Euler de França Belém
Euler de França Belém

Judeu que morava em Goiânia teria ajudado a localizar o nazista Eichmann na Argentina

A revelação consta do livro “Adolf Eichmann — Historia de un Asesino de Masas”, da filósofa alemã Bettina Stangneth

Um dos principais responsáveis pelo genocídio contra os judeus (6 milhões de assassinatos), o tenente-coronel da SS Otto Adolf Eichmann foi capturado pelo Mossad em Buenos Aires, capital da Argentina, em 1960, e julgado e condenado à morte em Israel em 1962, aos 56 anos. O livro mais famoso sobre o chefe nazista é “Eichmann em Jerusalém — A Banalidade do Mal” (Companhia das Letra, 344 páginas, tradução de José Rubens Siqueira), da filósofa alemã Hannah Arendt. “Caçando Eichmann” (Objetiva, 383 páginas, tradução de Maria Beatriz de Medina), do jornalista Neal Bascomb, é um relato atualizado da procura pelo criminoso da Alemanha. “Simon Wiesenthal — O Maior Caça-Nazis da História” (Matéria-Prima Edições, 441 páginas, tradução de Marta Amaral), do jornalista e historiador Tom Segev, contém a história de um homem que dedicou sua vida à caça de nazistas responsáveis pelo Holocausto e por justiça. “Adolf Eichmann — Historia de un Asesino de Masas” (Edhasa, 642 páginas, tradução por Silvia Villegas), da filósofa alemã Bettina Stangneth, é uma biografia atualizada e abrangente.

Se o eleitor quiser uma história da caçada a Eichmann, o livro adequado é o de Neal Bascomb (na página 29, há a famosa frase de Eichmann: “Pularei alegre e feliz na cova sabendo que comigo estão 5 milhões de inimigos do Reich”). Para um estudo da vida do nazista, não há nada melhor do que a pesquisa de Bettina Stangneth, doutora em Filosofia com uma tese sobre Kant. A autora conseguiu pesquisar um vasto material ao qual Hannah Arendt não teve acesso quando escreveu seu clássico “Eichmann em Jerusalém” (a obra é criticada pela biógrafa, mas de maneira respeitosa). O Eichmann de Hannah Arendt fica aquém do que o nazista realmente era, mas, como postula Bettina Stangneth, o genocida esboçou uma máscara, a do funcionário administrativo — o “homem comum”, cumpridor “eficiente” das leis do Estado —, e a imagem foi aceita e cristalizada.

Recentemente, uma equipe da televisão estatal da Alemanha esteve em Goiânia em busca de informações sobre Stanislaw “Shlomo” Szmajzner, que, depois de participar do levante do campo de extermínio de Sobibor, decidiu morar no Rio de Janeiro e, em seguida, em Goiânia e numa fazenda às margens do Rio Araguaia. De ourives, se tornou criador de gado. Szmajzner escreveu um livro — “Inferno em Sobibor: A Tragédia de um Adolescente Judeu” (Edições Bloch, 305 páginas) — e o publicou com prefácio de Pedro Ludovico Teixeira, que, como interventor, construiu a nova capital de Goiás. O livro de Bettina Stangneth contém informações novas sobre o judeu polonês que escolheu o país da poeta Yêda Schmaltz para viver, mas, de alguma maneira, não deixou de ser um combatente dos nazistas que se instalaram no Brasil, na Argentina, no Paraguai e, entre outros países, na Bolívia.

Adolf Eichmann: o nazista da Alemanha que enviou milhões de judeus para morrer nos campos de extermínio | Foto: Reprodução

Antes de passar ao material aparentemente “inédito” sobre Szmajzner (se quiser, o leitor pode saltar para os últimos parágrafos), vale uma apresentação de como Eichmann acabou por ser descoberto na Argentina — um país que acolheu bem nazistas brutais, como Josef Mengele, o médico-monstro de Auschwitz (o nazista morou na Argentina, no Paraguai e no Brasil, onde morreu, afogado, em Bertioga).

