Euler de França Belém
Euler de França Belém

Isaac Bashevis Singer diz que Bruno Schulz é maior do que Franz Kafka

Nobel de Literatura é herético ao dizer que o judeu polonês, morto pelos nazistas, é superior ao autor de “A Metamorfose”, um dos maiores autores de todos os tempos

Em 1976, os escritores judeus Philip Roth e Isaac Bashevis Singer mantiveram uma conversa polêmica. O registro está no livro “Entre Nós — Um Escritor e Seus Colegas Falam de Trabalho” (Companhia das Letras, 172 páginas, tradução de Paulo Henriques Britto), de Philip Roth. Singer, autor de contos e romances (quase mágicos), é herético ao dizer que o judeu polonês Bruno Schulz (1892-1942), morto pelos nazistas, é superior ao tcheco Franz Kafka, tido como um dos maiores autores de todos os tempos. A Editora Imago publicou “Sanatório” (231 páginas, 31 reais, tradução de Henryk Siewerki) e “Lojas de Canela” (180 páginas, 35 reais). “Lojas de Canela”, romance autobiográfico, foi resenhado e elogiado por Singer.

Ao iniciar a leitura de Schulz, Singer diz ter pensado: “Este aqui é um escritor de primeira. […] A minha primeira impressão foi: este homem escreve parecido com Kafka. Há dois escritores que, segundo se diz, escrevem como Kafka. Um deles é Samuel Joseph Agnon [1888-1970, Prêmio Nobel de Literatura de 1966]. Ele [Schulz] dizia que nunca lera Kafka. […] Na verdade, ele leu Kafka, sim. […] Eu não diria que ele foi influenciado por Kafka; existe a possibilidade de que duas ou três pessoas escrevam em estilos parecidos, dentro do mesmo espírito. Porque nem toda pessoa é absolutamente singular. […] Mas quanto mais eu lia Schulz — talvez eu não devesse dizer isto — eu dizia: ele é melhor do que Kafka. Alguns de seus contos têm mais força. Além disso, ele é muito forte no absurdo, mas não de uma maneira ingênua, e sim inteligente. Eu diria que entre Schulz e Kafka existe uma coisa que Goethe chama de Wahkverwandtschaft, uma afinidade de almas que a própria pessoa escolhe”.

Discreto, Roth não defende a mesma tese de Singer, sobre Schulz ser “maior” do que Kafka, mas admite sua importância: “Assim como em ‘Lojas de Canela’ ele reimagina sua cidade nativa, Drohobycz, como um lugar mais terrível e mais maravilhoso do que era na verdade — em parte, diz ele, para ‘se libertar das torturas do tédio’ —, ele reimagina fragmentos de Kafka para seus próprios fins. Kafka pode ter lhe dado algumas ideias engraçadas, mas o indício mais forte de que os objetivos dele são diferentes é talvez o fato de que no livro de Schulz o personagem que se transforma em barata não é o filho, e sim o pai. Imagine Kafka imaginando uma coisa dessas! Fora de questão. Algumas predileções artísticas são semelhantes, mas elas estão associadas a desejos radicalmente diferentes. Como você sabe, Schulz traduziu ‘Processo’ para o polonês em 1936”. (Roth escreveu “O Seio”, uma novela inspirada em “A Metamorfose”.)

Embora tenha sido generoso com a prosa estranha de Schulz, Singer ressalvou, numa resenha de 1963, citada por Roth: “Se Schulz tivesse se identificado mais com seu povo, talvez não tivesse gastado tanta energia em imitações, paródias e caricaturas”. Ao próprio Roth, Singer disse: “Há muito deboche nos escritos de Schulz e nos de Kafka, se bem que em Kafka o deboche é mais disfarçado. A meu ver, Schulz tinha potencial para escrever romances de verdade, sérios, mas em vez disso escrevia coisas semelhantes a paródias. E acho que, acima de tudo, ele desenvolveu esse estilo porque não se sentia realmente em casa, nem entre os poloneses nem entre os judeus. É um estilo que também caracteriza Kafka, porque Kafka também achava que não tinha raízes”.

Bruno Schultz, escritor judeu polonês assassinado pelo nazismo em 1942

Roth diz que o tédio e a claustrofobia pesam mais na prosa de Schulz. “Me parece inteiramente consciente do fato de que sua imaginação agitada o levava até a fronteira da loucura, ou da heresia. […] A impressão que se tem é que Schulz mal conseguia se identificar com a realidade, quanto mais com os judeus. Isso nos faz pensar no comentário feito por Kafka sobre as suas afinidades comunitárias: ‘O que é que tenho em comum com os judeus? Não tenho quase nada em comum comigo mesmo, e por mim ficaria quietinho num canto, contente por poder respirar’. Schulz não tinha por que ficar em Drohobycz se achava o lugar tão sufocante assim. […]. Mas é possível que o ambiente claustrofóbico que não atendia às necessidades do homem fosse precisamente o que dava vida à espécie de arte que ele produziu. Uma de suas palavras prediletas é ‘fermentação’. Talvez sua imaginação só pudesse fermentar em Drohobycz”.

Isaas Bashveis Singer, escritor polonês que ganhou o Nobel de Literatura

Nascido na Polônia, Singer passou a vida escrevendo em iídiche (chegou a ser traduzido pelo excepcional prosador Saul Bellow) e mudou-se para os Estados Unidos para fugir do nazismo. Roth pergunta: “E ao sair da Polônia, você teve medo de perder o contato com o seu material?” Singer responde: “É claro, e esse medo se tornou ainda mais forte quando cheguei a este país. Cheguei aqui e vi que todo mundo falava inglês”. Numa reunião de chassídicos, duzentas mulheres diziam: “delicious, delicious, delicious” (delicioso). “Naquele momento”, diz Singer, “a Polônia me pareceu muito distante. Quando morre uma pessoa que é próxima a você, nas primeiras semanas depois da morte essa pessoa fica tão distante de você quanto é possível se estar; é só com o passar dos anos que ela se torna mais próxima, e aí chega um momento em que você está quase vivendo com ela. Foi o que aconteceu comigo. A Polônia, a vida judaica na Polônia, está mais próxima de mim agora do que estava naquela época”.

[Texto publicado no Jornal Opção em dezembro de 2008]

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