Euler de França Belém
Euler de França Belém

Historiadores mostram Eichmann como uma das figuras centrais do Holocausto. Não era um mero burocrata

Adolf Eichmann tinha consciência absoluta do que era o Holocausto. Não era apenas um funcionário administrativo cumpridor de ordens

Texto publicado pelo Jornal Opção em 2013

Adolf Eichmann: julgamento em Jerusalém, em 1961 | Foto: Reprodução

O filme “Hannah Arendt”, da diretora alemã Margarethe von Trotta, acendeu a polêmica sobre o livro “Eichmann em Jerusalém — Um Relato Sobre a Banalidade do Mal” (Companhia das Letras, 344 páginas, tradução de José Rubens Siqueira), da filósofa judia alemã Hannah Arendt (seu livro foi publicado há 50 anos). Otto Adolf Eichmann não era “a” figura central do Holocausto. As figuras mais importantes, pela ordem, foram Adolf Hitler (austríaco, como Eichmann), Heinrich Himmler, Hermann Göring e Reinhard Heydrich. A cadeia de comando era Hitler-Göring-Heydrich e, frequentemente, Hitler-Himmler-Heydrich. Eichmann era um dos principais auxiliares de Heydrich, inclusive responsabilizando-se por algumas de suas anotações. (“O Carrasco de Hitler — A Vida de Reinhard Heydrich”, de Robert Gerwneth, é o estudo adequado para conhecer um dos chefes do Holocausto.) Hitler foi o arquiteto do Shoah; Göring e Himmler, os engenheiros; Heydrich, o mestre de obras; e Eichmann, um dos pedreiros mais qualificados? É provável que minha fórmula seja quase precisa. Eichmann era o responsável pela logística das deportações e pelo sistema de transporte (trens) para levar judeus (a maioria), ciganos, homossexuais e comunistas para os campos de concentração e extermínio.

Adolf Eichmann: jovem oficial nazista | Foto: Reprodução

Eichmann não tinha a cultura de Joseph Goebbels, não era astuto como Heydrich, Göring e Himmler, não era estrategista como Hitler, não era perspicaz como Albert Speer. Mas não era um zero à esquerda, um mero cumpridor de ordens. Ao contrário do que sugerem alguns autores e, sobretudo, jornalistas, não era um mero burocrata — era um formulador respeitado pela cúpula nazista.

Na Conferência de Wannsee, realizada em 20 de janeiro de 1942, em Berlim, os nazistas decidiram que, no lugar de forçar a emigração, iriam enviar os judeus para o Leste. O objetivo inicial era matar os judeus depois da guerra. Em seguida, decidiram exterminá-los nos campos de Treblinka, Auschwitz-Birkenau, Sobibor, Chelmno, Belzec e Majdanek. Entre 5 e 6 milhões de judeus foram exterminados. Eichmann participou da Conferência.

A seguir, o leitor terá um resumo sobre o que os principais livros a respeito da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) dizem de Eichmann. Nenhum o menospreza como “banal”, “secundário” ou “medíocre”. Não era ideólogo, mas não era nenhum “bobo da corte”, “inocente útil” ou tampouco um mero “funcionário da administração que cumpria ordens”.

“O Terceiro Reich em Guerra — Como os Nazistas Conduziram a

Alemanha ao Desastre, 1939-1945” — Richard Evans

O historiador inglês Richard Evans, no livro “O Terceiro Reich em Guerra — Como os Nazistas Conduziram a Alemanha ao Desastre, 1939-1945” (Planeta, 1038 páginas, tradução de Lúcia Brito e Solange Pinheiro), transcreve o que disse Rudolf Höss: “(…) Adolf Eichmann (…) ‘mostrou que estava completamente obcecado com a ideia de destruir todo judeu em que pudesse pôr as mãos’”.