Tom Segev assinala que Eichmann não foi descoberto na Argentina pelo esforço do Mossad, e sim pelo empenho de quatro sobreviventes judeus do Holocausto — Fritz Bauer, procurador do Estado na Alemanha; Lothar Hermann (que, apesar de cego, foi decisivo), advogado; Tuvia Friedman e Simon Wiesenthal. Sobre o quinto judeu se lerá adiante.

Em abril de 1957, o procurador do Estado de Frankfurt, Arnold Buchthal, fez uma conferência e relatou que Hermann Krumey, colaborador de Eichmann na Hungria, havia sido detido. Os jornais, como o “Argentinisches Tageblatt”, publicaram a notícia, que foi lida na Argentina por Eichmann. Sylvia Hermann a leu para o pai, Lothar Hermann. Este havia perdido toda a sua família nas mãos dos nazistas e fugiu para escapar de seus tentáculos. Ele esteve preso no campo de Concentração de Dachau.

Comumente se escreve que Lothar Hermann foi o primeiro a passar informações ao procurador alemão Fritz Bauer sobre Eichmann. Mas Bettina Stangneth assinala que Michael Bar-Zohar, autor do livro “Os Vingadores”, “foi o primeiro a falar a Fritz Bauer em relação à procura de Eichmann”.

Sylvia e seu pai, Lothar Hermann: o judeu, cego, que descobriu Adolf Eichmann em Buenos Aires, na Argentina, no fim da década de 1950| Fotos: Reproduções

Um filho de Eichmann, Klaus Eichmann, namorou Sylvia Hermann. Os dois estudavam no mesmo colégio, em Buenos Aires. O jovem usava o prenome Nicholas, Nick, mas preservou o sobrenome Eichmann, o que fez Lothar Hermann ficar alerta.

Então, em 1957, Lothar Hermann informou a Fritz Bauer, por carta, que Eichmann estava na Argentina. Na verdade, a carta havia sido endereçada a Arnold Buchthal, o procurador que havia sido notícia no “Argentinisches Tagebatt”. Este a repassou para Fritz Bauer.

Interessado no assunto, Fritz Bauer interrogou, em 9 de junho de 1957, a mãe de Vera Eichmann, mulher de Eichmann, sobre o paradeiro da família. Mentindo, ela disse que a filha havia se casado com outro homem e se mudado para o Estados Unidos.

Fritz Bauer confiou nas informações de Lothar Hermann e, desconfiando de algumas autoridades alemãs — que vazavam informações para os nazistas —, repassou-as para o Mossad, que enviou Emanuel Talmor (em janeiro de 1958) e Ephaim Hofstaedter (em março de 1958) para conversar com o advogado cego. O agente Zvi Aharoni chegou a ver a casa de Eichmann, em Buenos Aires.

Fritz Bauer: procurador alemão que foi fundamental para encontrar Adolf Eichmann na Argentina; ele acreditou no cego Lothar Hermann | Foto: Reprodução

Depois da visita de Ephaim Hofstaedter, que ficou desanimado com o fato de Lothar Hermann ser cego, deixaram o informante de lado. Como um cego poderia ter localizado o “inimigo número um dos judeus”? Eichmann também vivia numa casa simples e era um trabalhador comum (inclusive da Mercedes-Benz). Portanto, para Isser Harel, do Mossad, não poderia ser o homem que mandou milhões de judeus para o Holocausto.

Mas Fritz Bauer não desistiu do caso. Bettina Stangneth afirma que, “nos começos de 1958 surgiram cada vez mais provas de que o paradeiro de Eichmann já não era segredo. Um funcionário da CIA em Munique falou em março sobre um informe do Serviço Federal de Inteligência da Alemanha (BND) e informações do Escritório Federal de Defesa da Constituição (BfV) em que se podia ler que Eichmann estava na Argentina com o [sobre]nome de ‘Clemens’”. Na verdade, era Ricardo (ou Riccardo) Klement. A informação acrescentava que o chefão dos transportes de judeus para os campos de extermínio mantinha relacionamento com Eberhard Fritsch, sócio da editora Dürer e editor do diário “Der Weg”, em Buenos Aires. Era informado que Eichmann frequentava os círculos nazistas da Argentina. Ou seja, não estava inteiramente escondido.

