Euler de França Belém
Euler de França Belém

Jornal de Portugal, de 154 anos, troca o impresso pelo digital

O “Diário de Notícias”, que será impresso apenas no domingo, luta para sobreviver num mercado altamente competitivo

“Veja” e “Exame” são as principais revistas do Grupo Abril, que teve um prejuízo de 331 milhões de reais em 2017

A imprensa brasileira e internacional está em crise. O problema é mais de ordem financeira do que de falta de qualidade das reportagens e de escassez de leitores. Pelo contrário, apesar da entressafra de recursos, há jornais e revistas que investem cada vez mais em qualidade, e o número dos ledores, a se avaliar pelo acesso multiplicado, é altíssimo. Entretanto, se os investimentos foram feitos de maneira correta, ao menos em parte, o retorno, em termos de dinheiro, não é suficiente para bancar as principais publicações. Por isso, em alguns países, inclusive no Brasil, próceres do mercado das finanças ou dos grandes negócios, como Jeff Bezos — novo dono do “Washington Post”, o jornal que “derrubou” o presidente Richard Nixon, em 1974 —, estão adquirindo jornais e revistas. As velhas famílias estão sendo afastadas, porque, com os métodos antigos — como, no caso patropi, o faturamento quase que exclusivamente dos governos —, não conseguem bancar seus veículos de comunicação. O Grupo Abril, que edita a “Veja” e a “Exame”, símbolos de qualidade e solidez editoriais, anunciou, recentemente, que teve um prejuízo de 331 milhões de reais em 2017. A “IstoÉ” está em recuperação judicial. O grupo Folha da Manhã, que publica a “Folha de S. Paulo” e controla o Universo Online (UOL), vendeu sua parte no “Valor Econômico” para o outro sócio, a família Marinho, que comanda o Grupo Globo. Por todo o país (e outras nações), há jornais e revistas em decadência. É um fenômeno globalizado.

Jornais e revistas brazucas estão demitindo a rodo e, mesmo assim, os déficits mensais continuam. Porque não basta reduzir o custo da mão de obra. É preciso diminuir o custo estrutural de empresas que, ao longo dos anos, se tornaram gigantes e, até certo ponto, incontroláveis (Herbert de Moraes Ribeiro, o fundador do Jornal Opção, costumava chamar isto de “a armadilha do crescimento”; na prática, é um mecanismo intrínseco ao capitalismo). Qual a lógica de comprar papel, impressoras caríssimas (estão sobrando usadas de qualidade no mercado) e fornecer jornalismo gratuito? Lógica, não há. Por isso, para bancar páginas “abertas” — o que “O Globo”, a “Veja”, a “Folha de S. Paulo”, entre outros, não estão fazendo mais —, é preciso cortar em algum lugar, na folha dos funcionários, por exemplo, e no custo operacional.

A contradição do jornalismo atual é: não faltam leitores — os acessos multiplicam-se, sobretudo porque todas as publicações se tornaram nacionais e, eventualmente, apesar da barreira da língua, mundiais — mas escasseia dinheiro nas contas bancárias das empresas. Aos poucos, os proprietários e executivos vão descobrir como ganhar dinheiro com a internet. Mas, até descobrirem, alguns negócios, cujo capital de giro está sendo solapado diariamente, quebrarão ou viverão no vermelho. Além de criar suas próprias fórmulas de faturamento, jornais e revistas têm de ficar de olho no modo como Google e Facebook vêm faturando, e em larga escala. O Google capta anúncios e insere-os em jornais e revistas — repassando migalhas para os supostos parceiros. Trata-se de um faturamento não dispensável; ao contrário, é bem-vindo. Mas é muito mais lucrativo para o Google do que para jornais e revistas. Quanto ao Facebook, há registro de jornais pagando para divulgar suas reportagens. Isto mesmo: pagando para ser lido.

No Brasil começam a surgir veículos exclusivos na internet, como a “Crusoé”. Com profissionais experimentados (não há espaço para focas, sob o argumento de que o barato às vezes sai caro), retirados do mercado — o editor Rodrigo Rangel é egresso da “Veja” —, a revista tem publicado reportagens de qualidade, com repercussão nas publicações tradicionais. Sua redação é enxuta e a empresa não tem despesas com gráfica, diagramadores (definido o projeto gráfico, os jornalistas postam suas reportagens e artigos) e não precisa de espaços (como sede) imensos — o que a torna mais viável.

As revistas “Piauí” e “451” — impressas — funcionam mais ou menos no sistema de mecenato. São investimentos de banqueiros (do Itaú-Unibanco) — as famílias Moreira Salles e Setúbal — que apostam em jornalismo e cultura.

