de seus altos e baixos. Mas optava por contar o que era relevante, deixando a futrica para outros colunistas menos compassivos e tolerantes com os problemas humanos. Durante anos, retratou o que a alta e a média sociedade de Goiânia faziam, diziam, comiam. Tornou sua era mais dourada, com seus registros perspicazes e com certa candura na expressão de seu pensamento sobre acontecimentos e pessoas.

Perfeccionista, escrevia “em nível de” e, na lateral da lauda, anotava: “Por favor, não trocar para ‘a nível de’ e, sim, primeira-dama tem hífen”. Os revisores e editores caçavam erros e galhas em seus textos e, decepcionados, diziam: “Não há nada de errado”. Às vezes, mexiam aqui e ali, mudando, não o conteúdo, e sim a dinâmica da frase. Na segunda-feira, LBP reclamava: “Não mexam no meu estilo”. Sim, era isto: estilo, mais do que idiossincrasia.

Pai de experts na língua inglesa, LBP implicava com aqueles que, passando por chiques, pronunciavam as palavras erradamente. Nunca se cansou de corrigir a pronúncia do termo “country”. Sua ironia é tão fina que passava por delicada. E, de fato, delicada era. Era um homem da construção — não da destruição.

Não se deve esquecer de sua elegância tanto ao escrever e falar quanto no porte. Parecia nobre. De certo modo, era nobre. Chique praticamente por natureza. Em questão de nano-segundos, com sua observação às vezes incisiva, mas não maldosa, sabia avaliar uma pessoa. De cara, sabia se era rico de origem, o que às vezes confere naturalidade à fala e ao porte, ou se era emergente (nota que o novo rico sempre “posa”). Uma vez, nos disse: “Contou vantagem, falou sobre o valor do produto, saiba: você está diante de um novo rico”.

Os amigos e admiradores sabiam que a sigla LBP era quase um partido político. As três letras são emblemáticas e, desde já, lendárias.

LBP, homem de bem e do bem, morreu na terça-feira, 18, aos 90 anos. Eu apreciava seu olhar proustiano: aproximava para distanciar-se e distanciava para aproximar-se. Talvez tenha sido o mais importante colunista social da história de Goiás.

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