As informações do BND davam conta de que Eichmann havia escapado para a Argentina com o apoio de bispos da Igreja Católica, com passaporte da Cruz Vermelha. Os documentos de 1948 já continham o nome “Clement”. Os alemães estavam investigando Eichmann por recear que estivesse planejando se envolver em política. “Sabemos hoje que tal suspeita tinha sólidos fundamentos”, sublinha Bettina Stangneth. Eichmann não era um zero à esquerda e, por isso, mantinha diálogo estreito com outros nazistas. Por sinal, o embaixador da Alemanha em Buenos Aires, Werner Junker, era admirador de Willem Sassen, amigo de Eichmann

Simon Wiesenthal: judeu que ajudou a encontrar vários nazistas, entre eles Adolf Eichmann | Foto: Jornal Opção

Portanto, na Alemanha sabia-se muito da presença de Eichmann na Argentina. Porém, apesar disso, o país não se moveu para tentar prendê-lo. Bettina Stangneth diz que a Alemanha (na época, chamada de Alemanha Ocidental) se comportou de maneira vergonhosa. “Até seu sequestro [de Eichmann], não queriam um julgamento de Eichmann na Alemanha.” A pesquisadora diz que até hoje — seu livro saiu na Alemanha em 2014 — não se tem transparência a respeito de Eichmann na Alemanha. E a Daimler/Mercedes não se dispõe a dar informações sobre seus funcionários que eram nazistas e não explica por que os contratou.

Em 1960, ano em que foi sequestrado, Eichmann não levava uma vida discreta na Argentina. Comprou um lote, construiu uma casa e concedeu entrevistas a Willem Sassen. Leu todo o material apurado e fez correções. “Existem indícios concretos de que a atividade política de Eichmann se prolongou depois das conversações com Sassen. Não só escreveu um novo manuscrito para seus filhos ‘Roman Tucuman’ [‘Novela de Tucaman’], mas também participou de um projeto surpreendente que até hoje não se pôde avaliar: a recompilação de documentos dos anos do nazismo. Klaus Eichmann falou em 1966 da intenção dos nazistas de conectar-se internacionalmente de maneira mais estreita. ‘Há conexões entre os nacional-socialistas da América do Sul, do Oriente Médio, dos Estados Unidos e da Europa’, declarou.”

“Klaus Eichmann falou de outra rede: ‘A coisa está [!] tão organizada que cada chefe de departamento que vive em algum lugar do estrangeiro elabora o material de sua própria área e o reúne. Meu irmão Horst também contou que os cargos cujos chefes estão mortos são ocupados por outros, mas seus nomes figuram debaixo dos nomes dos chefes falecidos. Havia um ‘Goring’ para a Luftwaffe, um ‘Goebells’ para a Propaganda, etc.’ E o filho declarou expressamente: ‘Meu pai colaborou com essa recompilação do material’”. Na Argentina, viviam dezenas de nazistas e simpatizantes do nazismo.

Tuvia Friedmann se empenhou para encontrar Adolf Eichmann e operou para Lothar Hermann receber indenização de 10 mil dólares | Foto: Reprodução

Na Argentina, Eichmann trabalhou na empresa de Roberto Mertig, de quem o pai de Mengele era sócio. Na Alemanha, o nome do nazista começou a ser citado com mais frequência. Em setembro de 1959, a Justiça alemã prendeu Gerhard Bohne, que havia deixado a Argentina e voltado para seu país. Ele era acusado de ser responsável por 10 mil assassinatos por intermédio do programa de eutanásia. A imprensa internacional, inclusive a argentina, publicava todas as informações a respeito da nova diretriz alemã para os crimes de guerra. “O nome de Eichmann passou a aparecer em jornais e livros quando se falava de crimes do nazismo”, escreve Bettina Stangneth. A pesquisadora anota que nem se falava do nome falso do criminoso, Ricardo Klement, e sim de Adolf Eichmann mesmo.

