Euler de França Belém
Euler de França Belém

Jornais e revistas “pagam” leitores e “fingem” que estão cobrando

Assinatura por 6 reais não paga custos de grandes estruturas. Na verdade, os meios de comunicação estão subsidiando seus leitores

Pintura de Igor Morski

Vá a uma banca de revista e compre o exemplar de “O Globo”. Não sai por menos de 5 reais, ao menos em Goiânia, porque certamente inclui o custo do frete do Rio de Janeiro para Goiás. A assinatura digital é oferecida por 5,90 reais — uma ninharia. O mesmo ocorre com os outros jornais, como a “Folha de S. Paulo”. Ideia postulada: trata-se de um valor provisório. Parece, mas não é. Porque os leitores aprenderam as manhas dos departamentos de assinatura e, após o fim do “contrato”, rompem com os jornais, que se sentem compelidos a oferecer, mais uma vez, o que produzem a preço de banana. Por que isto?

Os jornais não podem, ou não querem, dizer aos leitores, às agências de publicidade e aos anunciantes que se tornaram praticamente gratuitos. Ah, dirão: “Mas algumas reportagens são reservadas unicamente para assinantes”. Uma “bobagem” típica de quem, estando na internet (o mundo digital), não soube entendê-la completamente. Na verdade, com notícias “fechadas”, os leitores correm para outros jornais, onde podem lê-las livremente. Às vezes, em determinados jornais, que compram material de agências, as reportagens são inteiramente livres.

Pintura de Igor Morski

Há outra questão: os jornais, com assinaturas a 5,90 reais, e mesmo um pouco mais, não são apenas gratuitos. Na verdade, jornais e revistas estão pagando — subsidiando — os leitores para que leiam suas reportagens. Trata-se de um pacto faustiano, implícito, mas do qual todos estão cientes. Com mais leitores, os meios de comunicação podem dizer às agências e anunciantes: “Nós temos milhares de assinantes e milhões de leitores”.

Costumo brincar, na redação, que, daqui a algum tempo, os jornais distribuirão cassetetes aos seus editores e repórteres para que obriguem as pessoas a ler o que escrevem. A competição por leitores, num mundo cada vez sob o domínio da dispersão e da fartura de informações e entretenimento, é cada vez mais feroz. Diz-se, comumente, que os jornais e revistas impressos vão desaparecer. É provável que sim, e também é possível que, se sobreviverem, se tornem menores, com custo reduzido, e circunscritos à análise, e não mais à cobertura factual. “O Popular” está morto, do ponto de vista dos leitores, assim que é impresso, ou seja, antes de chegar às bancas (que, sim, vendem até jornais e revistas). Não que o jornal seja ruim, é que seu modelo jornalístico envelheceu, não diz mais respeito ao mundo contemporâneo. Talvez seja possível sugerir que o “Pop” é o Iris Rezende do jornalismo patropi e, por isso, vive das glórias do passado, numa nostalgia sem fim.

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