Euler de França Belém
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José de Souza Martins diz que reforma agrária do PT é inferior à de José Sarney

Professor da USP e de Cambridge diz que “não adianta dizer que o que aconteceu com o PT é culpa da direita. É tudo culpa do PT. Não há inimigos atuando nos bastidores. Quem está destruindo o PT são os amigos do PT”

JOSE DE SOUZA MARTINS 640x360

O sociólogo José de Souza Martins, professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP), ex-professor de Cambridge e maior especialista no estudo dos conflitos fundiários no Brasil, concedeu uma entrevista do balacobaco à revista “Veja” (edição 2463, de 3 de fevereiro de 2016). É possível discordar de uma ou outra análise, mas no geral a entrevista é supimpa e deveria provocar um debate intelectual aceso — o que não ocorreu.

José de Souza Martins lançou, na semana passada, o livro “Do PT das Lutas Sociais ao PT do Poder” (Contexto, 256 páginas). O repórter Leonardo Coutinho pergunta por qual motivo o sociólogo afirma que “o PT é um partido conservador”. A resposta é meio enviesada e vamos tentar destrinchá-la. “O Partido dos Trabalhadores surgiu no ABC paulista como uma alternativa ao comunismo. Não que fosse ideologicamente contra os comunistas, mas nunca chegou a ser um partido de esquerda. Tratava-se, do ponto de vista formal, de um partido católico. O PT foi gestado desde os anos 50 pelo primeiro bispo de Santo André, dom Jorge Marques de Oliveira, como uma espécie de mediação conservadora para a luta operária. Dom Jorge me disse que os trabalhadores do ABC ficavam no Centro Operário Católico jogando pingue-pongue. Ele os incentivava a ir para a porta de fábrica. Dom Jorge inventou Lula, antes que Lula soubesse disso, ao criar as bases para o surgimento do PT.”

José de Souza Martins foto da capa do livro 46130288

Antes de seguir adiante, mesmo considerando que a resposta é curta, sem abrangência, parece que há um equívoco. Por que um partido sob influência católica não pode ser de esquerda? Frei Betto, ligado ao PT, por ser católico, não é de esquerda? O religioso é de esquerda — um de seus ideólogos mais respeitados —, aliado de Fidel Castro e Lula da Silva. Outros padres e bispos, apenas por pertenceram à Igreja Católica, não podem ser de esquerda? Leonardo Boff, por exemplo, é de direita ou de centro? É de esquerda. Mesmo se a Igreja Católica, por intermédio de alguns de seus integrantes, proeminentes ou não, esteve na raiz da fundação e da formatação do ideário petista, na década de 1980, isto não significa que tenha permanecido, nos últimos 35 anos, como organização hegemônica no PT. José Dirceu, mais ligado ao pensamento do regime de Fidel Castro e Raúl Castro em Cuba, não era e não é monitorado pela Igreja Católica. José Dirceu é um dos artífices do PT, em toda a sua história, tanto para radicalizá-lo quando para moderá-lo. O PT não é comunista, mas é de esquerda, com várias correntes socialistas e socialdemocratas. E é muito provável que, dado ao seu crescimento, a influência católica esteja em declínio. Pode-se dizer que as estruturas da Igreja Católica não são mais úteis ao PT, exceto, quem sabe, em cidades menores. É possível que religiosos da Igreja Católica se tornaram subordinados às correntes dominantes do partido — e não o contrário.

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Não é o caso de José de Souza Martins, mas há alguns analistas que, ante a corrupção desenfreada dos governos petistas, sugerem que o PT não é mais de esquerda. É como se dissessem, com outras palavras, que “a esquerda não rouba”. É evidente que, como a direita e o centro, a esquerda rouba e também comete erros na política de “incentivo” ao crescimento e ao desenvolvimento. Ao cometer equívocos, alguns deles deliberados, não deixa de ser de esquerda.