Klaus Eichmann contou que o pai lia os jornais com atenção e tinha amigos prestimosos. Tanto que encontrou um emprego, com facilidade, na Mercedes-Benz Argentina, em González Catán, uma zona industrial a duas horas de viagem da capital. Hors Carlos Fuldner o ajudou a obter o trabalho. O engenheiro Krass e Francisco José Viegener também eram seus protetores. A empresa o registrou como Ricardo Klement.

Em 1959, quando Eichmann começou a trabalhar na Mercedes Benz, a empresa, de acordo com Bettina Stangneth, “empregava muitos alemães e inclusive alguns membros das SS”. Vários dirigentes sabiam que Ricardo Klement era Eichmann. Mas o assunto era um tabu.

Bettina Stangneth: a filósofa alemã que escreveu a biografia de Eichmann | Foto: Reprodução

Como o trabalho tomava muito tempo, e Eichmann ainda estava construindo uma casa, o contato com outros nazistas radicados na Argentina se reduziram. Em casa, “lia muito e tocava violino, e preferia músicas ciganas” (vários ciganos — roma e sinti — foram deportados e assassinados nos campos de extermínio).

Eichmann parecia tranquilo. Só parecia. Segundo o filho Klaus, ele estava preocupado. “Em abril de 1959 morreu a madrasta de Eichmann, Maria Eichmann, em Linz e a família avisou, de maneira descuidada, à mulher e aos filhos” do nazista. Se estava separada, por que enviaram a informação da morte em nome de Vera Eichmann? Cometeram uma gafe. Simon Wiesenthal, sempre atento, logo decidiu saber a quem a notícia da morte havia sido comunicada.

Em 1959, a caçada a Eichmann havia se intensificado. “Mais pessoas, de toda parte do mundo, estavam à sua procura”, registra Bettina Stangneth. “Em 25 de março foi apresentada, na Áustria, uma denúncia formal contra Eichmann em nome do Comitê Internacional Auschwitz. Hermann Langbein havia acordado o procedimento com o procurador de Frankfurt Henry Osmond. Era um sinal.”

Na Polônia, Hermann Langbein conseguiu uma fotografia de Eichmann. “Ele se ocupou, de maneira incessante, em encontrar fontes e provas que pudessem ser úteis na procura de criminosos como Eichmann. Tanto Ormand como Langbein mantinham contato com Fritz Bauer. (…) A pressão aumentava, em particular, a partir do compromisso de Langbein.”

Isser Harel: o diretor do Mossad que comandou a caçada a Adolf Eichmann | Foto: Reprodução

O Escritório Federal de Defesa da Constituição tinha a informação de que “a mulher de Eichmann e seus quatro filhos viviam na América do Sul”. Mas outra informação era equivocada: o nazista não morava na Europa, e sim em Buenos Aires. Curiosamente, o documento alemão não falava em quatro filhos de Ricardo Klement, e sim de Eichmann. Um deles nasceu na Argentina.

Em contato com Simon Wiesenthal, Tuvia (ou Tuviah, segundo Bettina Stangneth) Friedmann começou a organizar documentos sobre nazistas, como Eichmann. Numa carta para Erwin Schülle, diretor da Central para o Esclarecimento dos Crimes do Nazismo, de 1959, e admoestou-o de que o governo da Alemanha não estava fazendo nada para encontrar Eichmann. Não se queria saber quem era o nazista e onde ele realmente estava.

Erwin Schülle “informou que havia ordem de prisão contra Eichmann desde 1956, mas também havia o rumor de que Eichmann se encontrava provavelmente na Argentina ou em algum Estado vizinho de Israel”.

Ao contrário de Isser Harel, do Mossad, Fritz Bauer ainda acreditava na pista da Argentina. Paul Dickopf, do Escritório Federal de Investigação Criminal — e havia sido da SS e continuava sendo aliado de membros da extrema-direita —, tentou dissuadi-lo “informando” que “a pista de Eichmann” na América do Sul “era falsa”. O tiro saiu pela culatra. A partir de então, Fritz Bauer passou a acreditar, ainda mais, que o assassino de judeus estava em Buenos Aires.

