Euler de França Belém
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Jornalismo grátis é uma ilusão “terrível”, diz Rogério Christofoletti

Professor da Universidade de Santa Catarina afirma que é preciso convencer o público de que tem mais a ganhar se mantivermos viva uma indústria jornalística

O mundo digital oferece ao jornalismo um público cada vez mais ampliado. O acesso é multiplicado. Mas não se descobriu caminhos para aumentar o faturamento em alta escala com o objetivo de manter estruturas de qualidade mais dispendiosas. Não à toa as empresas estão demitindo e cortando custos. Vários jornais e revistas — como agora a “Ludovica”, de “O Popular” — estão migrando para a internet. Porque não fatura o suficiente para os proprietários pagaram os custos, investirem em modernização do produto e terem lucros. Fica-se com a impressão de os meios de comunicação tradicionais trabalham para os acionistas do Google e do Facebook ficarem mais ricos. Há casos de jornais e revistas que pagam ao Facebook para ampliar o acesso a algumas de suas notícias — o que reduz ainda mais sua margem de lucro. Há saída? O professor-doutor Rogério Christofoletti, da Universidade Federal de Santa Catarina, sugere que sim.

Rogério Christofoletti, professor-doutor da Universidade de Santa Catarina | Foto: Reprodução

No livro “A Crise do Jornalismo Tem Solução?” (Estação das Letras e Cores; a obra pertence à Coleção Interrogações, organizada por Lucia Santaella), Christofoletti, sugere caminhos para superar os percalços do “novo” mundo da comunicação. Entrevistado pelo Portal Imprensa, o pesquisador apresenta algumas ideias que são úteis para jornalistas e donos de jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão.

Usuários sugerem que quase tudo deve ser grátis na internet, sobretudo o jornalismo. Christofoletti aponta a “terrível economia da gratuidade” como uma das crises do jornalismo como negócio. “Chamo de ‘terrível’ porque ela é ilusória, mentirosa e perversa.  Ilude as pessoas, pois tudo que é produto do trabalho tem custos. E se tem custos, tem preço. Dizer que é grátis é mentira. A perversidade é que ela não afeta os grandes, mas sim os pequenos e médios. Os grandes players que vêm moldando a internet há duas décadas alimentaram essa ilusão e mal acostumaram as pessoas. Hoje, está mais claro que, se um produto aparenta não ter preço, é porque você é o produto. As big techs se alimentam dos muitíssimos dados que produzimos (espontânea e inadvertidamente), e elas rentabilizam esses dados de forma extraordinária. Como isso afeta o jornalismo? Da mesma maneira que afeta os mercados editoriais e fonográficos. O usuário médio espera ter o ´produto sem pagar por ele, mas isso é insustentável. As empresas do setor simplesmente quebram”.

O professor sublinha que “a saída é convencer o público de que a gratuidade é uma ilusão e que ele tem mais a ganhar se mantivermos viva uma indústria jornalística. O usuário não aceita pagar mensalidade de Spotify e de Netflix? O que faz com que uma pessoa pague religiosamente por esses serviços? Qualidade e relevância são dois fatores importantes”.

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