Euler de França Belém
Euler de França Belém

“Jornal Nacional” completa 50 anos e faz jornalismo responsável e equilibrado

Para melhorar o “JN” talvez seja adequado colocar dois blocos com analistas de política e economia

As redes sociais não criaram os radicais excessivos, mas deram-lhe plataformas, de alguma maneira eficazes, para suas manifestações. Seria uma democracia quase direta em ação. De fato, as pessoas passaram a se manifestar mais — o que é democrático. Espaços livres — ou relativamente livres — foram abertos à exposição dos indivíduos, quase sem filtros e monitoramentos. Há vantagens, imensas — como a oportunidade de todos poderem apresentar suas opiniões —, e desvantagens, como o excesso de opinião não estribada em fatos, e sim, por vezes, em desinformação e, até, ressentimentos. Na média, porém, a “abertura” é mais positiva do que negativa. E é incontornável.

William Bonner, Cid Moreira, Sérgio Chapelin e Renata Vasconcellos: os tempos de ontem e  de hoje | Foto: Reprodução

Nas redes sociais e em blogs de direita e de esquerda, a TV Globo era e é xingada e achincalhada. O seu carro-chefe em termos de jornalismo, o “Jornal Nacional”, já recebeu variados tipos de crítica. Nos tempos do PT no governo, era visto como anti-petista pelo petismo. Nos tempos do presidente Jair Bolsonaro, é apontado, por seus aliados, como antigovernista. Como a Globo apoiou a ditadura civil-militar — era uma de suas partes civis —, fazendo um mea culpa tardio (deveria ter feito durante a ditadura), sua imagem de governista ficou cristalizada.

Mas há anos a Globo vem deixando de ser governista e, por isso, faz um jornalismo crítico e posicionado — o que sugere uma comunicação anti-governo. Na verdade, faz jornalismo. E, como se sabe, jornalismo não agrada aqueles que estão no poder.

Cid Moreira e Sergio Chapelin: duas estrelas do Jornal Nacional | Foto: Reprodução

A crítica que se faz à Globo hoje não é mais verdadeira, pois a rede deixou de ser, há anos, o sorriso dos governos, do poder. Seus opositores mantêm a crítica feita no passado, deixando de admitir que houve uma mudança significativa do foco jornalístico.

Além de ter se tornado crítica, mostrando tudo, a Globo radicalizou na abertura de espaço para denunciantes e denunciados. Por vezes, na sociedade do justiçamento — que a sociedade do espetáculo radicaliza —, incomoda o fato de a rede ouvir, com atenção e de maneira responsável, o lado que está sendo criticado. Mas está certa: todos devem ser ouvidos. Suspeitos e acusados têm direito a apresentar suas posições, mesmo se estiverem faltando com a verdade.

O “Jornal Nacional”, ao completar 50 anos — meio século —, prova que está vivo. O “JN” faz um jornalismo factual, com os fatos “quentes” do dia. E faz isto muito bem. O que falta, mas aí o modelo teria de ser mudado, é um pouco mais de opinião para situar os telespectadores — que às vezes ficam meio “perdidos” com a quantidade excessiva de informações, na maioria das vezes desconectadas e divulgadas ideologicamente e de maneira mal-intencionada por sites e redes sociais. Uma análise equilibrada — por exemplo de um Demétrio Magnoli — pode esclarecer, de modo amplo, os fatos, contribuindo para informar o telespectador com mais qualidade e precisão.

Lillian Witte Fibe, Marcos Hummel (goiano de Catalão) e Berto Filho (falecido): o trio apresentou o Jornal Nacional | Fotos: Reproduções

A GloboNews, com o programa “Em Pauta”, faz um jornalismo de qualidade, com opiniões equilibradas e, em geral, diversificadas. Não se está defendendo que o “JN” copie o “Em Pauta”, porque os perfis são diferentes. Mas um pouco de opinião abalizada, sobretudo a respeito de fatos mais intrincados, poderia contribuir para deixar o telejornal mais denso. Eventualmente, William Bonner opina, porém mais em termos editoriais.

William Bonner e Renata Vasconcellos são apresentadores equilibrados e emprestam credibilidade ao “Jornal Nacional”. Poderiam, insistamos, posicionarem-se um pouco mais sobre os fatos. Os dois são jornalistas, com formação adequada, e, ao contrário do que parece pensar militantes das redes sociais, não são meros ledores de notícias. William Bonner, além de excelente apresentador — seu ritmo é perfeito, e incomparável —, entrevista muito bem e é firme no enfrentamento com os poderosos, sem perder a civilidade.

A equipe de jornalismo da Globo é uma das mais experimentadas do país e, por isso, sabe que algumas mudanças deverão feitas no “Jornal Nacional” — para que não chegue “envelhecido” aos telespectadores (as notícias estão sendo divulgadas intensamente, durante todo o dia, tanto na própria televisão quanto na internet). O tempo no “JN” é relativamente curto, por isso não há tanto espaço para opinião. Mas poderia acrescentar dois blocos de opinião. Renata lo Prete poderia comentar os fatos políticos do dia, com sua rapidez e profundidade habituais, e outro jornalista, talvez a precisa Monica Waldvogel, poderia analisar os fatos econômicos. Um terceiro bloco, que não precisaria ir ao ar todos os dias, poderia comentar as notícias internacionais. Guga Chacra (é competente, mas falta-lhe certa contenção) — ou o excelente Demétrio Magnolli — pode ser convocado para explicá-las.

A Globo mudou… e você? Percebeu a mudança? Percebeu se você mudou ou se você não mudou?

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