Ira provocada pela morte de George Floyd expõe inconformidade antirracista e une negros e brancos

Superação do racismo aquece o coração dos lutadores com a esperança de que outra sociedade é possível, a que permita o verdadeiro relacionamento entre negros e brancos como pessoas

Gustavo Mesquita

Especial para o Jornal Opção

Manifestação condena o assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos | Foto: Reprodução

Protestos antirracistas espalham-se pelo mundo como uma fagulha desde a morte do norte-americano George Floyd, de 46 anos, no dia 25 de maio. Nem mesmo uma pandemia impediu manifestações de rua que, muito ao contrário, agigantam-se nos Estados Unidos e alcançam os países da Europa em que o mal-estar do racismo é uma bomba-relógio. Nestes e em outros lugares do planeta, assiste-se a mobilizações de negros e brancos com diferentes formas de ação: de passeatas com destino às sedes dos poderes nacionais a atos performativos de crítica à atroz animalidade com que Floyd fora tratado pelo policial Derek Chauvin e seus colegas de farda. Aos atos respeitosos da vida de pessoas negras aglutinam-se cantos, gritos e outros gestos de luta com os quais manifestantes falam alto para que todos ouçam: “Não consigo respirar” (“I can’t breathe”), “Sem justiça sem paz”, “Vidas negras importam” (“Black lives matter”), e assim por diante.

George Floyd tinha 46 anos e foi brutalmente assassinado por um policial | Foto: Reprodução

A chama da contestação ao racismo ganhou força imediatamente ao assassinato de Floyd. Na terça-feira, 2, iluminou a humanidade com a atitude criativa e sensibilizadora da juventude inconformada de Portland, Oregon, onde, na principal ponte do centro da cidade, a multidão deitou-se no chão e representou a mesma cena de asfixia-quase-estrangulamento, por mais de oito  minutos, que tirou a vida do segurança e rapper negro. Esta dramatização do sofrimento foi eficiente em destruir o sentimento de passividade desejado pelos amantes da ordem, já que na ponte, símbolo de encurtamento de distâncias ou união entre posições distantes, houve o contrário do vandalismo que geralmente enfraquece manifestações de rua. Fez-se, no ato teatral de Portland, uma forma de política reivindicadora de justiça aos oprimidos, simbolizando-se uma ponte que já não aproxima, não une os seres humanos, porque ocupada pela violência do racismo.

A responsabilidade moral dos brancos pela inclusão negra na sociedade
democrática tem sido encarada de frente pelos que aderiram aos protestos

A dramatização do sofrimento infligido por racistas aos seres humanos tem sido recurso usual na nova onda de protestos antirracistas. Muitos consideram este viés mais poderoso, por ser mais tocante, do que a fúria exalada na destruição da propriedade privada e no ataque a policiais, numa inversão do alvo da violência. Se a ira é o combustível da mobilização popular, seria o conflito violento seu resultado inevitável? Quando não houve depredações e agressões, agentes da polícia se sensibilizaram com a causa antirracista e participaram dos protestos de rua, deixando o presidente Donald Trump praticamente isolado em sua tentativa de repressão com o uso da força extrema.

Manifestação pacífica que cobra Justiça e uma sociedade que respeite os negros | Foto: Reprodução

O que se tem visto nos Estados Unidos e alhures é a continuação da luta antirracista que teve seu boom nos anos 1960. Na forma pacífica do movimento pelos direitos civis, liderado por Martin Luther King Jr. (1929-1968 — assassinado aos 39 anos), ou na forma agressiva do movimento dos Panteras Negras, liderado por Malcom X (1925-1965 — assassinado aos 39 anos), a superação do racismo é o objetivo que aquece o coração dos lutadores com a esperança de que outra sociedade é possível; uma sociedade que permita o verdadeiro relacionamento entre negros e brancos como pessoas, simplesmente pessoas. Desta vez, o “Dream” de King ecoou no mundo inteiro e uniu negros e brancos na revitalização do antirracismo, à revelia de líderes autoritários e doenças contagiosas. O assassinato racista de Floyd foi o gatilho para que a ira tomasse conta das ruas e os manifestantes de muitos países, de novo em busca da dignidade humana, eternizassem formas de luta que podem ser resumidas no grito: “Queremos justiça!”

A inconformidade não diz respeito apenas à violência policial, mas à estrutura da sociedade, de maneira mais ampla. Todos sabemos que a desigualdade entre negros e brancos é gritante em vários países, e repetir as estatísticas comprobatórias funciona para nunca perdermos de vista a necessidade de reparação histórica. Se hoje a humanidade está mais consciente do racismo, há sinais de vitória dos que se engajaram nos movimentos negros ao longo da história. Foram necessárias persistentes lutas até a situação mais favorável à rebeldia antirracista em que vivemos. O que os atuais protestos representam é um profundo desejo de que o mundo não marche para trás e que o passado colonial, enfim, acabe, deixando a humanidade a ponto de criar espaço para a realização de projetos de futuro. Confronta-se, assim, a expectativa de dominação fascista do mundo.

O policial branco Derek Chauvin asfixiando e matando George Floyd | Foto: Reprodução

É de se notar a união entre pessoas de várias cores nos protestos que tomaram conta das ruas. Negros não ficaram isolados nesta ira, com a qual pessoas de outras cores manifestam a mesma energia antirracista e a mesma vontade de conquista da igualdade. A se avaliar pelas transmissões ao vivo dos protestos, o presente diferencia-se do passado, na medida em que a luta antirracista não é mais encarada por muitos como de exclusiva responsabilidade dos negros. A responsabilidade moral dos brancos pela inclusão negra na sociedade democrática parece estar sendo encarada de frente pelos que aderiram aos protestos. Neste passo adiante, eles respondem positivamente ao “American Dilemma” de Gunnar Myrdal, ou seja, assumem juntos com os cidadãos de outra cor a responsabilidade pelo fim da injustiça que destrói vidas. De braços dados, batalham pela possibilidade do amanhã com maior esperança de viverem num mundo sem raças.

Gustavo Mesquita é doutor em História pela Universidade de São Paulo. Autor do livro “Gilberto Freyre e o Estado Novo — Região, Nação e Modernidade” (Global, 240 páginas) e coautor de “Guerra Fria e Brasil — Para a Agenda de Integração do Negro na Sociedade de Classes” (Alameda, 272 páginas).

Uma resposta para “Ira provocada pela morte de George Floyd expõe inconformidade antirracista e une negros e brancos”

  1. Jose A. Lindgren-Alves disse:

    Excelente artigo. Trata do assunto com abrangência, sem os chavões costumeiros. A solidariedade internacional é dado novo importante, assim como a participacao maciça de brancos nas manifestações. No Brasil algo importante nessa linha é o movimento que mostra sermos 70 por cento os antifascistas que rejeitam atentados contra a democracia. Sem ela nossas desigualdades nunca terao fim.

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