Evans assinala: “Eles [os carrascos nazistas] não eram burocratas sem rosto. (…) A carreira de homens da SS como Eichmann, Stangl ou Höss revela que eram antissemitas empedernidos. (…) Traduzir o ódio visceral aos judeus do abstrato para atos violentos de assassinato em massa na realidade não se mostrou difícil para eles, nem para vários burocratas do Serviço de Segurança da SS que assumiram a liderança das forças-tarefa no Leste”.

Dada a alta “contaminação” nazista na Alemanha, o governo alemão não estava muito empenhado em “caçar” e “condenar” os carrascos dos campos de concentração e extermínio. “Foi o julgamento de Eichmann que realmente exerceu pressão sobre os alemães ocidentais para agir.” (Livro publicado em 2008 na Inglaterra e em 2012 no Brasil.)

“Império de Hitler — A Europa Sob o Domínio Nazista” — Mark

Mazower

O livro “O Império de Hitler — A Europa Sob o Domínio Nazista” (Companhia das Letras, 801 páginas, tradução de Claudio Carina e Lucia Boldrini), do historiador britânico Mark Mazower, assinala que, quando Reinhard Heydrich foi assassinado, em 1942, Heinrich Himmler “reagiu mandando Eichmann acelerar a Solução Final por toda a Europa. Numa visita a Auschwitz, em 17 de julho de 1942, Himmler disse ao chefe do campo de extermínio, [Rudolf] Höss: ‘O programa de Eichmann vai continuar. (…) Os ciganos vão ser exterminados. E você vai exterminar com a mesma inflexibilidade os judeus que forem incapazes de trabalhar’”. “O eficiente Eichmann fez o melhor que pôde para obedecer”, diz o historiador.

Quando os soviéticos começaram a avançar sobre a Alemanha, em 1944, os nazistas, chefiados por Himmler, aumentaram a matança dos judeus. “As ordens da SS eram: nenhum [judeu] poderia cair vivo nas mãos dos inimigos. Os prisioneiros doentes deviam ser fuzilados, e os campos, desmantelados ou explodidos antes de ser abandonados. O próprio Eichmann parece ter incentivado os comandantes dos campos a matar o maior número possível de judeus.” Mazower mostra que a responsabilidade de Eichmann no genocídio é evidente. (Livro publicado em 2013.)

“A Alemanha Nazista e os Judeus — Os Anos de Extermínio, 1939-

1945” — Saul Friedländer

“A Alemanha Nazista e os Judeus — Os Anos de Extermínio, 1939-1945” (Perspectiva, 836 páginas, tradução de Maria Clara Cescato, Fany Kon, Lyslei Nascimento, Anita K. Guimarães, Newton Cunha), do historiador tcheco Saul Friedländer, ressalta que, mesmo antes da política da solução final, as deportações eram feitas de modo implacável. Eram “organizadas sobretudo por Adolf Eichmann”. Em janeiro de 1939, antes da guerra, Göring pôs Heydrich no comando da emigração judaica. “As operações do dia a dia foram deixadas nas mãos de Eichmann: para todos os efeitos, ele era o ‘chefe de operações’, tanto para as deportações quanto para a emigração dos judeus”, nota um dos maiores pesquisadores do Holocausto. Conclui-se que Eichmann estava no epicentro da política de extermínio dos judeus — não era, de maneira alguma, um personagem secundário. Não era, em verdade, um homem comum. Era um operacional que sabia o que estava fazendo — não era, por assim dizer, “alienado”. (Livro publicado em 2007. No Brasil saiu em 2012.) Vale ler “A Destruição dos Judeus Europeus”¹ (há edições em inglês, francês, alemão e espanhol), de Raul Hilberg.

