Euler de França Belém
Euler de França Belém

Jornalista Malu Gaspar escreve O Capital no Século 21 no Brasil segundo São Eike Batista

Livro prova, com riqueza de detalhes, que, mesmo antes de produzir já vendia ações no mercado financeiro, Eike Batista, criador do Grupo X, havia se tornado o sétimo maior bilionário do mundo

O livro de Malu Gaspar fornece uma descrição precisa de como funciona parte do capitalismo moderno: é mais papel, ações, do que produção / Fernando Leite/Jornal Opção

O livro de Malu Gaspar fornece uma descrição precisa de como funciona parte do capitalismo moderno: é mais papel, ações, do que produção / Fernando Leite/Jornal Opção

“Tudo ou Nada — Eike Batista e a Verdadeira His­tória do Grupo X” (Re­cord, 545 páginas), de Malu Gaspar, editora da revista “Veja” no Rio de Janeiro, não é um “livro de oportunidade”. Porque, atilada e rigorosa, a repórter acompanha a situação do empresário e de suas empresas desde 2005. Depois de 10 anos estudando-os, publica um livro tão bem pesquisado e escrito, com uma riqueza de detalhes, que parece que a autora não fazia outra coisa na vida a não ser acompanhar e bisbilhotar o brasileiro que foi o sétimo maior bilionário do mundo e o líder do Brasil e, também, seus principais executivos. A obra, de tal maneira matizada, com informações amplamente confrontadas e nuançadas, não pode ter sido pesquisada e elaborada às pressas. É a principal radiografia de um grande grupo empresarial patropi.

Não deixa de ser surpreendente que o capitalismo financeiro de Eike Batista — quase tudo puro papelório — tenha sido explicado, da maneira mais ampla e objetiva possível, não por um economista, e sim por uma jornalista. Fica-se com a impressão, insisto, de que a autora trabalhava ao lado do empresário e de seus principais executivos. O criador do Grupo X não quis falar com a repórter, mas parece, pela qualidade e detalhamento das informações, que foi o único que não se abriu. Malu Gaspar, com sua capacidade de entender e explicar os negócios do mundo financeiro e, também, o homem Eike Batista lembra o Gay Talese do livro “Fama e Anonimato”, no qual há um perfil excepcional de Frank Sinatra. O jornalista americano não falou com o cantor, que estava resfriado e não quis atendê-lo, mas escreveu um texto excelente e de alta legibilidade sobre o artista mais celebrado dos Estados Unidos no século 20.

O livro de Malu Gaspar merece ser adotado nas principais faculdades de economia e jornalismo de todo o mundo. É exemplar.

No Brasil há o hábito de se amar ou de se odiar, sempre de maneira passional, os chamados grandes personagens da história política e empresarial. Malu Gaspar não julga Eike Batista moralmente, ou melhor, se o faz, deixa que as informações, os dados, e diferentes pessoas, inclusive com o registro exato dos argumentos contrastivos do empresário, falem por si. Um financista disse, depois de ouvir o ex-bilionário, que ele “mentia muito”. Era um autêntico Pinóquio. Pior: parecia acreditar em suas mentiras, ou, se não acreditava, eram-lhe úteis para ganhar dinheiro. Daria um marqueteiro de primeira linha. Exibir-se como bilionário, um dos primeiros da lista da revista “Forbes”, não era aleatório. Era uma maneira de atrair mais capital para seus negócios.

Quando caiu, com uma dívida superior a 65 bilhões de dólares, Eike Batista passou a culpar seus principais executivos, como Paulo Mendonça, o dr. Oil, banqueiros nacionais, como André Esteves, do BTG Pactual, e internacionais e até o governo petista de Dilma Rousseff, que, a bem da verdade, tentou salvá-lo da derrocada final, mas não conseguiu. O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, ajudou o quanto pôde, mas tinha um limite, afinal, os negócios de Eike Batista não eram do Brasil, e sim dele, como empresário.

O dr. Oil é um dos personagens mais fascinantes da ascensão e queda do Grupo X. O geólogo, que idolatrava e era idolatrado por Eike Batista, teria superestimado as informações sobre a quantidade de petróleo dos campos controlados pela OGX. O livro é preciso ao mostrar que as estimativas eram mesmo superestimadas, mas Eike Batista não foi enganado. Paulo Mendonça e seus aliados no Grupo X diziam exatamente aquilo que o chefão queria ouvir.

Tanto que, no caso dos poços de petróleo, o próprio empresário inflava os dados divulgados pelos geólogos. O número maior apresentado pelos geólogos e executivos era aquele que Eike Batista divulgava ao mercado — e sem as ressalvas e ponderações dos profissionais.

Pode-se dizer que o mercado foi enganado por Eike Batista e seus executivos? Possivelmente, não. Desde 1997, pelo menos, que canadenses divulgavam informações explicando que os negócios de Eike Batista eram uma bomba ambulante. Uma revista do Canadá, a “Canadian Business”, o colocou na capa com o título de “Homem caos”. Data: 1999. Da refrega com os canadenses, envolvendo a TVX, o Indiana Jones brasileiro (como chegou a ser chamado) escapou praticamente ileso.