No verão de 1959, Fritz Bauer se encontrou, frequentemente, com representantes de Israel, e pressionava por mais rapidez na procura de Eichmann.

Adolf Eichmann: julgamento em Jerusalém | Foto: Reprodução

“Segundo Harel, Bauer havia falado em um segundo informante sobre o paradeiro de Eichmann na Argentina, um homem das SS cujo nome não podia revelar porque poderia pôr em perigo a sua segurança”, relata Bettina Stangneth. O fato é que muitos sabiam do paradeiro do nazista na Argentina. Na verdade, não era mais nenhum segredo.

O segundo informante seria Willem Sassen, que entrevistou exaustivamente Eichmann? Tudo indica que não. Pode-se considerar Paul Dickopf como um informante “indireto”. Pois, quando tentou convencer Fritz Bauer de que Eichmann não estava na Argentina, acabou por robustecer a convicção do procurador alemão de que o exterminador de judeus estava no país de Juan Domingo Perón.

Um amigo de Fritz Bauer, Thomas Harlan, sugeriu que o homem das SS que deu informações ao procurador pode ter sido “Schneider”. “Havia contado sobre as relações de trabalho de Eichmann-Ricardo Klement na Mercedes-Benz.” Ele teria passado as informações funcionais de Eichmann na empresa. Bettina Stangneth procurou a direção da Daimler (Grupo Mercedes-Benz] — que empregou um notório assassino (Eichmann)— em busca de informações sobre Schneider. Mas a empresa não lhe deu nenhuma informação. A única coisa que admitiu dizer foi que não se sabia, na Mercedes-Benz da Argentina e da Alemanha, que Ricardo Klement era Adolf Eichmann.

Bettina Stangneth faz uma “revelação”: “Numa conversa privada, Bauer mencionou que havia um segundo informante judeu além de Lothar Hermann. Ele falou ao seu amigo íntimo [Thomas Harlan] sobre essa fonte graças a quem conheceu as condições de vida de Eichmann na Argentina. Segundo recordava Thomas Harlan, era ‘um brasileiro que havia sido judeu polaco [nota do Jornal Opção: a tradução é literal, mas, na verdade, o homem não havia deixado de ser judeu polonês, ainda que tenha se naturalizado brasileiro], sobrevivente do levante de Sobibor, porém nunca me disse o nome” (a informação está na página 477 do livro da biógrafa).

Stanislaw “Shlomo” Szmajzner, judeu nascido na Polônia, em dois tempos: como partisan russo, ainda adolescente, e, mais tarde, em Goiânia, onde morou durante anos

“Pouco depois do anúncio de Ben Gurion [primeiro-ministro de Israel entre 1955 e 1963] ante o Knesser [parlamento israelense] de que Eichmann se encontrava preso em Jerusalém, surgiu a notícia procedente de Tel Aviv de que um fugitivo polonês havia revelado o paradeiro de Eichmann. Nesse contexto sempre se menciona o Brasil, porque, nessa época, suspeitava-se que Josef Mengele estava nesse país, mas nunca surgiu a palavra ‘Sobibor’”, relata Bettina Stangneth.

“Quarenta e sete pessoas puderam fugir [de Sobibor, um campo de extermínio] graças ao levante dos prisioneiros. No total, sobreviveram ao inferno 67 pessoas. Somente dois dos nascidos na Polônia imigraram para o Brasil no final dos anos 1940: Chaim Korenfeld, nascido em Izbica em 1923, e Stanlislaw ‘Shlomo’ Szmajzner, nascido em 1927 em Pulaby e um dos artífices do levante de Sobibor. Não é muito o que sabemos sobre a vida de Korenfeld no Brasil: chegou ao país em 1949 procedente da Itália. Szmajzner planejou imigrar inicialmente para Israel, mas antes decidiu visitar um familiar que morava no Rio de Janeiro. Chegou ao Brasil em 1947 e ficou no país por toda a vida. Abriu uma joalheria que em dez anos se converteu num negócio próspero. Vendeu-a em 1958 e, com o produto da negociação, comprou uma ilha na selva e se dedicou a criar gado”, conta Bettina Stangneth. Szmajzner morou em Goiás durante anos e se tornou amigo de Pedro Ludovico Teixeira. Na página 509, numa nota de rodapé, a biógrafa acrescenta que, em 1967, Szmajzner “se tornou diretor de uma empresa de reciclagem de papel em Goiás”. Ele morreu em 1989.