“Hitler” — Ian Kershaw

Na biografia “Hitler” (Companhia das Letras, 1024 páginas, tradução de Pedro Maia Soares), o historiador britânico Ian Kershaw relata que, na Conferência de Wannsee, realizada em 20 de janeiro de 1942, o governo nazista da Alemanha decidiu sobre a solução final, ou seja, o extermínio dos judeus. Poucas pessoas participaram do encontro dirigido por Heydrich, o segundo homem no combate extremado aos judeus — o primeiro era Heinrich Himmler (ao lado de Göring), com Hitler sendo o chefe supremo. Alguns participantes: Heinrich Müller, chefe da Gestapo, Karl Schoengarth, Otto Lange e Adolf Eichmann.

Dada sua importância, “Eichmann, o especialista do RSHA em deportação”, assumiu “a missão de produzir um registro por escrito da reunião”, escreve Kershaw. “Heydrich não estava organizando um programa existente e finalizado de extermínio em massa em campos de morte. Mas a Conferência de Wannsee foi um passo fundamental no caminho para aquela terrível finalidade genocida”, acrescenta o pesquisador.

Kershaw garante que Eichmann foi “o gerente da solução final”. (O livro saiu em 2008 na Inglaterra e em 2010 no Brasil. A edição brasileira é condensada, mas pelo próprio autor.)

“Os Ditadores — A Rússia de Stálin e a Alemanha de Hitler” —

Richard Overy

“Os Ditadores — A Rússia de Stálin e a Alemanha de Hitler” (José Olympio, 836 páginas, tradução de Marcos Santarrita), do historiador inglês Richard Overy, anota que, em setembro de 1939, Adolf Eichmann foi promovido a chefe do recém-criado departamento de assuntos judeus. “O Departamento IV D4 (logo rebatizado de IV B4) tornou-se o núcleo de todo o programa de perseguição aos judeus, desde o registro e monitoramento político da população judia até sua eventual prisão e deportação para guetos e campos de extermínio no Leste”, escreve Overy.

Eichmann era “psicopata”, como está na moda dizer de quase todos os criminosos cruéis? Overy sugere que não: “Um dos psiquiatras que examinaram Adolf Eichmann após sua captura por agentes secretos em 1960 o declarou inteiramente normal: ‘Mais normal, em todo caso, do que eu após examiná-lo’”.

O nazista Eichmann pode ser visto como um personagem secundário? Não é o que pensa Overy: “O ingresso [de Eichmann] como membro do partido [nazista], e, depois, da SS, levou-o ao grau superior no principal cargo de segurança em 1939; sua maligna eficácia em assuntos judeus o transformou num ator central na organização do genocídio dois anos depois”. (Livro publicado em 2004 na Inglaterra e em 2009 no Brasil.)

“Holocausto — História dos Judeus da Europa na Segunda Guerra

Mundial” — Martin Gilbert

“Holocausto — História dos Judeus da Europa na Segunda Guerra Mundial” (Hucitec, 1022 páginas, tradução de Samuel Feldberg e Nancy Rozenchan), do historiador inglês Martin Gilbert, informa que “os funcionários presentes à Conferência de Wannsee concordaram com a sugestão de Heydrich de que a ‘solução final’ deveria ser implementada em coordenação com Adolf Eichmann, chefe do setor de Heydrich”.

Àqueles que, como Hannah Arendt, se postaram como críticos da “passividade” dos judeus, Martin Gilbert diz que, ao pesquisar para seu livro sobre o Shoah, ficou “surpreso com a amplitude da resistência judaica, da magnífica coragem demonstrada na revolta do Gueto de Varsóvia, aos igualmente magníficos atos individuais de provocação. (…) Os judeus, assim como todos os povos capturados da Europa entre 1939 e 1945, fizeram o que puderam, em condições aterradoras, para desafiar a quem tentava destrui-los”.

Martin Gilbert nota que nazistas mataram judeus antes mesmo de chegarem ao poder.  Em 1930, nazistas mataram oito judeus. Eram “as primeiras vítimas judias da era nazista”. Já em 1933, o regime de Hitler mandava críticos do regime, entre eles judeus, para o campo de concentração de Dachau, próximo de Munique.