O repórter Leonardo Coutinho faz uma pergunta pertinente: “Se o PT não é de esquerda, por que tende a demonizar tudo o que é divergente como sendo de direita?” A resposta de José de Souza Martins: “A explicação está, mais uma vez, na influência da Igreja. Isso vem do dualismo Deus e diabo, o bem e o mal. Como aprenderam a pensar a política em termos dicotômicos, os petistas têm, em grande parte, dificuldade para lidar com a diversidade. Para eles, se o PT é de esquerda e a esquerda é o PT, qualquer coisa que difira disso é direita”. O sociólogo subestima, ao apontar o ideário da Igreja Católica como dominante no maniqueísmo do PT, que este maniqueísmo “sobrevive” na esquerda comunista. A origem pode ser a mesma, o cristianismo, porém, no caso do PT, pode ser mais uma herança da esquerda comunista e socialista do que resultado da herança católica. Pode até ser um somatório, mas não há um domínio exclusivo da mentalidade católica.

“É uma bobagem quando falam que o PSDB é direita. O PSDB é tão socialdemocrata quando o PT. A direita de que falam os petistas é uma invenção. Nós não temos direita e esquerda no Brasil. (…) Embora Lula seja mais aberto a ideias de fora, o partido é totalmente intolerante a qualquer ponto de vista que não seja o dele. Essa é a característica do PT”, disserta José de Souza Martins. O filósofo italiano Norberto Bobbio escreveu um livro, um longo ensaio, no qual afirma que esquerda e direita, ao contrário do que costumeiramente se pensa, não desapareceram. Portanto, no caso brasileiro, é temerário sugerir que esquerda e direita não existem. Na verdade, existem, mas disfarçam seus pensamentos. A esquerda aproxima-se do centro, suavizando seu discurso, para que seja assimilada pela sociedade, que não tem muita simpatia pelas ideias socialistas. A direita aproxima-se do centro com o mesmo discurso: suavizar o discurso e tornar-se mais palatável às maiorias. O peemedebista José Sarney é de direita, mas (re)produz um discurso de centro. O centro no Brasil deveria ser a socialdemocracia? Quase sempre, o centro é o “espaço” em que militam políticos ambíguos de direita e de esquerda. A ambiguidade é construída para torná-los mais aceitáveis à maioria do eleitorado. O que se precisa fazer, e José de Souza Martins não fez e não faz na entrevista, é estudar de maneira mais detida a esquerda e a direita patropis.

“As classes sociais não existem mais”

Em seguida, do ponto de vista da esquerda, José de Souza Martins profere uma heresia (livro recente do economista francês Thomas Piketty reforça sua ideia): “Lula e o PT acham que falam na perspectiva da luta de classes. Mas, para haver luta de classes, as classes teriam de existir. No mundo inteiro, elas estão submersas. As classes sociais não existem mais. No Brasil, a classe operária almeja o consumo, a educação. Não está lutando por bandeiras de classe social. As próprias elites, para recorrer a um termo muito usado pelo PT, estão divididas. (…) Não há uma estrutura de classes que sustente o discurso petista”.

A tentativa de dividir o país é apontada por José de Souza Martins como resultado “da política maniqueísta do PT”. “Os opressores são todos aqueles que não são petistas. Trata-se de uma visão simplista do país. Prova disso é que muitos integrantes da elite, alguns dos quais estão entre os mais ricos do Brasil, são visceralmente ligados ao PT, como ficou comprovado nas investigação de corrupção na Petrobrás”, afirma o sociólogo. Difícil discordar de sua análise.

Reforma agrária do PT é inferior à de Sarney

O falecido bispo da Cidade de Goiás dom Tomás Balduíno costumava dizer que Fernando Henrique Cardoso, quando presidente da República, não quis fazer a reforma agrária. Ele é citado por José de Souza Martins. “O grande partido dos setores progressistas da Igreja não fez o esperado. A reforma agrária do PT é inferior até à que foi realizada no governo de José Sarney, em termos de quantidade e intensidade.”