Leitores costumam perguntar se o Jornal Opção é “semanário” ou “diário”. A pergunta é pertinente. Na internet, trata-se de um jornal diário (bem editado pelos jornalistas Marcelo Gouveia e Matheus Monteiro), com reportagens publicadas várias vezes ao dia. No domingo, sai a versão impressa. Trata-se do semanário. Por sinal, com acesso extraordinário na internet — desmitificando a tese de que textos longos são poucos lidos. Na verdade, o leitor, sobretudo o mais qualificado, não se importa tanto se o texto é curto ou longo. O que busca é qualidade. Reportagens e análises bem escritas e mais densas têm público garantido na internet, porque são elas que municiam o debate nas (e fora das) redes sociais. Textos insossos — alguns são cópias de releases de segunda categoria— são abandonados rapidamente, às vezes sem serem lidos. Há outra virtude nos textos mais profundos e bem escritos: eles continuam sendo lidos muito tempo depois de publicados. Permanecem atuais e rendendo acesso para os jornais e revistas. Alguns textos do Jornal Opção — como três entrevistas do procurador da República Helio Telho, do cientista político Wilson Ferreira da Cunha, da PUC-Goiás, e do antropólogo e arqueólogo Altair Sales Barbosa, ex-professor da PUC-Goiás, são lidas diariamente, embora tenham sido publicadas há meses e, duas delas, há mais de dois anos. Há artigos e resenhas que são lidos todos os dias. São textos que dão fundamento ao jornal, que o representam como, digamos, instituição. São exclusivos — não são “chupados” de outros lugares porque estão dando “acesso” imediato. Há material jornalístico que valoriza e há material jornalístico que desvaloriza quem o publica.

Em Portugal

O jornal português “Diário de Notícias”, de 154 anos, circula como impresso apenas aos domingos; durante a semana, é um jornal digital

O “Diário de Notícias” (circula há 154 anos), de Portugal, adotou estratégia parecida, mas não igual, à do Jornal Opção. O “DN” era diário no impresso e agora é diário apenas na internet. Sua versão impressa sai apenas no domingo — como o Jornal Opção.

O diretor do “Diário de Notí­cias”, Ferreira Fernandes, afirma que os leitores de jornais impressos preferem as edições de sábado e de domingo, dias em que têm mais tempo para ler. Por isso, a empresa decidiu mantê-lo com uma edição reforçada no domingo. Seu lema é: “Um diário para os nossos dias”.

“O ‘DN’ ultrapassou todas as crises porque soube rejuvenescer-se e adaptar-se à realidades”, afirma Daniel Proença de Carvalho, presidente do Conselho de Administração do Global Media Group. “Hoje, em 2018, o ‘DN’ deu um salto para se aproximar dos seus leitores.” O executivo frisa que a passagem para o digital, ainda que se mantenha um pé no impresso, equivale a “um realístico acompanhamento do que o mercado nos apresenta”.

O “Diário de Notícias”, segundo seus diretores, é líder em audiência no campo digital. Proença Carvalho afirma, baseado em estudo da Reuters, que “os leitores estão a abandonar as plataformas sociais e a regressar ao jornalismo”. O motivo é prosaico: as redes sociais foram devastadas pelas fakes news e pelo excesso de opinião sem embasamento. Agora, depois da empolgação inicial, os leitores mais qualificados, com receio de compartilhar informações falsas e/ou mal costuradas, estão de volta às publicações que informam corretamente e aprofundam, no mais da vezes, o debate político, econômico e cultural. Com a revalorização dos jornais e revistas, apontados como fontes seguras de informações e análises, o dirigente do “DN” afirma que é hora de reconquistar leitores e, sobretudo, de conquistar novos leitores — criando um pacto de confiança. “Quem abraçar rapidamente os novos tempos está [estará] melhor preparado para abraçar o futuro”, sublinha.

Uma das políticas editoriais do “DN” é manter uma capa, inclusive numerada, com informações novas todos os dias. Porque jornal diário online que não renova sua capa, e até com certa frequência, fica com ar de “coisa vista”, de “coisa superada”. A prioridade do jornal é a publicação de notícias sérias, de interesse da sociedade — o que não quer dizer que não se publicará entretenimento.

No domingo, o jornal circula, sob o formato berliner, com novo projeto gráfico-editorial. O jornal vai para as bancas com um caderno especial de 16 páginas, com o título de “1864” (referência ao ano de fundação do veículo). O jornal também tem revistas temáticas, que circulam durante o mês. A “DN Life” discute comportamento, família e saúde. A “Ócio” é um espaço para temas que têm a ver com luxo e “coisas boas da vida”. Questões ligadas à tecnologia e digital saem na “DN Insider”. O jornal também publica “uma revista feminina do site Delas.pt”.

A boa notícia? Simples: há espaço para o bom jornalismo. Tanto que as mudanças no “Diário de Notícias” agradaram os leitores portugueses. A má notícia é: jornais que cederem ao sensacionalismo, numa busca desenfreada por acesso, terão dificuldade para reconquistar ou conquistar público qualificado. Há jornais diários que estão ficando com a “cara” do “Daqui”. Estão jogando talento no lixo… Não é possível desenvolver novos talentos colocando-os para produzir jornalismo de má qualidade. O sujo suja o limpo, mas o limpo não limpa o sujo…

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Marcos Gomes

Prezado, Euler, bom dia! Nosso “querido” Diário da Manhã, merece uma análise como essa.