“Os primeiros judeus chegaram ao solo alemão em tempos romanos. Judeus haviam vivido na Alemanha por mais de mil anos”, revela o historiador. Uma sinagoga tinha 900 anos. (O livro foi publicado na Inglaterra em 1985 e no Brasil em 2010.)

“Lênin, Stálin e Hitler — A Era da Catástrofe Social” —

Robert Gellately

“Lênin, Stálin e Hitler — A Era da Catástrofe Social” (Record, 796 páginas, tradução de Vítor Paolozzi), do historiador canadense Robert Gellately (radicado nos EUA), sugere que Adolf Eichmann não era “apenas” um funcionário público a serviço de um Estado nazista, um mero cumpridor das leis. Ele era um nazista empenhado em cumprir, com satisfação, a política antissemita que ajudara a criar, ao lado de Heydrich, Göring e Himmler, liderados por Hitler. “Quando Eichmann deixou Viena, em maio de 1939, ele se vangloriou de ter deportado 100 mil ou mais. (…) As deportações forçadas de Eichmann então se tornaram o modelo do momento de como resolver a ‘questão judaica’.”

Eichmann era elogiado pelo empenho, eficiência e compromisso com o nazismo. “Reinhard Heydrich disse que Eichmann havia obtido considerável sucesso em Viena forçando a emigração de 50 mil judeus. No mesmo período, apenas 10 mil haviam deixado a ‘velha’ Alemanha. Heydrich agora queria empregar o ‘modelo Viena’”, ressalta Gellately. Quando se tratava de deportar judeus, Eichmann era o homem convocado para resolver os problemas. Quando chegou o momento de enviar judeus, ciganos e homossexuais para os campos de extermínio, Eichmann montou a logística, o eficiente sistema de transporte e distribuição dos judeus. (O livro foi publicado em 2007 e chegou ao Brasil em 2010.)

Gellately é autor de um livro, “Apoiando Hitler — Consentimento e Coerção na Alemanha Nazista” (Record, 517 páginas, tradução de Vítor Paolozzi), no qual mostra que, além de apoiar o ditador nazista, os alemães sabiam “que o país tinha uma polícia secreta e um sistema de campos de concentração [além das perseguições e assassinatos]. Diferentemente do que foi transmitido, a população alemã fez mais do que aceitar o ‘bem’ que o nazismo trouxe (para a economia, por exemplo) e rejeitar as instituições malignas. Pelo contrário, Hitler teve grande sucesso em obter o apoio da maioria dos cidadãos”.

“Heinrich Himmler — Uma Biografia” — Peter Longerich

“Heinrich Himmler — Uma Biografia” (Objetiva, 911 páginas, tradução de Angelika Elisabeth Köhnke, Christine Röhrig, Gabriele Ella Elisabeth Lipkau e Margit Sandra Bugs), do historiador alemão Peter Longerich, mostra, como os demais livros citados, que Adolf Eichmann não era um nazista qualquer. “Em 24 de janeiro [de 1939], Göring determinou a instituição de um ‘escritório central de emigração judaica’, segundo o modelo da central de emigração criado por Eichmann em Viena, e indicou Heydrich para chefiá-lo”, diz Longerich. “Em 21 de dezembro, Heydrich divulgou que escolhera Eichmann para ser seu delegado especial em se tratando do ‘processamento central de questões da esfera da polícia de segurança na execução das evacuações do leste’.” Isto significa que Eichmann era eficiente.

