Jair Bolsonaro e a sombra de Saturno

Usar a pretensa virilidade para desrespeitar os protocolos da OMS é colocar-se ao lado de uma entidade mítica, Hades, o deus da morte

Jorge Miklos

A recomendação das autoridades científicas de saúde para que a população brasileira evite sair de casa tem sido amplamente propagada pelos canais de imprensa. Trata-se de um protocolo para diminuir o alastramento do Covid-19, evitar o colapso do frágil sistema de saúde e salvar vidas. Muitos países têm adotado a orientação do isolamento social e, mesmo assim, a pandemia tem ocasionado muitos óbitos.

Saturno devora um filho/Pintura de Goya

No domingo, 29 de março, o presidente Jair Bolsonaro, contrariando todas as diretrizes e recomendações das autoridades de vigilância sanitária, realizou um passeio nos arredores de Brasília, atraindo aglomerações e a atenção de muitos, que estavam nos arredores, que se aproximavam do presidente. Valendo-se de sua linguagem habitual, disse a respeito da pandemia: “Vamos ter que enfrentar como homem, porra [grifo nosso]. Não como um moleque”. Na fala do presidente está explícito o sentido de que ele se considera “macho” o suficiente para tornar-se imune à doença e que somente os fracos ou os que não são homens o bastante é que estão com medo da grave pandemia.

Recorte da pintura de Jose Benlliure y Gil (1855-1937) retratando Caronte, o barqueiro de Hades | Foto: Reprodução

No seu discurso, Jair explicita os valores do que se entende por masculinidade tóxica, que postula que a virilidade de um homem se vincula à sua força ilimitada. E por que isso é tóxico? Uma pesquisa da Organização Pan-Americana de Saúde atestou que 57% dos homens afirmaram ter sido ensinados, durante a infância e adolescência, a não se preocupar com a saúde, pois isso indicaria fraqueza. A pesquisa também indicou que os homens têm a expectativa de vida 5,8 anos menor que a das mulheres. Uma das razões é o fato de os homens demorarem para procurar serviço médico. A imprudência com a saúde pode ser letal.

Com esse discurso (e discurso é ato), Jair Bolsonaro literaliza a imagem mítica patriarcal do deus Cronos (Saturno para os romanos), que devorava os seus próprios filhos. Usar a pretensa virilidade para desrespeitar os protocolos da OMS é colocar-se ao lado de outra entidade mítica, Hades, o deus da morte.

Jorge Miklos é sociólogo, analista junguiano e pesquisador sobre masculinidades contemporâneas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.