Livro-documento do polonês Stanislaw Szmajzner | Foto: Jornal Opção

Szmajzner não morreu em Sobibor porque, sendo ourives, fazia joias (como anéis) e monogramas para os nazistas. Parte do ouro para as peças era retirada dos dentes dos judeus assassinados. O subcomandante do campo de extermínio, Gustav Wagner, foi o primeiro a “perceber o talento” do adolescente. No campo, ele também conheceu o comandante, Franz Stangl. Os pais do menino foram assassinados em Sobibor.

“Muitos anos depois, Szmajzner reconheceu a Stangl em uma rua de Brasília. Graças à pressão efetiva de Simon Wiesenthal”, o nazista “foi levado à Justiça. Gustav Wagner foi identificado em 1978 por um ex-prisioneiro e se suicidou”.

Gustav Wagner: nazista que morreu no Brasil | Fotos: Reproduções

“‘Szmajzner deixou entrever’, segundo outro sobrevivente de Sobibor, ‘que não era totalmente alheio à morte de Wagner’”, anota Bettina Stangneth. Na página 509, numa nota de rodapé, a biógrafa assinala: “O jornalista Mario Chimanovich, que atuava por conta de Wiesenthal, estava persuadido de que se tratou de um assassinato. (…) As fotografias da polícia contradizem a versão de que Wagner havia se enforcado”. Na biografia de Simon Wiesenthal, escrita por Tom Segev, na página 302, consta: “Wiesenthal publicou duas versões das circunstâncias da morte. Numa delas dizia que Wagner se apunhalara, na outra que se enforcara. Chimanovitch [acrescenta-se um “t”] acreditava que Wagner fora assassinado”.

No livro “Fuga de Sobibor — O Relato Verídico da Maior Revolta de Presos em Campo de Extermínio Nazista” (8Inverso, 365 páginas, tradução de Felipe Cittolin Abal), na página 290, Richard Rashke informa: “… em outubro de 1980, o advogado de Wagner anunciou que o nazista havia cometido suicídio na fazenda de Atibaia onde ele trabalhava como capataz. Shlomo deixou subentendido para mim que a morte de Wagner não foi um acidente. Os israelenses o mataram? O Kameradenwerk do Brasil, o submundo nazista, o matou? Shlomo se recusou a explicar sua colocação”.

Sobrevivente de Sobibor, Thomas (Tom, Toivi) Blatt, ao saber que o governo brasileiro não iria extraditar Wagner, ligou para Schlomo e perguntou: “Eu consigo comprar uma arma no Brasil?” Szmajzner respondeu: “Não se preocupe. Alguém vai cuidar de Wagner”.

Segundo a biógrafa, Szmajzner “se inteirou de que Eichmann vivia na Argentina nos fins dos anos 1950. É provável que um judeu polonês residente no Brasil conhecesse o paradeiro de Eichmann. As viagens comerciais entre o Brasil e a Argentina não eram inusuais. (…) Para um homem engenhoso não era difícil fazer investigações na comunidade nazista de Buenos Aires, ainda mais se já soubesse quem e onde procurar. Se se quisesse achar um homem, em 1959, que pudesse levar a cabo uma investigação discreta em Buenos Aires, Szmajzner era o interlocutor ideal. Como não temos razões para duvidar das palavras de Fritz Bauer, é razoável pensar que, de fato, houve dois informantes judeus e ex-homens das SS que lhe deram indícios decisivos para que finalmente se pudesse chegar ao dia do julgamento [de Eichmann] em Jerusalém”.

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