Longerich nota que Eichmann, ao colher números para uma palestra de Himmler — que confiava em poucas pessoas e exigia números precisos —, “previa que o projeto [de emigração e, depois, da Solução Final] envolveria ‘5,8 milhões de judeus’”. Inicialmente, pensava-se na solução final para depois da guerra. Sobre a Conferência de Wannsee, em 1942, Longerich informa que não se sabe quais foram “as palavras que Heydich usou; somente a ata lavrada (e revisada, após instruções adicionais de Müller) por Eichmann por solicitação de Heydrich, que subsequentemente foi enviada a todos os participantes. (…) A passagem central do discurso de Heydrich dizia: ‘Agora, em vez da emigração, surgiu uma nova possibilidade de solução, a evacuação dos judeus para o Leste, mas para isso será preciso, antes, obter a devida autorização do Führer’. (…) Considerava-se um número de 11 milhões de judeus para a ‘Solução Final’”.

Pode-se dizer que Eichmann era apenas um “pau-mandado” de Heydrich (assassinado em 1942) e Himmler? Não é o que sugere Longerich. “Em julho de 1944, o governo húngaro determinara a suspensão das deportações. Depois de Eichmann ter mandado, por conta própria, deportar mais de 2.700 judeus para Auschwitz na segunda metade de julho, no final de agosto o governo húngaro, sob forte pressão da Alemanha, finalmente concordou com a retomada das deportações.” (O livro foi editado na Europa em 2008 e no Brasil em 2013.)

“A Segunda Guerra Mundial” — Antony Beevor

“A Segunda Guerra Mundial”² (Bertrand, 1095 páginas, tradução de Fernanda Oliveira), do historiador britânico Antony Beevor, nota que, ao contrário dos que disseram que Eichmann era apenas um “personagem menor”, o nazista estava no centro da política de extermínio dos judeus: “Heydrich tinha instruído Adolf Eichmann para redigir uma autorização que Göring assinou a 31 de julho [de 1941]. O documento dava ordens a Heydrich para ‘empreender, por meio de emigração ou evacuação, uma solução da questão judaica’ e encarregava-o ‘de fazer todos os preparativos necessários em termos organizacionais, funcionais e materiais para uma solução completa da questão judaica na esfera de influência alemã na Europa’. Cerca de um mês mais tarde, Eichmann foi convocado para ir ao gabinete de Heydrich, onde lhe foi dito que Himmler recebera instruções de Hitler para prosseguir com ‘a aniquilação física dos judeus’”.

A Conferência de Wannsee, de janeiro de 1942, “foi presidida por Heydrich e secretariada por Eichmann”, escreve Beevor.  “A solução final pretendia englobar mais de 11 milhões de judeus, de acordo com os cálculos de Adolf Eichmann. Este número incluía aqueles que se encontravam em países neutros, como a Turquia, Portugal e Irlanda, assim como na Grã-Bretanha, o inimigo invicto da Alemanha”, acrescenta o historiador. Nota-se, mais uma vez, que Eichmann era uma figura central da política de extermínio do nazismo. O historiador inglês observa que, se não era um homem de uma cultura privilegiada, Eich­mann não era néscio. “Eichmann, outro amante do violino, jogava xadrez com Müller uma vez por semana”, nota Beevor. Ele até citava Kant. Henrich Müller era o importante chefe da Gestapo. (O livro foi publicado na Inglaterra e em Portugal em 2012.)

“Terra de Sangue — A Europa Entre Hitler e Stálin” — Timothy Snyder

Em “Terra de Sangue — A Europa Entre Hitler e Stálin” (Record, 615 páginas, tradução de Mauro Pinheiro), o historiador Timothy Snyder, da Universidade Yale, assinala “que, especialista em deportação, Adolf Eichmann foi convocado no outono de 1939 para aperfeiçoar a eficácia da operação. Eichmann já havia mostrado suas capacidades ao acelerar a emigração de judeus austríacos de Viena”. (O livro foi lançado em 2010 e, no Brasil, em 2012.)

Noutro livro, “Terra Negra — O Holocausto Como História e Advertência” (Companhia das Letras, 484 páginas, tradução de Donaldson M. Garschagen e Renata Guerra), Timothy Snyder escreve: “Em janeiro de 1940, Eichmann, subordinado de Heydrich, fez uma proposta a Stálin: A União Soviética não estaria disposta a ficar com 2 milhões de judeus da Polônia ocupada pelos alemães? Stálin não estava interessado em receber na URSS massas indiscriminadas; a admissão de judeus parece ter sido uma das poucas solicitações nazistas que ele rejeitou enquanto durou sua aliança com Hitler”.