“Para ser um partido do povo, o PT jamais deveria ter aspirado ao poder. Deveria ter se mantido na missão de fiscalizar, investigar e apontar falcatruas de toda ordem. Antes de conquistar os postos do Executivo, o PT definia que todo poder era corrupto. Só que ninguém chega ao poder fazendo de conta que não está no poder. Lula era mestre nisso. Descia o sarrafo no poder como se não tivesse nada a ver com ele”, afirma José de Souza Martins. Parece uma boa ideia? Parece. Mas é uma tese de quem tem, no fundo, um pensamento parecido com o do PT. É possível ter influência política ampliada se, um dia, não se almeja o poder? Na vida real, não é. O PT (e nenhum outro partido) jamais teria condições de ser um poder, digamos, “moderador”. Nenhum partido pode ficar no Olimpo só atacando quem está no poder (partidos que só denunciam e não se tornam propositivos e alternativos “cansam” a sociedade). Por quê? Porque não é uma instituição. São as instituições que, consolidadas, arbitram, não para criar uma sociedade pura, e sim para que a ideia de cidadania não seja decorativa. Instituições sólidas não extinguem, mas reduzem a corrupção.

Corporativismo criou religiosa petista

Uma das análises precisas de José de Souza Martins tem a ver com o PT e corporativismo. “Nenhuma outra legenda se organizou em padrões tão corporativos quanto o PT. A mentalidade corporativa dos petistas dá ao partido muita força de mobilização. Trata-se de uma lealdade quase religiosa. Está ruim [o quadro atual do país e do partido], mas é o PT”, sublinha o pesquisador. O PT, errado ou certo, é uma bússola ou uma religião laica. O filósofo britânico John Gray escreveu um livro, “Missa Negra”, no qual diz que o marxismo é filho de um estranho cruzamento entre o cristianismo (a ideia de que é possível a igualdade e o paraíso, o comunismo) e o positivismo (a visão da história como uma coisa linear). É religião tramada pela filosofia e é filosofia articulada pela religião.

Norberto Bobbio bobbio-norberto1

Norberto Bobbio (foto acima) escreveu que os fins não justificam os meios, mas os meios podem muito bem corromper os fins. É o mesmo que conclui, com outras palavras, José de Souza Martins: “Muita gente dentro dos movimentos sociais e do PT cultivava a ideia de que era possível associar-se ao capitalismo para expropriá-lo. A intenção era unir-se a ele para comê-lo por dentro. Deu tudo errado. Acreditava-se na possibilidade de uma corrupção altruísta, a ideia de que práticas arraigadas como a propina dos 10% para ganhar uma concorrência estavam liberadas desde que o dinheiro voltasse para o partido. Mas era corrupção do mesmo jeito, e, como já comprovou a Justiça, os desvios foram muito além do pretenso altruísmo”. O roubo, se começou para o partido, acabou beneficiando figuras do partido. O enriquecimento partidário levou ao enriquecimento pessoal de vários integrantes do PT.

Sobre Lula da Silva, o maior líder do PT, José de Souza Martins afirma: “Lula, por ser muito inteligente e hábil, sempre agiu de maneira a não parecer o responsável por aquilo que corria paralelamente ao gabinete presidencial”.

Cassação do registro do PT

Inquirido sobre como avalia a proposta de cassação do registro do PT, feita pelo tucanato, José de Souza Martins é reticente: “O Brasil não sairá ganhando se conseguirem destruir o PT. Mas o país também não será beneficiado com a permanência deste PT aparelhável e instrumentalizável no poder. O PT tem de amadurecer e virar um partido moderno, o que não conseguiu até hoje. Não adianta dizer que o que aconteceu com o PT nos últimos anos é culpa da direita. É tudo culpa do próprio PT. Isso é o mais surpreendente. Não há inimigos atuando nos bastidores. Quem está destruindo o PT são os amigos do PT”.

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