O que se pode sugerir é que, na área financeira, ninguém ilude ninguém. Só bagrinhos são (quando são) enganados. Mas financistas poderosos raramente perdem, e, se perdem alguma coisa, é porque apreciam correr riscos. Muita gente ganhou dinheiro com os negócios de Eike Batista — a rigor, o principal perdedor. Os executivos ganharam milhões e, ao saírem do Grupo X, conseguiram montar negócios próprios e compraram casas, apartamentos e automóveis de alto luxo. O economista francês Thomas Piketty, autor do livro “O Capital no Século XXI”, diz que os executivos não podem mais ser considerados trabalhadores comuns, pois têm participação nos lucros dos empreendimentos. Talvez seja possível nominá-los de “capitalistas honorários”.

Malu Gaspar, jornalista, escreveu uma espécie de O Capital no Século 21 no Brasil / Roberto Teixeira

Malu Gaspar, jornalista, escreveu uma espécie de O Capital no Século 21 no Brasil / Roberto Teixeira

Porém, se suspeitava de Eike Batista, por que o mercado financeiro deu-lhe corda, quer dizer, mais dinheiro? Porque o empresário, se não descobriu o ovo de Colombo do capitalismo financeiro, deu-lhe tonalidades ousadas — o esplendor do novo explorador, o indivíduo que balança a história. Aliás, quem não aderia às suas ideias “delirantes” era chamado de calça curta por Eike Batista. Antes mesmo de produzir alguma coisa, como petróleo, e de construir portos, como o de Açú, no Rio de Janeiro, vendia ações e se tornou bilionário. O que vendia, e com rara habilidade, eram papéis, quer dizer, sonhos. Acima de tudo, como se percebe hoje, era um vendedor de predicados múltiplos, não um grande empresário da estirpe de Antônio Ermírio de Morais, Abílio Diniz, Roberto Marinho, Jorge Paulo Lehman, Walter Moreira Salles, Olavo Setúbal. Não comercializava produção, e sim o que iria produzir. Todos acreditaram nisso, teoricamente, porque todos estavam ganhando dinheiro com o capitalismo à Eike Batista. Trata-se do capitalismo financeiro levado ao extremo — quase como fetiche (o sonho como mercadoria). É provável que, se pudesse estudar a trajetória impressionante do empresário, o filósofo e economista alemão Karl Marx se apaixonaria pelo caso. Talvez o apresentasse não como um mero golpista ou uma anomalia do sistema, e sim como uma parte radicalizada, quase uma fissura, do capitalismo financeiro. Diferente mas não muito da história da quebra impensável do banco Lehman Brothers e das jogadas do banqueiro Bernard Madoff.

O capital no século 21, diria Marx, é um pouco do que Eike Batista fez: nada ou quase nada de produção, com ações sobrevalorizadas nas bolsas de valores, e um empresário rapidamente se incluindo na elite bilionária internacional. O capitalismo ou qualquer outro sistema econômico — o que derrubou o socialismo? A escassez de produção e a baixa produtividade de suas economias — não pode prescindir da produção, mas está imerso até a raiz dos cabelos no mercado de ações, em que realidade e fantasia se misturam. Há até um certo delírio, digamos, entremeado pelo racionalismo em tempo integral dos banqueiros e dos empresários.

O que Eike Batista de fato fez de extraordinário? Primeiro, claro, se tornar bilionário, e rapidamente, tornando-se conhecido internacionalmente a partir de ações num país que, embora entre os mais ricos do mundo, é apontado como da periferia do capitalismo (a produção de commodities é um “sintoma”). Segundo, o empresário deu uma “volta” no capitalismo financeiro — em gigantes do Canadá, da Austrália, da Inglaterra, dos Estados Unidos, da Alemanha e da Ásia —, ao se apresentar como uma espécie de ás do, por assim dizer, “desnegócio”. Ele “papou” todos — até ser “devorado” sem choro nem vela.

Na semana passada, um juiz foi pego num Porsche de Eike Batista, que havia sido arrestado pela Justiça, e provocou escândalo nacional. O escândalo é merecido, porém não se compara à crise provocada pelo empresário nas contas de grupos econômicos nacionais e internacionais — bancos, fundos (um deles de professores) e indústrias — e até do governo brasileiro, pois o BNDES e até o Fundo da Marinha Mercante negociaram com os empreendimentos X. Perto do que Eike Batista fez, a ação do juiz deve ser tributada às bobeiras que homens, mesmo os de bem — como parece ser o caso do magistrado —, cometem.

Eike Batista deixou de ser bilionário, mas ainda é milionário. Malu Gaspar relata que tem contas bancárias na Suíça e no Panamá. O empresário tinha proteção política? O ex-governador Sérgio Cabral (PMDB), do Rio de Janeiro, era um de seus padrinhos. Também mantinha ligações estreitas com Lula (PT) — que, inicialmente, o avaliava como “aventureiro” — e com o senador Aécio Neves (PSDB). Ele é filho do notável executivo Eliezer Batista.
Uma informação curiosa é que Eike Batista começou seu “capitalismo” longe do capital do Estado. Depois, ao crescer, buscou o Estado como “sócio-patrocinador”.

A história vai julgar Eike Batista como visionário, maluco ou ilusionista? É cedo para avaliar, sugere Malu Gaspar. l

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