“A Tempestade da Guerra — Uma Nova História da Segunda Guerra

Mundial” — Andrews Roberts

O historiador britânico Andrew Roberts, autor de “A Tempestade na Guerra — Uma Nova História da Segunda Guerra Mundial” (Record, 811 páginas, tradução de Joubert de Oliveira Brízida), diz que, até a Conferência de Wannsee, em Berlim, em janeiro de 1942, a perseguição aos judeus tinha um quê de improvisação.

“Não foi propriamente o início do Holocausto, visto que o extermínio em massa em Birkenau vinha ocorrendo desde o outono. (…) A finalidade da reunião era colocar Reinhard Heydrich, o chefe da Polícia de Segurança (SD), de 37 anos, no centro do processo, enquanto era também estabelecida inquestionável responsabilidade coletiva. Depois daquele encontro, nenhum departamento do Reich poderia alegar ignorância quanto ao fato de que o genocídio era política oficial do governo”. Adolf Eichmann disse, em 1961, que, no encontro de Wannsee, “falou-se livremente, sem eufemismos”.

Roberts escreve que “o historiador da conferência Mark Roseman descreve o Protocolo [de Wannsee] como ‘a declaração mais explícita e mais programática da maneira nazista de cometer o genocídio’. (…) O genocídio passou a ser rapidamente estruturado depois do encontro de Wannsee. (…) As anotações de Eichmann feitas na reunião sugerem que, embora estivessem presentes 27 homens, Heydrich ocupou cerca de três quartos do tempo falando. ‘Wannsee’, escreve Roseman, foi ‘um marco indicativo de que o genocídio se tornara política oficial’. Antes de Wannsee, só 10% do número total dos judeus vítimas de Hitler tinham sido executados; nos 12 meses seguintes, mais 50% foram liquidados”. (“Os Nazistas e a Solução Final — A Conspiração de Wannsee”, de Mark Roseman, editora Zahar, 168 páginas.)

Se Heydrich era a figura central do encontro, subordinado apenas a Hitler, Göring e Himmler, Eichmann era uma figura de proa. “Não apenas todos concordaram de bom grado com as propostas, como ocorreu um fato absolutamente inesperado: uma disputa entre os presentes para ver quem se sobressaía mais e quem era mais veemente nas reivindicações por uma solução final para a questão judaica”, disse Eichmann, em 1961, em Jerusalém.

Roberts registra que Eichmann “se vangloriou para um amigo de que ‘saltaria de alegria dentro de seu túmulo’ por seu papel na morte de 4 milhões de judeus”. Naturalmente, o nazista não era “tão-somente” um funcionário público, um burocrata sem responsabilidade e sem consciência. O historiador nota que, na Alemanha, “ninguém foi sentenciado por se recusar a matar judeus; os oficiais arriscavam suas carreiras, e não suas vidas, quando se opunham a Hitler em termos de princípios militares. (…) Eles [os nazistas que mataram judeus, ou, como Eichmann, os enviaram para a morte certa “podiam estar ‘apenas obedecendo ordens’, porém não o fizeram por bem fundamentado receio quanto às suas vidas. (O livro saiu na Inglaterra em 2009 e no Brasil em 2012.)

“KL — Una Historia de los Campos de Concentración Nazis” —

Nikolaus Wachsmann

O livro “KL — Una Historia de los Campos de Concentración Nazis”³ (Crítica, 1100 páginas, tradução de Cecilia Belza e David León), do historiador alemão Nikolaus Wachsmann, professor da Universidade de Londres, é importante obra de referência (é o que diz Ian Kershaw). “Eichmann visitou Auschwitz, repetidas vezes, para coordenar a chamada ‘Solução Final’. Estabeleceu uma estreita relação com seu ‘querido camarada e amigo’ Rudolf Höss.” Ambos eram “administradores entusiastas do assassinato massivo.”

