Euler de França Belém
Euler de França Belém

Lamartine Babo dedicou música para mulher, mas descobriu que “ela” era “ele”

O compositor carioca dedicou “Serra da Boa Esperança” à mineira Nair. Mas quem lhe escrevia cartas era o dentista Carlos Alves Neto

Serra da Boa Esperança

Lamartine Babo

Serra da Boa Esperança,

Esperança que encerra

No coração do Brasil

Um punhado de terra

No coração de quem vai,

No coração de que vem,

Serra da Boa Esperança,

Meu último bem

 

Parto levando saudades,

Saudades deixando,

Murchas, caídas na serra,

Bem perto de Deus

Oh, minha serra,

Eis a hora do adeus

Vou-me embora

Deixo a luz do olhar

No teu luar

Adeus!

 

Levo na minha cantiga

A imagem da serra

Sei que Jesus não castiga

Um poeta que erra

Nós, os poetas, erramos

Porque rimamos, também

Os nossos olhos nos olhos

De alguém que não vem

 

Serra da Boa Esperança,

Não tenhas receio,

Hei de guardar tua imagem

Com a graça de Deus!

Oh, minha serra,

Eis a hora do adeus,

Vou-me embora

Deixo a luz do olhar

No teu luar

Adeus!

Lamartine Babo: um dos maiores compositores brasileiros

“Serra da Boa Esperança” é uma das mais belas músicas do carioca Lamartine Babo (1904-1963) — um dos mais notáveis compositores brasileiros — e do cancioneiro patropi. O bardo Manuel Bandeira sugeriu que a música “Chão de Estrelas”, de Orestes Barbosa, continha alguns dos versos mais bonitos da Língua Portuguesa e é difícil discordar: “A porta do barraco era sem trinco/ Mas a lua, furando o nosso zinco/ Salpicava de estrelas nosso chão/ Tu pisavas os astros, distraída”. Não sei se o poeta pernambucano disse alguma coisa sobre a música de “Lalá”. Se não disse, deveria ter dito.

“Serra da Boa Esperança” foi interpretada por Francisco Alves, Silvio Caldas, Elizeth Cardoso, Francisco Petrônio, Altemar Dutra, Jair Rodrigues, Maria Bethania, Gal Costa, Eduardo Dusek,  Alzira Espíndola, Tetê Espíndola e Marcelo Barra e executada com mestria por Jacob do Bandolim, César Camargo Mariano e Wagner Tiso.

No domingo, 27, postei a música no Facebook e o cantor, músico e compositor Fernando Perillo e o poeta Marcos Caiado fizeram comentários. “A música é maravilhosa e dou a dica: a gravação com Marcelo Barra é muito bacana”, sugeriu Fernando Perillo.

Marcos Caiado escreveu: “‘Serra da Boa Esperança’ era o codinome de uma pessoa com quem o autor correspondeu-se durante um tempo, através daqueles Correios Sentimentais de revistas, muito populares na década em que a canção foi composta. Um dia a ‘amante’ confessou sua verdadeira identidade: ‘ela’ era ‘ele’. Assim me contou a atriz Vera Holtz”.

Pesquisei em dois livros e a história relatada por Marcos Caiado, apesar de lacunar, é correta.

No livro “Copacabana: A Trajetória do Samba-Canção – 1929-1959” (Editora 34, 511 páginas), Zuza Homem de Mello anota: “Em 1937 Lalá [Lamartine Babo] envolveu-se num relacionamento que terminou em decepção ao descobrir que Nair (significativamente um nome comum aos dois sexos), com quem se correspondia, não era uma admiradora mas sim um dentista, seu fã e morador de Dores da Boa Esperança, em Minas Gerais, onde o samba-canção ‘Serra da Boa Esperança’ foi criado”.

No livro “A Canção no Tempo: 85 Anos de Músicas Brasileiras – 1901-1957” (Editora 34, 366 páginas), Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello acrescentam novas informações: “No início dos anos 30, Lamartine Babo correspondeu-se com Nair, uma mineira de Dores de Boa Esperança [nota do Jornal Opção: no trecho anterior, está grafado Dores da Boa Esperança, e não “de” Boa Esperança], a quem dedicou esta canção. Tempos depois, visitando a cidade, ele descobriria que Nair era uma menina, sobrinha de um admirador seu, o dentista Carlos Alves Neto, verdadeiro autor das cartas”.

Zuza Homem de Mello assinala que “Serra da Boa Esperança”, “em tonalidade menor e progressões harmônicas renovadoras, tornou-se com o tempo um clássico na voz de vários cantores, entre eles Noite Ilustrada, que fez uma magistral interpretação da composição. Como poucos ele soube valorizar o trecho mais tocante da letra: ‘Sei que Jesus não castiga um poeta que erra/Nós, os poetas, erramos porque rimamos, também/ Os nossos olhos nos olhos de alguém que não vem”.

Severiano e Mello ressaltam que, “inspirado samba-canção, ‘Serra da Boa Esperança’ mostrou-se propício a interpretações renovadoras, especialmente com criativas mudanças harmônicas, como a versão instrumental que lhe deram César Camargo Mariano e Wagner Tiso, em 1983, e vocal de Eduardo Dusek, em 1984, num reverente resgate”.

Os críticos e historiadores da música brasileira acrescentam: “A composição com 32 compassos (A-B) é desenvolvida sobre um motivo principal, de três notas e suas variações, usado quatro vezes a cada quatro compassos, e que é alterado de modo notável em duas ocasiões: na preparação pra o final da primeira parte (“Meu-úl-ti-mo-bem”) e no compasso 26 (“Ho-ra-do-adeus-vou-me”), quando, em vez de ser repetido, prossegue o movimento descendente direto, um procedimento que volta a ser usado nas oito notas que precedem o arremate”.

“Com letra e música de Lamartine, ‘Serra da Boa Esperança’ é um exemplo bem expressivo de sua arte, em que o poeta e o compositor se igualam em competência e bom gosto”, ressaltam Severiano e Mello.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.