Elder Dias
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Jornalistas se tornam celebridades e pulam para a política. É válido?

De Antônio Britto a João Doria, a mídia, especialmente pela TV, fez surgir celebridades que se tornaram (ou não) bons políticos

O ex-governador do RS Antônio Britto, como porta-voz do presidente eleito Tancredo Neves, em 1985 | Foto: Reprodução

O primeiro jornalista de que este colunista se lembra que galgou um cargo eletivo depois de ficar famoso diante das câmeras foi Antônio Britto, jornalista da Rede Globo em Brasília que em 1985 se tornou porta-voz do presidente eleito Tancredo Neves.

Na época, o fato de ser “apenas” repórter da emissora líder de audiência não fazia ninguém tão célebre. Mas o insólito afetou o caminho de Britto: Tancredo teve de ser internado às pressas às vésperas de sua posse, em 15 de março, e desde então a aparição do porta-voz para dar o boletim médico do paciente passou a ser mais importante do que qualquer programação da TV no dia. Em 21 de abril, Antônio Britto apareceu para dar a má notícia: o presidente eleito para fazer a transição da ditadura para a democracia não resistira. A cena se eternizou e é apresentada praticamente toda vez que, por algum motivo, se relembra a morte de Tancredo Neves.

O repórter gaúcho foi convidado a se filiar ao PMDB e foi eleito e reeleito deputado federal, depois chegou ainda a ministro da Previdência Social, no governo de Itamar Franco, e governador do Rio Grande do Sul. Uma carreira política de sucesso e sem grandes polêmicas, é preciso ressaltar.

Britto tinha realmente vocação para a política? Pode ser até que seja provável, já que cobria a área e entendia bem os bastidores – condição que por si só, no entanto, não qualifica para a vida pública.

O fato é que a chegada à política via mídia traz cada vez mais profissionais das redações, especialmente os que se tornam estrelas da TV. É uma característica dos tempos midiáticos: as próprias emissoras investem no uso da imagem de seus profissionais para mostrar uma faceta mais popular. Anunciando os programas noticiosos aparecem, como uma espécie de garotos e garotas-propaganda, a própria turma da redação. Isso vale nacionalmente para a Globonews e localmente para o Grupo Jaime Câmara, apenas a título de exemplo.

Nacionalmente, o que não faltam são nomes que galgaram mandato eletivo depois de sucesso nos meios de comunicação: o senador por Goiás Jorge Kajuru (Podemos) é o exemplo mais próximo; João Doria, o governador de São Paulo e pré-candidato do PSDB à Presidência, é o mais destacado na atualidade.

Mas não necessariamente é preciso ser jornalista ou trabalhar na TV ou no rádio para ser elevado a celebridade. O caso do delegado Waldir Soares (PSL), eleito e reeleito deputado federal por Goiás, é exemplar para mostrar que as aparições recorrentes podem servir ao reconhecimento futuro pelo espectador que também é eleitor. Um exemplo bem mais claro? O presidente Jair Bolsonaro (PL), que alcançou fama como político radical, exótico ou sem noção – dependendo de quem o julga – por frequência assídua em programas de entretenimento como o Superpop, de Luciana Gimenez, e o CQC, comandado por Marcelo Tas.

Além de Kajuru, em Goiás há vários outros parlamentares que fizeram fama por conta, parcial ou totalmente, do poder midiático – na Assembleia, há o radialista Humberto Aidar (MDB) e o apresentador de TV Alysson Lima (Solidariedade). E podem vir mais por aí: o ex-apresentador do Jornal Anhanguera Matheus Ribeiro, depois de uma temporada em Brasília, está de volta em outra emissora (TV Goiânia) e já foi assediado por pelo menos dois partidos, MDB e Novo.

Matheus é assumidamente gay e também já tem militância política na trajetória – é filiado ao PSB e teve também fichas no PCdoB e no Patriota. Tem postura combativa em frente às câmeras e ficou célebre pelo bordão “tchau, brigado!” com que encerrava as transmissões do telejornal noturno da TV Anhanguera. Parece ter tarimba para enfrentar a carreira política. Se será eleito? As chances são boas, principalmente para uma Assembleia Legislativa. Se será bom político? Isso só o tempo dirá – e às vezes depois de muito tempo.

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