Eichmann visitou Auschwitz pela primeira vez em março ou abril de 1942. Ele e Höss conversaram sobre as deportações de judeus da França e da Eslováquia. “Eichmann provavelmente disse” a Höss “que os transportes de judeus escolhidos para extermínio imediato logo chegariam da Alta Silésia.”

Washsmann relata que o comandante de Auschwitz, Höss, informou Eichmann “sobre seus experimentos com Zyklon B e ambos concordaram em utilizá-lo no genocídio dos judeus”. Os massacres com gás se tornaram frequentes.

Em 1944, como estavam chegando judeus em “excesso” a Auschwitz, que estava superlotado, Höss protestou. Mesmo assim, “Eichmann continuou pressionando para aumentar ainda mais o número de trens, alegando ‘força maior’ em tempo de guerra”. Eichmann, corroborando seus chefes, queria matar mais judeus.

Homens como Höss e Eichmann não era autômatos, meros subordinados cumpridores de ordens, com as quais “nem sempre” concordavam. Na verdade, Eichmann sabia o que estava fazendo, estava inteirado de toda a política do Holocausto. Não era uma “vítima” empurrada pelo sistema nazista. Era um agente ativo, participativo, um dos construtores do sistema. (O livro foi publicado na Espanha em 2015. É a edição consultada por mim.)

“O Holocausto — Uma Nova História” — Laurence Rees

No livro “O Holocausto — Uma Nova História”4 (Vestígio, 574 páginas, tradução de Luis Reyes Gil), o historiador britânico Laurence Rees relata que Eichmann começou a prender judeus, na Áustria, já em 1938. Além de deportar, o nazista também roubava os judeus, em tese, para o governo alemão.

Em 1944, aproximando-se do fim da guerra, com os Aliados avançando, as nazistas continuaram matando judeus, por exemplo, húngaros. Rees relata: “Eichmann estava também diretamente envolvido” nas “tentativas de extorquir bens de judeus húngaros, e nesse processo fez uma das mais extraordinárias propostas da Solução Final. Em 25 de abril de 1944, conheceu um influente judeu de Budapeste chamado Joel Brand e comunicou-lhe que os nazistas se dispunham a deixar livres ‘um milhão’ de judeus, desde que fosse pago um resgate adequado. ‘Estamos interessados em bens, não em dinheiro’, disse Eichmann”. Brand conversou com os Aliados, que, depois de ouvirem os soviéticos, rejeitaram a proposta nazista.

Uma vez, Himmler disse para Eichmann: “Se até o momento você exterminou judeus…”. É isto: Eichmann, como o chefão Himmler, exterminava judeus… (O livro foi publicado em 2017 na Inglaterra e em 2018 no Brasil)

Nota

¹ “A Destruição dos Judeus Europeus” (1664 páginas, dois volumes, tradução de Carolina Barcellos, Laura Folgueira, Luís Protásio, Maurício Tamboni e Sonia Augusto), de Raul Hilberg, saiu em português pela Editora Amarilys.

² A Editora Record publicou, em 2015, “A Segunda Guerra Mundial” (952 páginas, tradução de Cristina Cavalcanti), de Antony Beevor. A edição que consultei é portuguesa.

³ Só tive acesso a este livro de Nikolaus Waschsmann, publicado em 2015, em 2019. Portanto, a síntese foi acrescentada posteriormente à publicação do texto.

4 “Holocausto — Uma Nova História”, publicado em 2017 na Inglaterra, saiu no Brasil em 2018, quando foi consultado por mim. Portanto, não figurava no texto publicado na edição impressa do Jornal Opção. Acrescentei a síntese agora.

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